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O Imortal Lupicínio Rodrigues

O compositor e cantor porto-alegrense compôs o hino que talvez seja o mais bonito entre clubes brasileiros e transborda o sentimento de ser torcedor: é preciso estar sempre com o time, no caso, o Grêmio.

Dizem que para ser torcedor é preciso sofrer um bocado. Não são poucas as desilusões que nos causam os jogadores que ostentam os escudos e envergam as camisas pelas quais somos apaixonados.

Vez ou outra, um zagueiro da cintura dura azeda a quarta-feira, o goleiro falha e acaba com o domingo, ou mesmo aquele árbitro de reputação duvidosa aparece para fazer possível o título do arquirrival e jogar o torcedor derrotado na mais legítima fossa.

Pois bem, de sofrimento e chateação poucos conheceram tanto quanto Lupicínio Rodrigues, o rei da dor de cotovelo, que recusava os títulos de cantor e compositor e se dizia apenas um boêmio. Mais que boêmio, o compositor foi um romântico gremista.

Foto: Reprodução

O romantismo gremista

Apenas o homem com “Nervos de Aço” seria capaz de entender o que se passa na cabeça do torcedor quando sai de casa pronto “para o que der e vier”, para seguir de perto o time de coração.

É preciso entender o que se passa com o torcedor para ser capaz de escrever que “até a pé nós iremos”, para qualquer lugar, só para acompanhar seu clube. Só Lupicínio Rodrigues seria capaz de compor o mais belo e sanguíneo hino de futebol.

A composição é mais que um hino, é uma declaração de lealdade. Quem canta o hino do Grêmio, assina um contrato de fidúcia com o lado azul, preto e branco de Porto Alegre. Lupicínio foi apaixonado pelo Grêmio, esse sim, seu amor correspondido. O cantor era figura presente nos jogos do Tricolor e fazia questão de acompanhar o time nas arquibancadas.

Justamente uma dessas idas ao estádio motivou a composição do hino. Porto Alegre passava por uma greve dos bondes e Lupicínio se encontrou com seus amigos para irem assistir o jogo, mas surgiu o questionamento sobre como chegar ao estádio se não havia bondes circulando. Foi quando o compositor respondeu que “até a pé iria” ver o Grêmio.

Foto: Reprodução

Até a pé iremos contra o racismo

O fato de Lupicínio, homem negro e de origem pobre, ser torcedor do Grêmio, era motivo de questionamentos de conhecidos, pois o Tricolor era ligado às elites e era o Internacional, o time conhecido como o Clube do Povo.

Para além das questões sociais, o amor de Lupicínio pelo Grêmio tinha origem em um fato acontecido na década de 1920. O próprio compositor contou sua história num texto publicado em uma coluna que assinou no Jornal Zero Hora, nos anos 1960.

O artigo intitulado “Porque sou gremista”, publicado em 6 de abril de 1963, narra a fundação do Rio-Grandense, um time formado por negros da periferia da capital gaúcha. No entanto, quando esse time pediu a inscrição na Liga gaúcha, o Internacional votou contra.

Fora da principal liga do futebol gaúcho, o Rio-Grandense foi um dos fundadores da Liga dos Canela Preta. Ao mesmo tempo um protesto e a forma encontrada pelos negros da época para jogar futebol.

No Rio-Grandense jogava o pai de Lupicínio e por conta do veto do Internacional ao time, a família do compositor decidiu torcer contra o Colorado, ou seja, pelo principal rival, o Grêmio. Nada poderia ser mais o estilo de Lupicínio Rodrigues nesse amor passional pelo Tricolor.

A vida e a obra

Lupicínio Rodrigues conheceu bem a cidade onde nasceu, cresceu e morreu. Porto Alegre se aquecia quando o rei da dor de cotovelo cantarolava suas lamúrias de amores negados. Desde cedo, com a inclinação boêmia e vindo de uma pobre família de 21 filhos, foi alistado pelo pai como voluntário no Exército, aos 15 anos.

Quando completou 21 anos, deu baixa no serviço militar e foi viver a vida como sempre quis. Conseguiu sucesso com as composições de marchinha de carnaval em que ganhou alguns concursos e se lançou no ramo de bares e restaurantes. Foi proprietário de alguns desses estabelecimentos durante a vida e não visava tanto o lucro, queria um lugar para encontrar com os amigos e cantar até o sol raiar.

Alcançou o sucesso nacional depois que marinheiros que frequentavam os cabarés de Porto Alegre acabaram levando sua música até o Rio de Janeiro. Porém, a boemia era o estilo de vida que sempre acompanhou Lupicínio e depois de muitos anos de noitadas, o romântico coração não suportou alcançar o 60º aniversário e parou na noite de 27 de agosto de 1974.

A obra prima dedicada ao Grêmio é um rastro da existência de Lupicínio Rodrigues, que atravessa as décadas desde 1953, ano em que o compositor escreveu o terceiro hino da história gremista – seria um hino comemorativo ao cinquentenário e passou a ser oficial – em forma da mais sublime tradução do sentimento do que é ser torcedor.

Os versos de Lupicínio Rodrigues guardam as dores e delícias do torcer, o amor romântico e sofrido comum aos apaixonados pelo sempre imprevisível futebol que vive algemado aos caprichos do “Sobrenatural” particular de cada clube. Torcer por um time em boa fase pode ser ótimo, mas a ‘sofrência’ de acompanhar um clube “até a pé” é incomparável.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. O Imortal Lupicínio Rodrigues. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 37, 2020.
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