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O veredicto

José Paulo Florenzano 14 de abril de 2022

No início de 1971 uma equipe da BBC de Londres veio ao Rio de Janeiro com o objetivo de entrevistar Pelé. A notícia de que o atleta iria se despedir do selecionado nacional em meados do ano atraía as atenções dentro e fora do país. As reportagens organizavam retrospectivas, contabilizavam os feitos, conjecturavam quem poderia substituí-lo no futebol brasileiro. Com efeito, ao final da entrevista, os jornalistas britânicos lhe pediram que indicasse um nome capaz de sucedê-lo. Pelé disse que, “sem receio”, entregaria a camisa 10 da Seleção “ao atacante do Botafogo”. [1] À imprensa nacional, Paulo César confirmava a inesperada nomeação: “Foi Pelé quem fez a indicação, com muitos elogios ao meu futuro”.[2]

Dessa maneira, Paulo César assumia a condição de legítimo sucessor do assim chamado Rei do Futebol. De fato, logo após a declaração de Pelé, os profissionais da BBC deslocaram o foco da reportagem, colocando no centro das atenções a estrela em ascensão do Botafogo. Por cerca de quinze dias, os ingleses acompanharam o dia a dia do jogador, filmando-o no cotidiano, no treinamento, durante os jogos, ouvindo sua opinião a respeito de todos os temas: da fome na favela à fama no futebol. Abordaram também as críticas que já então lhe eram endereçadas por segmentos importantes da crônica esportiva. Ecoando em parte o teor destas críticas, os repórteres da BBC lhe perguntaram: “Então o sucessor de Pelé vai ser um hippie?” Paulo César defendia-se:  “Não sou hippie”, e explicava: “procuro apenas acompanhar a moda”.[3]

No contexto do regime militar, o menor traço de desvio em relação à norma do jogador-soldado implicava o risco de ser rotulado de “hippie”. Bastava usar o cabelo um pouco mais comprido do que o corte militar, não se apresentar convenientemente imberbe ou vestir uma roupa fora do padrão tradicional para levantar de imediato a suspeita de atentar contra a moral e os bons costumes. Mas além de levantar a suspeita de pertencer ao movimento da contracultura, Paulo César enfrentava também a acusação de violar a ética do jogo.

Paulo Cézar Caju
Foto: reprodução CBF

De fato, logo após a matéria produzida pela equipe da BBC de Londres, o sucessor de Pelé na Seleção Brasileira foi parar  no banco dos réus, acusado pelos formadores de opinião, pelos torcedores de arquibancada e pelos companheiros de profissão de infringir o código de honra dos atletas. O “crime” foi cometido em uma partida do Campeonato Carioca, no Maracanã, quando, diante de Zé Dias, lateral direito do Vasco, Paulo César se pôs a realizar uma série de embaixadas consideradas humilhantes.[4] A rigor, o processo possuía um duplo agravante. A ação desonrosa tinha sido perpetrada por um tricampeão mundial perante um atleta em início de carreira, e, como se não bastasse tal “covardia”, ela foi levada a cabo no momento em que  o time da Estrela Solitária desfrutava a vantagem de três a zero no placar.

As testemunhas de acusação revezavam-se no Tribunal da Norma. O Correio da Manhã, em especial, não poupava críticas ao autor das embaixadas, reputando-o um “moleque”, “atleta marginal” e “mau caráter”.[5] O Globo, por sua vez, publicava uma charge na qual o jogador negro era retratado como um bêbado vertendo goela abaixo uma garrafa de cachaça. A ilustração, não isenta de conotação racial, retratava o consenso segundo o qual Paulo César se achava embriagado com a série de conquistas acumuladas em tão pouco tempo: o bicampeonato carioca, o tricampeonato mundial, e, agora, a coroação simbólica de Rei do Futebol.[6] Armando Nogueira, no Jornal do Brasil, corroborava esta interpretação, reiterando que o atacante estava mesmo “deslumbrado com o próprio sucesso”.[7]

Se, nas seções de esporte da imprensa o processo ainda não havia sido concluído, dentro das quatro linhas o veredicto já parecia ter sido pronunciado. Desde o fatídico episódio das embaixadas, Paulo César passara a ser “caçado” pelos adversários. Nesse sentido, na véspera do clássico contra o Fluminense, o lateral direito Oliveira dizia sem eufemismos que iria “acabar com ele”, pois não admitia “palhaçada”.[8] A jornalista Marilena Dabus, encarregada pelo Jornal dos Sports de realizar a matéria sobre o “olé”, fez, então, a pergunta que lhe parecia lógica: Você não está pensando em quebrar a perna dele, não é ?[9]

Ele não era o único a deixar no ar a ameaça velada. Os próprios companheiros de equipe se apressavam em alertar Paulo César dos riscos que doravante o espreitavam, advertindo-o de que, no dia em que lhe “quebrassem a perna”, ele “não ia poder reclamar”.[10] Esta possibilidade era discutida abertamente nas páginas de esporte, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Jornalistas, atletas e torcedores debatiam se convinha ou não realizar a justiça com os próprios pés. Assim, por exemplo, depois do clássico contra o Fluminense, o lateral esquerdo, Marco Antonio, respondia à pergunta formulada de forma obsessiva pela imprensa: “Você pensou logo em quebrar a perna?” [11]  Em sua coluna no Jornal dos Sports, Zizinho denunciava a violência contra o jogador do Botafogo e lamentava o clima de insanidade no Maracanã: “As opiniões de uma maioria, dentro do próprio Estádio, são favoráveis a essa caçada.”[12]

O artigo de Zizinho tocava em ponto chave. A perseguição atendia a um clamor que extravasa a categoria dos atletas profissionais. “Você sabe que ao pegar Paulo César” – dizia o repórter ao lateral Marco Antonio – “fez uma coisa que a maioria da cidade queria fazer?”[13] A maioria não se restringia ao Maracanã, mas traduzia uma sede de “justiça” difundida pela sociedade carioca. E, no entanto, convém perguntar por que, de repente, o “olé” de um atleta de futebol reclamava uma condenação tão drástica e exemplar, a ponto de incluir a ameaça de uma perna quebrada? O processo, no fundo, envolvia algo de mais essencial. Julgava-se, então, se Paulo César reunia ou não as condições necessárias para suceder Pelé e ocupar o lugar de “jogador-símbolo” do futebol brasileiro. A objeção de Armando Nogueira atingia o cerne da questão:

Sem humildade, Paulo vvvCésar jamais será o ídolo que chegou a ser Pelé, em cuja face olímpica de campeão a multidão, orgulhosa, se contempla.[14]

Eis o verdadeiro “crime” de Paulo César: ele não agia com humildade. Mas esta noção revelava-se mais elástica do que poderia parecer à primeira vista. Por certo, ela remetia à problemática da ética do jogo para os atletas. Mas no léxico da imprensa esportiva ela também evocava a personagem submissa à hierarquia racial. Ora, a sucessão da “coroa” no País do Futebol encerrava um risco simbólico inadmissível para os grupos brancos que detinham o poder de narrar a nação. “Meu símbolo é outro”, respondia Paulo César aos jornalistas que o interpelavam a respeito do modo como celebrava os gols: “punho fechado para o alto”. E para que não restasse nenhuma dúvida: “É o poder negro”.[15]


Notas

[1] Cf. “A honra com a camisa do Rei`”, Jorge Areas, Jornal dos Sports, 2 de abril de 1971.

[2] Cf. “Paulo César em reportagem especial para a BBC – Londres`”, O Globo, 30 de março de 1971.

[3] Cf. “Paulo César em reportagem especial para a BBC – Londres`”, O Globo, 30 de março de 1971

[4] Algumas reportagens citam Zé Dias como o jogador do Vasco envolvido nas embaixadas de Paulo César. Outros mencionam o jogador Fidélis. Por exemplo: “Vasco reagiu mas Botafogo era o dono do jogo: 4 x 2”, O Globo, 7 de abril de 1971.

[5] Cf. “Um estilo está sendo julgado”, Correio da Manhã, 8 de abril de 1971.

[6] A charge ilustrava a coluna; “À Sombra das Chuteiras Imortais”, O Globo, 8 de abril de 1971,   de Nélson Rodrigues, na qual o dramaturgo concluía que a “vitória está subindo à cabeça do Botafogo”. 

[7] Coluna: “Na Grande Área”, Armando Nogueira, Jornal do Brasil, 8 de abril de 1971.

[8] Cf. “Flu luta por todos”, Marilene Dabus, Jornal dos Sports, 18 de abril de 1971.

[9] Cf. “Olé: a sede da forra”, Marilene Dabus, Jornal dos Sports, 18 de abril de 1971.

[10] Cf. “Ubirajara: ‘Sou contra a molecagem`”, Marilene Dabus, Jornal dos Sports, 18 de abril de 1971. Advertência feita pelo goleiro do Botafogo, Ubirajara.

[11] Cf. “Deboche faz do amigo, inimigo”, Jornal dos Sports, 22 de abril de 1971.

[12] Coluna: “Bom de Bola”, Zizinho, “Prémio aos caçadores de craques”, Jornal dos Sports,, 23 de abril de 1971.

[13] Coluna: “Bom de Bola”, Zizinho, “Prémio aos caçadores de craques”, Jornal dos Sports,, 23 de abril de 1971.

[14] Coluna: “Na Grande Área”, Armando Nogueira, Jornal do Brasil,, 9 de abril de 1971.

[15] Coluna: “Jogo Perigoso”, “Símbolo de Paulo César”, Jornal dos Sports, 6 de janeiro de 1971.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. O veredicto. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 20, 2022.
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