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O time do povo, mas que povo? Uma breve reflexão da utilização da expressão “time do povo” no futebol

A expressão “time do povo” é algo comum desde os primórdios do futebol, não apenas do futebol brasileiro. O futebol traz consigo a dualidade entre time de elite e times de classes menos favorecidas financeiramente, o que antes era os times de clube social versus times de fábrica, trabalhadores, imigrantes, hoje pode ser visto em rivalidades no mundo todo, clássicos que trazem consigo marcantes oposições sociais, River Plate x Boca Juniors na Argentina, Bangu x Botafogo e Fluminense, Vasco da Gama x Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (AMEA), Goiânia x Atlético Clube Goianiense, Vila Nova x Goiás, Bahia x Vitória e muitos outros passíveis de citação.

O que importa aqui não é uma investigação histórica se há de fato uma distinção apropriada em tais construções, seria uma empreitada cansativa que não caberia no presente espaço. A questão que é chamada à atenção aqui é que, independendo de tais origens, alguns clubes constroem sua identidade em torno de sua origem operária ou o inverso, e algumas que não se relacionam diretamente a ela. Giulianotti (2002, p. 55), por exemplo, afirma que o futebol moderno possui três formas fundamentais de identificação social: nação, localidade e classe.

Desta maneira, a presente reflexão não se interessa pelo fato de, por exemplo, o Corinthians ser um time originalmente do “povo” e o São Paulo ser um time de “elite”, cabe aqui compreender que os alvinegros usam tal noção em sua construção identitária e o tricolor paulista da mesma forma. Não haverá uma discussão sobre o CAM ser time do “povo” e o Cruzeiro ser um time de “elite”, apenas parte-se do princípio que utilizam isso em formas diversas. Entende-se aqui que há clubes, em todo o mundo, que se colocam como “time do povo”. Por conta disso, há uma necessária pergunta inicial que raramente é feita: o que é um povo?

Torcida corinthiana protesta: “Cadê o Time do Povo?”. Foto: Reprodução.

Existem múltiplas formas de buscar respondê-la; opta-se aqui por buscar, na tentativa de compreender, a utilização de povo na perspectiva de sua utilização política e social. Partindo de tal princípio, a utilização de povo no léxico político ocidental desde o Estado Romano até nossos dias, como demonstra Paolo Colliva (1998, p. 986-987), sendo que na Roma clássica, o populus é um dos pilares do Estado.

Assim, o povo participou das organizações barbarescas que levaram ao fim do Império Romano. Tendo o povo germânico organização de cunho verdadeiramente popular, com estruturas tribais onde estava mal definido o papel e até mesmo o título do poder, elas se baseavam exclusivamente no consenso ativo e na plena e marcante presença do povo nas decisões da guerra e da paz, ao legislar e ao julgar (COLLIVA. 1998, p. 986-987). O povo continuou presente no mundo político e social, mesmo ocorrendo no Feudalismo uma estratificação social. Com o ressurgimento das cidades, nasceu assim um instrumento político que as fontes definem com o nome romano de Populus.

Bronisław Baczko (2013) traz importantes contribuições no que diz respeito a como povo é utilizado no mundo moderno e como ele ganha importância central. Argumenta que no século XVII, em Paris, povo remete tanto a uma categoria sociológica – artesãos, trabalhadores diaristas, empregados domésticos, além dos mendigos e vagabundos; como uma categoria topográfica – os que vivem em certos bairros. Ponto importante em sua argumentação é que ele defende que a partir de 1789 o povo passa a ser entendido como um ator político.

Baczko (2013) dá continuidade em sua argumentação dizendo que comumente se diz que “o povo” tomou a Bastilha, mas traz uma indagação que é central, o que isso significa? Mostra que o povo que tomou a Bastilha não era necessariamente algo homogêneo. Em 14 de julho de 1790, a Assembleia Nacional da França aprovou uma lista oficial de “vencedores da Bastilha”, uma lista de heróis. Cerca de 700 pessoas, incluindo comerciantes, artesãos ou assalariados, contemplando Santerre, um rico fabricante de cerveja e Legendre, um açougueiro. A maioria vivia nos subúrbios de Saint-Antoine e Saint-Marcel. 

É importante salientar que Paris contava com cerca de 700 mil pessoas e que a tomada da Bastilha contou com cerca de 10 mil e 20 mil pessoas, logo, nem todas as pessoas participaram do processo revolucionário. Bronisław Baczko (2013) afirma que desta forma, não foi todo o povo parisiense que se encontrou na Bastilha em 14 de julho. Todavia, o importante que Baczko traz é que no imaginário revolucionário, que se estende até o nosso, é que fora o povo que tomara a Bastilha.

O que é indispensável na argumentação de Bronisław Baczko (2013) é que a partir de 1789 há um povo no plural, um termo que passa a ser polissêmico, podendo designar vários tipos de pessoas, que, por fim, assume um significado simbólico. Desde então, povo não significa mais multidão, é transformado em uma categoria política.

Com isso, os usos do povo passam a ser diversos e variados, como destacam Émilie Goin e François Provenzano em seu livro Usages du peuple (2017). Para os autores (p. 7-10), mesmo com uma negligência de estudos sobre o povo em Ciências Sociais no fim do século XX, o termo povo e seus derivados continuam a inspirar vários setores do discurso social e evocar todo um imaginário. Na prática, o termo povo continua sendo um poderoso instrumento ideológico de categorização social.

No mesmo livro, Alain Badiou (2013, p. 9) defende que é o adjetivo identitário ou nacional que dá um tom de desconfiança para “povo”. Na sequência, o autor dá alguns exemplos, tal como no período imperial/colonial quando houve uma apropriação de povo para se referir aos poderosos, sendo que para os que não participavam do “povo” era relegado expressões como “selvagens”, “tribos” ou grupos étnicos, existindo então o “povo francês”, “povo inglês” dentre outros, por outro lado, “povo argelino” não. De forma sintomática, a era das guerras de libertações nacionais santificou “povo + adjetivo nacional”, na medida em que exigiam muitas vezes uma luta armada; aqui, o “povo argelino” passa a existir.

Na prática, o que se tem é uma persistência de um “povo verdadeiro”, que exclui necessariamente outros grupos, que não podem participar do “povo” naquele momento. Na adjetivação de maneira positiva de um “povo”, intrinsecamente existe a adjetivação negativa do outro “povo”, ou até mesmo sua negação. Para o governo de Israel, existe o “povo israelense”, na medida em que existe a negação do “povo palestino”, mas como esse simulacro pode ser usado de maneiras distintas, o inverso também é feito na Palestina. Portanto, esse uso de “povo” é feito no sentido de identidade exclusiva, sendo ela racial ou nacional.

Desta maneira, não é objetivo da presente reflexão esgotar as análises em torno do conceito povo e muito menos construir um conceito simplificador, pelo contrário, mostra-se que se trata de um conceito polifônico e com pouco consenso. No entanto, afirma-se a partir disso que é possível utilizar-se de povo de diversas maneiras, como afirmação e até mesmo como negação e que, não necessariamente quem faz uso de povo como algo positivo hoje o fará amanhã ou que a mesma expressão não possa perder seu caráter identitário no decorrer dos processos históricos, ou ganhar ou utilizar com outros significados. É por conta disso que se busca entender os “times do povo” e sua utilização hoje.

Voltando à concepção de Giulianotti (2002), todo time tem uma relação com o que foi aqui apresentado como povo, na medida em que constroem sua identidade, a partir de nação, localidade e classe. Em todas, é possível notar o que fora tratado até aqui como povo. É necessário ressaltar que, como fora tratado acima, a própria noção de povo pode ser bastante cambiável.

Hoje, temos a utilização da expressão “time do povo” por diversas agremiações, focaremos aqui apenas alguns times brasileiros, sabendo que ficaram diversos times fora da lista e que alguns tratados não se colocam como “time do povo”, mas utilizam do inverso.

Flamengo: Por vezes tratado como “time da favela” por seus próprios torcedores e adversários, construiu uma identidade ao longo dos anos de time popular. Apesar disso, nos últimos anos, o time carioca vem trabalhando de forma contraria à alcunha, com planos de sócio torcedor a partir de 54 reais mensais, os quais não garantem ingressos. Estes variam de 60 até 400 reais, dependendo do apelo do jogo. Partidas da Libertadores das Américas têm um média, de valor mínimo, de 100 reais. O Maracanã, antes conhecido pela alegria do povão e pela vibração da massa, hoje é lembrado por uma torcida morta, de um único cântico e elitizada ao ponto que a selfie durante o jogo é mais importante que o apoio e demonstração de amor para o time.

Torcida flamenguista exibe mosaico “Festa na Favela”. Foto: Divulgação.

Enquanto isso seus rivais tentam a todo custo se aproximar de suas bases populares, não por questões sociais ou valorização da massa e sim por necessidade. O questionamento para o Flamengo vai ser quando o time passar por um momento futebolístico ruim, a personalidade “Fair Weather” dos torcedores que assistem aos jogos no estádio não toleram crise nem times sem talento, e o faturamento em cima da classe média e alta caem bruscamente. Seria a volta do povão?

Corinthians: Com maior resistência da torcida organizada, o clube paulista vem enfrentando esse clima tenso com os setores populares de forma amena, disponibilizando planos acessíveis, mas também promovendo a gourmetização do produto Corinthians. A tensão entre clube e organizada também se reflete na arquibancada, um estádio dividido socialmente, o lado esquerdo da Arena Corinthians é popular, da organizada, no qual o apoio se faz de forma marcadamente vibrante e sempre lota, já o leste e oeste são os torcedores ocasionais que pagam caro e não vivenciam o clube no cotidiano.

Bandeirão do Corinthians com a inscrição “Time do Povo”. Foto: Reprodução/Twitter/Tiago Salazar.

O São Paulo, por ter o estádio menos modernizado dos grandes clubes paulistanos, não é “Padrão FIFA”, além de viver o pior momento dentro do campo dentre os times aqui destacados, vem desde 2016 oferendo ingressos a preço populares, com média de 25 reais o ingresso nos setores populares do Morumbi. Já o Palmeiras vem seguindo a lógica elitista do clube, com ingressos caros e ações distantes do que é possível chamar de popular.

Internacional que se constrói como um time popular vem praticando preços populares, tanto que o plano de sócio mais caro é 50 reais, e os ingressos no Beira Rio não são salgados como outros clubes. O Inter vem colhendo frutos com uma tentativa de aproximação com o torcedor, que o apoiou bem durante o pior momento do clube, quando disputou a série B, e comprou a ideia praticada nesses últimos anos. Enquanto isso, o Grêmio vem cobrando preços não populares.

Internacional assume há tempos o slogan “o clube do povo”, como na apresentação de Celso Roth e da nova diretoria colorada em agosto de 2016. Foto: S.C. Internacional/Divulgação/JC.

O Santa Cruz, que também se orgulha de sua origem e trajetória como um “time do povo”, o clube do povo pernambucano, apesar de estar na Série C, vem usando bastante a criatividade para angariar sócios, disponibilizando planos que dão acesso até a sede social do clube. O time vem tendo números até satisfatórios.

Os clubes do Nordeste reinventam-se em uma lógica diferente, buscando outra relação torcida e clube, na medida em que há ações diversas de afirmação e reconhecimento de identidade. Clubes como Bahia, Ceará, Fortaleza, Sport, Náutico, Confiança, Sampaio Correa entre outros, sabendo da concorrência desleal praticada pela televisão na formação de torcida, gerando torcedores mistos e falência do futebol local, criando uma relação de colonialismo no futebol, a qual o eixo RJ-SP detêm o monopólio das transmissões locais, sendo que as migalhas ficam para os clubes, nos últimos anos têm criado alternativas que aproximam o torcedor, inclusive o “povão” do clube.

Ao que parece, pelo menos no momento, perceberam que clubes que não falam a mesma língua da torcida estão fadados a fracassar e que todos os torcedores são importantes do passado, presente e futuro, mesmo no “futebol moderno”. Temos como exemplo o Vitória, o qual crises constantes com os torcedores ocasionaram um afastamento da torcida com o clube; e, assim, o time baiano quase rebaixou para a Série C. Além dele, há o Náutico, que se distanciou da torcida ao abandor os Aflitos e jogar na Arena Pernambuco, retornando para a Série B com apoio da torcida após a revitalização da casa do Timbu.

“Time do Povo” virou até nome de plano para sócio torcedores do Ceará. Foto: Divulgação/cearasc.com.

No Norte, os dois clubes com maior torcida vivem momentos complicados. O Remo, de maior apelo popular, vem passando atritos com a torcida, que busca a volta para o Baenão, enquanto a diretoria persiste em jogar no Mangueirão até em jogos de menor apelo. Os planos de sócio são bastante acessíveis. Já o Paysandu tem maior estabilidade com a torcida. A Curuzu estruturou-se bem e os torcedores sentem-se mais inclusos no clube do que a torcida rival com o Remo. Ambos buscam a afirmação de identidade com o estado do Pará, porém os mistos ainda é maioria no estado.

Os “times do povo” continuarão a existir mesmo que o “povo” seja expulso dos estádios. Quer dizer, os times continuarão usando o slogan mesmo que se distanciem dos mais pobres. Afinal, quem tomou a Bastilha foi o povo. Mesmo o evento contendo grupos sociais diversos e mesmo que os participantes não tenham sido a maioria da população parisiense, o povo foi quem tomou a Bastilha.

Povo é algo mutável e de utilizações diversas. Quando se fala “time do povo”, quem o utiliza sabe do apelo que a expressão tem. Mas por conta da maleabilidade do termo povo, cuidado! Times que usam o slogan podem não necessariamente valorizar os torcedores “populares” e quem não se vê como “time do povo” hoje pode utilizar da expressão amanhã. 

Bibliografia

BACZKO, Bronisław. A-t-elle inventé le peuple? L’Histoire, 23 set. 2013. Acesso em: 05 abr. 2020.

BADIOU, Alain. Vingt-quatre notes sur les usages du mot «people». In: BADIOU, Alain. et al. (2013) Qu’est-ce qu’un peuple? Paris: La Fabrique. p. 9-22.

COLLIVA, Paolo. Povo. In: BOBBIO, Norberto. et al. (Org.) Dicionário de política. Brasília: Editora UnB, 1998. 1v. 11. ed. p. 986-988.

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidõesSão Paulo: Nova Alexandria, 2002.

GOIN, Émilie; PROVENZANO, François (dir.) Usages du peuple: Savoirs, discours, politiques. Collection. Liège: Situations. Presses universitaires de Liège, 2017.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12. ed.  Rio de Janeiro: Lamparina, 2015. 

WINOCK, Michel. Histoire de l’extrême-droite en France. Paris: Seuil, 2015.

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Makchwell Coimbra Narcizo

Doutor em História pela UFU, Graduado e Mestre em História pela UFG. Atualmente professor no IF Goiano - Campus Trindade. Desenvolve Estágio Pós-Doutoral na PUC Goiás. Membro do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisa Aplicados ao Futebol - UFG). Coordenador do GT Direitas, História e Memória ANPUH-GO. Autor dos livros: A negação da Shoah e a História (2019); A extrema direita francesa em reconstrução - Marine Le Pen e a desdemonização do Front National [2011-2017] (2020) dentre outros... isso nas horas vagas, já que na maior parte do tempo está ocupado com o futebol... assistindo, falando, cornetando, pensando, refletindo, jogando (sic), se encantando e se decepcionando...

Matheus Augusto de Souza Araújo Pinto

Sabe aquela pessoa que ao ouvir os fogos de artificio no estádio da cidade , já se apronta , veste a camisa e segue para lá, então sou eu. Assisto de Liga dos Campeões até campeonatos amadores , além de ser apaixonado por tudo que envolve o futebol, desde bastidores , o esporte como fator social e a boleiragem.

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra; PINTO, Matheus Augusto de Souza Araújo. O time do povo, mas que povo? Uma breve reflexão da utilização da expressão “time do povo” no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 40, 2020.
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