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O jogo só termina quando acaba

André Rocha Rodrigues 8 de outubro de 2022

Primeiro jogo da decisão. Se fizéssemos mais de 3 gols de diferença nem precisava de um segundo jogo. Já ficava tudo acabado, resolvido.

A gente já estava confiante. Nosso camisa nove tinha treinado bem, estava escalado. Casa de apostas já davam como certo a nossa vitória. Os especialistas nas mesas redondas na TV já projetavam como seria a próxima temporada com o time campeão, como ficaria o mercado da bola, janela de transferência, possíveis reforços, novas contratações.

Os camelôs estavam rindo de tanto vender faixa de “É campeão” e “Eu já sabia”. Ingressos esgotados. Não sobrou nem mais na mão de cambista. Os bares lotados, brigas causadas pela ansiedade com quem não sabia fazer um telão funcionar. O departamento médico das empresas nunca tinha visto tantos casos de conjuntivite e cólica renal no mesmo dia. Aumento de dívidas no cartão de crédito pra comprar carvão, gelo, carne e cerveja. Brigas conjugais para decidir se o jogo seria visto em casa, com amigos ou com a família do cônjuge. Promessa para santos, trabalhos para entidades, roupa do bebê já comprada com as cores do time e o nome do centroavante, rituais particulares, simpatias. Houve até um sujeito que sempre via os jogos vencedores em casa com o gato de estimação, mas quis ir para o estádio e por não poder levá-lo, cortou um punhado de pelos do bichano e colocou na carteira.

Bolsonaro
Fonte: reprodução Twitter

Chegou a hora do jogo.

O que parecia fácil se configurou uma batalha épica. A meta era não tomar gol e fazer 3. No entanto, saímos perdendo. O adversário fez um gol logo de cara e a nossa vontade de não haver um segundo jogo foi frustrada rapidamente. O primeiro tempo foi pegado. Não foi fácil para ninguém, mas no início do segundo tempo conseguimos empatar. Naquele momento não havia mais unha pra roer, os rituais já estavam todos esculachados, uns tentavam não olhar para a televisão para não aumentar o nervosismo, outros acompanhavam comentários no celular para se acalmar, ver se alguém oferecia alguma explicação por um jogo que parecia fácil estar tão difícil, mas em vão.

Na metade do segundo tempo viramos. Muita raça, suor, vibração e comemoração. Gritos, pulos, abraços em desconhecidos, lágrimas, pedido de perdão por maldizer o santo, declarações de amor, novas promessas. Uma catarse. Surgiu uma ponta de esperança de abrir 3 gols de diferença, terminar em 4 a 1, mas nem o mais otimista, o mais iludido sabia que, vendo o jogo, isso seria possível àquela altura.

Terminou o jogo. 2 a 1.

Uma sensação estranha tomou conta de nós todos. Sabíamos que estávamos em minoria no estádio. Mando de campo deles. O time adversário tem uma folha de pagamento milionária, joga sujo, suborna juiz, questiona as regras do campeonato no meio do jogo. É o atual campeão, mas mesmo assim para a maioria de nós foi pouco. Por um momento foi desconsiderado que ganhamos a partida e que ainda tem um segundo jogo, no qual temos uma pequena vantagem.

É claro que na resenha pós-jogo brotaram inúmeras explicações sobre a razão de um resultado tão apertado em um jogo que parecia fácil. Explicações de mesa de bar que foram desde “o time entrou de salto alto”, que “faltou combinar com os russos”, até que o adversário fez treino secreto e por isso a imprensa não noticiou que o time também vinha forte.

O certo é o jogo não acabou e que o jogo só termina quando acaba. Mais do que isso é bom lembrar que estamos do lado certo e, citando Don L em “A volta da vitória”:

“Lutar do lado errado é já perder a guerra, ​

Do lado certo a gente vence mesmo quando perde,

​E quando vence, vence duas vezes”

E para lembrar Carlos Marighela “A única luta que se perde é aquela que se abandona”. E nós, torcida, nós nunca abandonamos luta.

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André Rocha

Antropólogo e corintiano. Pesquisa apropriações de espaços, mobilidades urbanas, gênero e sexualidade. Integra o LELuS (UFSCar) e o GEPAC (UNESP).

Como citar

RODRIGUES, André Rocha. O jogo só termina quando acaba. Ludopédio, São Paulo, v. 160, n. 7, 2022.
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