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O jornalismo futebolístico que reflete a sociedade da qual faz parte

Glauco José Costa Souza 15 de março de 2019

O jornalismo futebolístico no Brasil reflete – e muito – a sociedade da qual faz parte. Não é de hoje que o debate em torno da qualidade dos programas e matérias esportivas que temos é assunto entre os apaixonados por esporte, com destaque especial ao futebol. Se houve um tempo em que faltava espaço para este assunto, hoje o que se tem é o cenário inverso.

No restante da sociedade brasileira assistimos a um fenômeno semelhante. Tomando como exemplo a proliferação das redes sociais, percebemos que nunca se processou tanta informação como nos dias de hoje. Todavia, talvez nunca antes na história deste país se tenha refletido tão pouco sobre os dados que possuímos. Ante ao oceano de quantidade de dados que recebemos, nos deparamos com uma dificuldade tremenda em nos aprofundar nos conteúdos, em sair da superficialidade.

O jornalismo futebolístico no Brasil reflete a sociedade da qual faz parte. Foto: Feo con Ganas/Unsplash.

No futebol isso fica evidente dentro e fora de campo. Nas quatro linhas que demarcam o palco das partidas, raros são os momentos em que as equipes, os jogadores ou os treinadores conseguem fazer algo de diferente. Taticamente, o 4-2-3-1 e suas variantes previsíveis dão a tônica das formações apresentadas. Jogadores com muitas funções não conseguem se aprofundar no básico para um bom jogo de futebol: fundamentos como passes e finalizações foram substituídos pela polivalência. Fora das quatro linhas, as entrevistas, momentos em que os atletas podem mostrar um pouco de sua personalidade, foram trocadas por declarações preparadas antes mesmo das indagações serem feitas. O futebol se tornou superficial e a sociedade também.

De que adiantam cada vez mais textos sendo produzidos e vídeos divulgados se ninguém pode parar para lê-los ou assisti-los? Qual a relevância de parecer que se tem muito e, na verdade, se ter tão pouco? E foi justamente neste hábito cada vez maior de não refletir que muitas pessoas caem nas famigeradas “fakenews”. Notícias mentirosas se tornam verdadeiras para grupos cada vez maiores de pessoas.

No futebol, isso pode ser percebido em debates que, de forma superficial e embasados por dados nem sempre verídicos, comparam jogadores de épocas distintas. Aliás, esta tem sido a principal tônica em diversos veículos da imprensa escrita e audiovisual. Ante a falta de interesse do público e da própria imprensa em se aprofundar para tornar mais complexos alguns temas, opta-se pelo caminho que dá mais visibilidade: a polêmica rasa. Foi assim, por exemplo, em boa parte dos programas que repercutiram o incêndio que matou 10 jogadores das categorias de base do Flamengo. O sofrimento dos familiares e vídeos mostrando a alegria dos jovens eram apresentados a todo instante, enquanto as questões sobre o que causou aquela situação, bem como reflexões acerca do que tem sido feito com a vida dos jovens brasileiros que sonham em ser jogadores de futebol não foram aprofundados. 

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Glauco Costa

Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), também possui graduação em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2015). Tem experiência nas áreas de pesquisas sobre História Econômica, História Social e História Cultural, bem como na produção de textos jornalísticos.

Como citar

SOUZA, Glauco José Costa. O jornalismo futebolístico que reflete a sociedade da qual faz parte. Ludopédio, São Paulo, v. 117, n. 19, 2019.
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