77.5

O gênio de 3 Corações

Marcelino Rodrigues da Silva 11 de novembro de 2015

O texto de hoje é sobre a canção “Gênio de 3 Corações”, que faz parte do álbum Stinkin like a brazilian, do artista mineiro Rubinho Troll. Com produção musical de John Ulhoa, da banda Pato Fu, o álbum foi lançado na rede em 2010 e relançado pelo selo Rotomusic em 2011. Para não dar um spoiler e antecipar inadvertidamente as reações do leitor e potencial ouvinte, aviso desde já: o disco completo está disponível para audição no YouTube (veja abaixo) e pode ser comprado na loja virtual do Pato Fu. Dada ao leitor a oportunidade da experiência direta com a canção, já posso dizer que o gênio em questão é Pelé, jogador de futebol nascido na cidade mineira de Três Corações e considerado por muitos o maior atleta de todos os tempos.

https://www.youtube.com/watch?v=SIlWWA-QxHg

Além do interesse pelo futebol como fenômeno cultural, tema de grande parte de meu trabalho como pesquisador, duas circunstâncias biográficas justificam meu interesse pela canção. A primeira é que fui um grande fã do trabalho poético e musical de Rubinho, no final dos anos 1980 e início dos 1990, quando ele era membro da banda pós-punk Sexo Explícito, que marcou época na cena cultural belo-horizontina. A segunda é que trabalhei por alguns anos em Três Corações, onde tomei contato com a curiosa relação que a comunidade tricordiana mantém com seu filho mais famoso. Como Pelé nunca deu muita bola para a cidade, seus moradores cultivam por ele um sentimento ambíguo de amor e ódio, de orgulho e ressentimento. Essas referências foram instantaneamente ativadas quando ouvi pela primeira vez a canção, numa experiência cheia de humor e lembranças pessoais.

Antes de falar da canção, cabe ainda uma pequena menção à trajetória do autor. Pelo que sei, essa trajetória começou com o grupo Cemflores de poesia marginal, do qual também faziam parte Marcelo Dolabela e Gato Jair, que hoje são professores de literatura. Na mesma época, ou pouco depois, vieram as bandas: Divergência Socialista, sob o comando de Marcelo Dolabela; Último Número, liderado por Gato Jair; e Sexo Explícito, com John e Rubinho. O Sexo galgou alguns degraus no mercado musical, mudou-se para São Paulo e acabou se desfazendo. Depois disso, Rubinho foi morar na Inglaterra, onde vive até hoje.

Como sugere o título do álbum de que a canção faz parte, cuja tradução é “Fedendo como um brasileiro”, a experiência de Rubinho na terra natal do futebol moderno é certamente um elemento a se considerar na sua interpretação. Um brasileiro mestiço e excêntrico vivendo em Londres, visto através dos estereótipos do brasileiro, que já deve ter ouvido milhares de vezes as perguntas: “Você é brasileiro? Terra de Pelé, do samba, do carnaval e do futebol?”

Desde o título, propositalmente vago e ambíguo, a letra de “Gênio de 3 Corações” é uma versão invertida do mito Pelé. Ao invés de elogiar o jogador pelos seus feitos extraordinários, ela fala de Pelé justamente pelos gols que ele não fez; ou seja, pela falta, pelo erro, pela imperfeição: “O rei Pelé em sua carreira não marcou gol / Em oitenta e três dos jogos que jogou”. E, mais à frente: “Bola na trave, bola pra fora ou na mão do goleiro / Impediram Pelé de marcar e também o zagueiro”.

Matreiramente, a canção propõe até um cálculo matemático, que afinal é enganoso e inútil: “Os que ele marcou foram mil duzentos e oitenta gols / Mas os jogos foram mil trezentos e sessenta e três”. O problema é que Pelé certamente fez mais de um gol em muitos jogos. Os dados a esse respeito, como se sabe, são controversos e imprecisos. Logo, o cálculo passa longe do rigor histórico e o que temos aí é um truque, um primeiro elemento para compor o quadro da poética astuciosa engendrada pelo Troll.

Embora a canção aponte para a imperfeição na trajetória heroica de Pelé, Rubinho se esquiva malandramente da posição de crítico: “Isso não é, sobre Pelé, uma crítica não / Quem sou eu pra criticar um gênio…”. A esquiva é claramente irônica, pois o texto é, obviamente, uma crítica, um contraponto à grandeza da imagem do jogador. Dá pra imaginar a resposta daquele brasileiro esquisito em Londres, ao ouvir a pergunta de sempre: “Pelé? Em 83 jogos ele não marcou, ele é humano, falível, limitado…” E, em seguida, a réplica: “Quem é você pra criticá-lo?”

Temos aqui, então, um diálogo enviesado com a mitologia do futebol brasileiro, uma desconstrução da lenda do herói nacional, expondo um sentimento de desencaixe e desidentificação, semelhante ao que vi em Três Corações. Isso já seria suficiente pra considerar a música como um caso interessante de utilização crítica dos mitos do futebol, que serve pra mostrar como é limitada a ideia do esporte como “ópio do povo”, como instrumento de alienação e manipulação das massas.

Pelé. Foto Paulo Pinto/Fotos Publicas
Pelé. Foto: Paulo Pinto – Fotos Publicas.

Mas o que me parece mais interessante é o modo como essa abordagem temática dialoga com o próprio trabalho formal na fatura da canção. Na base sonora, já se pode ver uma quebra dos clichês musicais do futebol, com um rock nervoso, cheio de efeitos especiais e elementos psicodélicos, ao invés do choro, da mpb ou do samba, gêneros tradicionais do cancioneiro futebolístico brasileiro. Na letra, podemos observar um pouco das técnicas tradicionais da canção, enraizadas na lírica trovadoresca, como a inversão sintática e o desenvolvimento alternativo de versos de estrofes anteriores. Mas esses recursos servem a um jogo específico, uma finta com as palavras, que desconcerta o ouvinte da canção.

No final da primeira estrofe, o texto “chama” a rima errada: “Isso não é, sobre Pelé, uma crítica não / Quem sou eu pra criticar um gênio”… E a música parece sugerir a frase melódica que completaria o erro: “…de 3 Coraçãos”. Mas, em seguida, Rubinho mostra que é um bom artesão, interpolando um verso que conserta a rima (“Por defeito em suas ações”) e lhe permite terminar triunfalmente a estrofe com a combinação sonora correta: “Quem sou eu pra criticar um gênio de 3 Corações”.

Na segunda estrofe, o erro sugerido antes se realiza, com a opção explícita pela rima errada: “Quem sou eu pra criticar um gênio / Que venceu ingleses e alemães / Quem sou eu pra criticar um gênio de 3 Corações”. É como se Rubinho brincasse de errar, fingindo que vai para um lado e indo para o outro. Na terceira estrofe, ele volta a fazer uma rima foneticamente certa, ao mesmo tempo em que se reconhece como um “perna de pau”, o que acentua o caráter irônico e autoconsciente do erro cometido antes: “Quem sou eu pra criticar um gênio / Sendo eu um grande perna de pau / Quem sou eu pra criticar um gênio e herói nacional”.

O perna de pau no futebol, então, mostra que é craque na poesia e joga não só com os mitos do futebol, mas também com os hábitos poéticos e musicais do ouvinte. Nesse jogo, o erro formal funciona como um drible nas expectativas do ouvinte, assumindo um sentido irônico, que contribui para efeito geral de acidez e sarcasmo no tratamento do tema do herói futebolístico nacional. Tomando a ideia do “drible” como uma espécie de imagem conceitual, podemos aproximar a linguagem do jogo e a linguagem poética, por meio de uma “homologia estrutural”, problema teórico que tem sido estudado mais sistematicamente por outros pesquisadores do FULIA, especialmente por Gustavo Cerqueira Guimarães.

Acho interessante, finalmente, pensar também em como essa postura diante do grande mito esportivo dialoga, ao mesmo tempo, com as tradições iconoclastas da poesia moderna e do rock, por meio de recursos como a ironia, a dissonância e o estranhamento, e com o momento atual do futebol brasileiro. Pensar no trabalho formal da canção como um drible permite ver como esse jogo crítico e irônico não se dá contra o futebol, mas por meio dele, em diálogo com ele. Aliás, com o fim do grande ciclo mítico do “país do futebol”, decretado pelo cômico 7 x 1 de 2014, esse tipo de apropriação do esporte parece estar cada vez mais em voga.

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Marcelino Rodrigues da Silva

Professor de literatura na UFMG.

Como citar

SILVA, Marcelino Rodrigues da. O gênio de 3 Corações. Ludopédio, São Paulo, v. 77, n. 5, 2015.
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