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O papel do Flamengo na sociedade

Leandro Ginane 22 de junho de 2020

Em 1973, em pleno governo Geisel no auge da ditadura militar, Chico Buarque escreveu sob o pseudônimo Julinho da Adelaide a música “Jorge Maravilha”. A ideia surgiu quando um militar pediu seu autógrafo ainda no elevador depois que Chico tinha sido detido pelo Dops. Segundo o militar, o autógrafo seria para sua filha que era fã de Chico. Há também uma versão de que a canção foi feita para a filha do então presidente Ernesto Geisel, que teria declarado gostar de Chico.

Seja como for, o compositor criou uma irônica frase para o refrão: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta” e entre um trecho e outro citou também outras referências em alusão ao povo que estava contra o governo da época: “Ela gosta do tango, do dengo. Do mengo, domingo e de cosca (sic)” .

Tais citações fazem referência a atitudes resistência na época e chama atenção a menção ao Flamengo, que era um dos símbolos que conseguia unir o povo aos domingos e que ganha importância principalmente neste contexto de ditadura de extrema direita da década de setenta.

Vista área do Estádio do Maracanã. Foto: Daniel Brasil / Portal da Copa

Ao mencionar que o fato de gostar do clube de futebol mais popular do Brasil e dos domingos como um ícone de resistência, é impossível não pensar na importância que o Maracanã ganha como lugar de encontro do povo com o Flamengo, que neste contexto, serve como fio condutor de uma força popular única. Esse Maraca, que completa setenta anos este mês, não existe mais e o Mais Querido, sendo gerido por pessoas que flertam com o governo de extrema direita, tem atitudes que contradizem a sua história e parece se distanciar das suas raízes.

Cinquenta anos depois, o Flamengo volta a ter um papel central no cenário político.

Um clube forjado no meio do povo com a alegria típica das festas da “República Paz e Amor” na década de vinte, não se curva a sistemas ditatoriais como o atual. Por mais que meia dúzia de cartolas tentem, eles jamais conseguirão apagar a importância do Flamengo como instituição popular, o que torna fundamental a resistência da torcida nesse momento. É papel dela pressionar jogadores, cartolas, comissão técnica e outros torcedores para mostrar a eles que o Flamengo não deve agradar apenas as cem mil pessoas que conseguem pagar mensalmente um plano de Sócio Torcedor, mas que há uma obrigação histórica de representar milhões de pessoas que veem neste Clube muito mais que um time de futebol e um exemplo que deixa evidente a posição do Flamengo como catalizador de movimentos populares foi que aconteceu no ano passado na Av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro.

Os jogadores do Flamengo chegaram ao centro do Rio de Janeiro, dando início à festa de consagração pelo título da Taça Libertadores da América (Rio de Janeiro 24 11 2019 ). Foto Tânia Rego/Agencia Brasil

Milhões de pessoas: pobres, pretas, faveladas, de classe alta, média, brancos, se   espremeram entre as ruas e monumentos da cidade e formaram uma massa vermelha para recepcionar o time campeão da libertadores. Isto foi uma demonstração definitiva da força popular que o Flamengo é capaz de catalizar, essa potência, que por vários jogos foi demonstrada em campo por jogadores como Gérson, é percebida por regimes conservadores como uma ameaça, e a aproximação dos dirigentes do Flamengo com o Governo é uma tentativa de usar o simbolismo das cores vermelho e preta para influenciar a opinião pública e pacificar o povo. 

Conhecendo este clube de perto cuja a história se mistura a de milhões de brasileiros que estão sofrendo e perderam entes queridos durante a pandemia, é de suma importância que a torcida esteja alerta e unida para manter viva a história do Clube Mais Popular do Brasil.

Sempre foi assim e sempre será, a despeito da tentativa insistente de uma elite atrasada em transformar o clube em um instrumento político, onde balanços contábeis tem o mesmo peso de títulos.

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Leandro Ginane

Um curioso observador do futebol, nos estádios e nas peladas.

Como citar

GINANE, Leandro. O papel do Flamengo na sociedade. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 52, 2020.
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