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O zagueiro intelectual

Roberto Jardim 17 de agosto de 2019

“He querido escribirte mil poemas, uno por gol y más.
Pero basta tan solo con verte correr tras la gallina,
entorpecer el destino del cuero, peinar gramilla, o sacudir polvo.
Basta esa melena como azote del número en tu espalda.
Basta verte vestir como un tatuaje ese amarillo y rojo,
ese whisky y sangre, ese Canario y ladrillo.
Esa casaca con esa solapa llena de barrio.
Ese griterío en el escudo, ese tamboril en el costado.
Repique y piano en el área, chico el mundo
grande Obdulio.
Y una vez más, con pedazos de mundo en los tapones,
romper esa red de lo dicho, decir otra vez la palabra
que pocos saben decir.
Alarido de indio en la tierra, un pacto de amor de bandera.
Un centro de gol es la escuela, puntazo certero a la esfera.
La esquina se pinta, se presta el alma,
nunca se vende lo que no se calma.
Y una vez más romper esa red de lo dicho, doblar las púas con el grito,
sacudir los colores ardidos y saber
que debajo de tu camiseta está la música.”

Ele bem poderia ser um intelectual ou ativista político que gosta de bater uma bolinha, mas é um jogador de futebol que, além de escrever poesias (como a reproduzida na página anterior), crônicas e contos, é politicamente engajado e atuante.

Como atleta, nunca atuou em um clube grande nem teve uma carreira cheia de êxitos. Afinal, toda sua vida nos gramados foi atuando por cuadros chicos, como são chamados os times sem grandes torcidas ou expressão no Uruguai ou nos países de língua espanhola. Assim, suas principais experiências e conquistas estão nas divisões B e C.

Quando ele explica, porém, fica fácil de entender porque seguir no futebol, mesmo longe dos holofotes.

– Na B, as chuteiras coloridas não existem e não te serve para nada ter estilo. Na B, se joga por amor de verdade! Pelo amor próprio, pelo amor ao futebol. Sem isso, não se é nada! O show da B é mais palpável e menos fantástico. O futebol da B é o futebol de verdade – disse ao jornal La Diaria em entrevista publicada em 2014.

Seu lugar no Democracia Fútbol Club, contudo, está garantido não por ser o único do time ainda em atividade – ou o último a se aposentar entre os 11 escolhidos, quem sabe? –, mas também pelo que representa como cidadão. Como bem resume o jornalista uruguaio Santiago Díaz:

– É um grande personagem. É um tipo culto, informado e solidário. É alguém que gosta muito de ajudar os outros, de participar de iniciativas coletivas.

Seguindo essa linha, nosso camisa 2 se apresenta assim:

– Creio que posso dizer que sou de esquerda. Considero-me “mujiquista”, admirador de Pepe Mujica (ex-presidente uruguaio)! Tenho um milhão e meio de críticas a ele e à Frente Ampla, que, por sorte, pude fazer pessoalmente. E não é por isso que deixo de ter o posicionamento que tenho.

Assim é o zagueiro Agustín Lucas, que em dezembro de 2017 ajudou o pequeno Albion FC, clube mais antigo do futebol uruguaio, surgido em 1891, a subir da Série C para a B. Já no começo de 2018, estava desempregado e pensando sobre o futuro dentro das quatro linhas.

– Atualmente não estou jogando. Venho pensando se voltarei a assinar com algum clube – disse em uma das conversas por WhatsApp.

Engana-se, entretanto, quem acha que ele está parado. Como declarou Díaz, Agustín não abre mão de atuar pelo bem dos outros, de forma coletiva. Assim, vem trabalhando em oficinas de futebol e de literatura para presos do sistema carcerário uruguaio, como parte do movimento Nada Crece a la Sombra, que busca, por meio de ferramentas socioculturais, afastar a população carente do crime.

Também escreve, e bem, no jornal La Diaria, de Montevidéu. Além disso, recentemente lançou, em parceria com outro boleiros, o livro Pelota de Papel 2, com contos ambientados no mundo da bola.

Então, vamos conhecer o camisa 2 do Democracia Fútbol Club.

A vida no lado B

Nascido no bairro Unión, na capital uruguaia, em 19 de outubro de 1985, Agustín Lucas Teixeira, viveu a infância como a maioria dos meninos da América Latina: correndo atrás de uma bola e sonhando ser jogador profissional.

Quando nasceu, seu pai, um ex-guerrilheiro tupamaro, já não era mais um preso político que havia passado oito anos numa prisão de nome simbólico: Libertad.

Aqui, vale uma explicação: os Tupamaros, como eram conhecidos os integrantes do Movimento de Libertação Nacional, formavam uma guerrilha urbana, que atuou no Uruguai nas décadas de 1960 e 1970, principalmente durante a ditadura civil militar (1973–1985); o nome vem de Túpac Amaru (1545–1572), último imperador Inca, que lutou contra a dominação espanhola.

Vem daí, possivelmente, sua paixão pelo ativismo:

– Claro que meu velho e minha velha são igualmente importantes na minha formação. Os dois foram um privilégio que tive. Eles nos criaram, a mim e a meu irmão, com muita liberdade. Isso foi o mais importante. Os dois nos deram confiança para sermos quem somos.

Cria de um bairro de classe média baixa, Agustín procurou abrigo em um dos muitos clubes de futebol de Montevidéu. Assim, mesmo torcendo para o Nacional, foi parar no Club Miramar Missiones, do bairro vizinho ao seu, o Parque Battle.

Antes de continuarmos a falar da carreira profissional do nosso segundo personagem, é preciso contextualizar como funciona o futebol uruguaio, onde existem três categorias. A C é amadora e o jogador recebe quase nada ou nada para atuar. Na B, o salário de aproximadamente 80% dos atletas gira em torno dos US$ 500 (cerca de R$ 1,8 mil).

Como a maioria dos clubes não tem como pagar os salários, quem deposita o valor nos dois meses iniciais é a Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF). O restante dos meses acaba não sendo pago por ninguém. Dessa forma, os jogadores precisam protestar junto ao seu sindicato, que reclama com o clube e, só aí, os valores são acertados.

Já na primeira divisão o salário básico da maioria dos jogadores é de, mais ou menos, US$ 800 (R$ 2,9 mil). Claro que aí estão atletas que recebem muito além do piso, mas geralmente os jogadores cobram este valor. Como no Brasil, na Série A uruguaia também existem times com salários atrasados.

Voltando à carreira de Agustín: no Miramar, atuou nas categorias de base e se tornou profissional em maio de 2004, aos 18 anos, jogando pela primeira vez na divisão principal em 2005, aos 19. Até junho de 2008, mostrou um pouco no que viria se transformar como jogador e como pessoa.

Sobre si mesmo, como jogador, Agustín resume:

– Sempre joguei de defensor: zagueiro ou volante central. Sou um jogador voluntarioso, atento ao jogo para superar qualquer dificuldade técnica ou física.

Ao que o jornalista Santiago Díaz, do canal de TV Vera+ e do portal Zona Mixta, acrescenta:

– Em campo, é um jogador muito forte, de muita garra. Muito bom nos cruzamentos.

Líder por natureza, foi capitão do Miramar durante as quatro temporadas em que por lá esteve. Todas disputando a Série A. Ao fim do Clausura 2008 – os campeonatos na maioria dos países da América Latina costumam ter os campeonatos divididos em dois, o Apertura, que abre a temporada, e o Clausura, que fecha –, a equipe foi rebaixada, mas Agustín acabou se transferindo para o Montevideo Wanderers, continuando na A, para jogar os torneios Apertura (2008 e 2009) e Clausura (2009). Em janeiro de 2010, foi para o Cerro Largo FC, também da primeira divisão.

A partir de então, iniciou sua vida de andarilho do futebol. Em fevereiro de 2010, transferiu-se para o Deportivo Jalapa, da Guatemala (2010 a 2011). Depois, assinou com o Deportivo Anzoátegui, da Venezuela (2011 a 2013). As duas equipes da primeira divisão de seus países. De lá, voltou ao Sud América, onde também foi capitão, e com o qual conquistou seu primeiro título, a taça da B uruguaia.

Ao fim do contrato, trocou novamente de país. Atravessou o rio da Prata e foi vestir a camisa do Comunicaciones, de Buenos Aires, pelo qual jogou a Primera División B Metropolitana, entre 2014 e 2015.

No final de julho de 2014, voltou ao Uruguai, para disputar a B pelo Liverpool, ajudando a equipe a voltar à primeira divisão, conquistando seu segundo título. Em junho de 2015, voltou às origens, assinando com o Miramar Misiones para jogar mais uma vez a segunda divisão.

Após mais uma temporada, desceu mais uma série, chegando pela primeira vez à C. Assim, em janeiro de 2017, defendeu o Albion FC. Ali, ajudou a equipe a conquistar o acesso à segunda divisão, erguendo sua terceira taça.

Um ser político…

Em meio a todo esse vai-e-vem de clubes e países, Agustín encontrou tempo para ser ativista em defesa dos jogadores das equipes pequenas. Se a atuação dentro das quatro linhas chamou pouca atenção, o trabalho em defesa dos colegas e seu posicionamento político levaram-no a se tornar conhecido, pelo menos no meio futebolístico uruguaio.

– Sempre teve uma ideia de melhorar o futebol e as condições dos jogadores como trabalhadores – conta Santiago Díaz.

Agustín justifica sua atuação nas lutas da categoria e até em questões sociais:

– Creio que não existem pessoas apolíticas ou seres apolíticos nas atitudes cotidianas. Assim, também não existe o ser apolítico dentro da cancha. A forma como cada jogador atua, como se relaciona com os demais participantes do jogo, enfim, faz parte da política. A política está em todos os lugares, e em todas as pessoas.

Agustín atua ativamente no movimento Más Unidos que Nunca, um coletivo de jogadores que reúne boleiros de todas as séries (A, B e C), inclusive os que jogam no Exterior e atuam pela Celeste, além daqueles que estão sem equipe. O grupo não tem ligação com o sindicato da categoria. Pelo contrário, é uma dissidência.

– Nosso conflito mais recente foi contra os dirigentes do nosso sindicato. Isso porque os patrões estão dentro do sindicato. Achamos que o sindicato dos jogadores, assim como o dos dirigentes, não atende nossos interesses. Aliás, eles atendem apenas os interesses da detentora dos direitos televisivos – explica.

Recentemente, com apoio de Diego Lugano, ex-zagueiro do São Paulo e da seleção uruguaia, o movimento teve uma vitória importante, conseguindo a intervenção no sindicato de atletas, a Mutual Uruguaya de Futbolistas Profesionales, e a antecipação das eleições sindicais.

O zagueiro conta que os valores destinados pelos direitos de imagem são pequenos ou quase inexistentes. O Más Unidos… reivindica US$ 325 mil (R$ 1,17 milhão) anuais para os atletas dos cuadros chicos. Um valor pequeno frente ao que a empresa televisiva lucra: US$ 45 milhões (R$ 162 milhões), conforme o jornal argentino Página 12.

O movimento dos jogadores conseguiu suspender duas rodadas do campeonato local, voltando a colocar em destaque a figura do mítico Obdulio Varela – também personagem deste livro –, capitão no Maracanazo, fundador da Mutual, em 1948, e líder da primeira e maior greve de jogadores do mundo, na mesma época.

– Essa foi uma das nossas grandes vitórias, trazer de volta a figura de Obdulio – disse Agustín.

Negociações sem transparência, atrasos de salários, clubes com pouca ou nenhuma estrutura são alguns dos problemas enfrentados pelos jogadores do país bicampeão mundial (1930 e 1950) e bicampeão olímpico (1924 e 1928). Problemas estes que estão na mira do Más Unidos…. Aliás, situações bastante parecidas com as que vive do futebol brasileiro.

– Nós acreditamos que é possível mudar o futebol. Para o bem de quem vive dele, os profissionais e suas famílias, e de quem torce. Um outro futebol é possível, desde que se façam mudanças urgentes – discursa nosso camisa 2.

Agustín assegura, porém, que o movimento serve não apenas para proteger os jogadores mais necessitados, mas também para que os jovens encontrem outra realidade quando chegarem ao profissionalismo. O zagueiro ainda acredita que o ativismo dos jogadores não deve ficar apenas dentro das quatro linhas:

– O jogador é mais um ator na sociedade. Tem suas particularidades como um advogado, um taxista ou um mendigo. Às vezes, não se dá conta da força social que pode vir a ter, mas me parece uma questão de educação.

… e também das letras

Ao lado da bola e do ativismo, outra paixão cerca a vida de Agustín: as letras. Além da coluna no jornal La Diaria, escreve poesias, crônicas e contos. Já tem quatro livros individuais, dois em parceria e outros dois coletivos – Pelota de Papel 1 e 2 (2016 e 2018), reunião de contos de boleiros como Sebastián Dominguez, Pablo Aimar, Javier Mascherano, Jorge Valdano, Juan Pablo Sorín e, até o ex-técnico da seleção argentina Jorge Sampaoli, entre outros.

– A literatura sempre esteve presente na minha vida. Meu pai levava a mim e a meu irmão para pegar livros na biblioteca para as férias escolares. Assim, a escrita está presente como maneira de expressão, de linguagem e na contemplação dos aconteceres – sintetiza Agustín, quase poética e filosoficamente.

Seu primeiro lançamento foi o volume de poemas No Todos los Dedos Son Prensiles, de 2007. Depois vieram mais dois títulos de poesias: Club (2011) e Insectario (2014).

Em 2015, a partir da experiência das conquistas da Série B uruguaia, lançou dois livros em parceria. O primeiro foi Besala Como Sabés, escrito com o chileno Patricio Hidalgo e que conta a história do título com o Sud América (2013). Já em El Lado B: Lo que Uno Hace por el Otro, escrito com o conterrâneo Fermín Mendes, relata a passagem do Liverpool pela B (2015).

O mais recente título individual, lançado em 2017, Tapone de Fierro, é uma reunião de crônicas, poesias e contos, todos sobre futebol, publicados anteriormente em seu blog e em outros espaços na internet.

Além das publicações e da rede mundial de computadores, Agustín costuma apresentar seus escritos onde for convidado. Participa de saraus poéticos em bares, escolas, prisões, oficinas de arte e, não raro, declama até no vestiário, antes ou depois de treinos e jogos. Também se apresenta, de vez em quando, com o DJ russo Sputnik, com quem forma o duo Hey Mujik, nome que retoma a palavra russa que significa camponês, homem do povo.

Mais recentemente, em julho de 2017, participou da conferência TEDxMontevideo. No evento, o jogador/escritor falou sobre o tema Cultura de Barrio.

Enfim, se o futebol uruguaio vai perder um zagueiro acostumado a disputar as séries de acesso, onde as partidas são mais pegadas e o jogo de bola mais verdadeiro, a cultura, a arte e o ativismo continuarão a ter um defensor de qualidade.


PRÓXIMO CAPÍTULO: É o mais vitorioso em campo, com título até de Copa do Mundo. Mesmo assim, não deixou de lutar jamais: 3 — Um campeão contra o racismo

ANTERIORMENTE: O camisa 1 que deu uma gambeta na ditadura do argentina: 1 — O goleiro que driblou Videla


A série tem a colaboração de Diego Figueira, na revisão dos textos, e do craque do traço Gonza Rodriguez, nas ilustrações.

A ideia é manter o Democracia Fútbol Club na ativa. Queremos ir atrás de mais histórias de times e clubes, de torcedores e torcidas. Afinal, como disse o técnico uruguaio Óscar Tabárez, o futebol é uma excelente desculpa para falarmos de outros assuntos. E é sobre isso que queremos falar. Futebol e outros assuntos. Assim, estamos aqui, pedindo uma força para vocês! Apoie o Democracia Fútbol Club.

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Roberto Jardim

Jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem. Autor dos livros Além das 4 Linhas e Democracia Fútbol Club. Como fazer jornalismo independente, mantém uma campanha de financiamento coletivo no Apoia.se, que ajuda na produção do projeto Democracia Fútbol Club, que tem o objeto de contar a história de jogadores e técnico, times e clubes, torcedores e torcidas que usaram a desculpa do futebol para irem além das quatro linhas.

Como citar

JARDIM, Roberto. O zagueiro intelectual. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 19, 2019.
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