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“Onde vai passar o jogo do meu time?”: a era da plataformização em massa das transmissões de jogos de futebol

"Onde vai passar o jogo do meu time?" A era da plataformização em massa das transmissões de jogos de futebol
Mercado de transmissões esportivos aqueceu bastante nos últimos dois anos. Foto: Vladimir-vinogradov-istock

Descobrir onde vai passar o jogo do seu time de coração passou a ser uma missão pra lá de desafiadora nos dias de hoje. A cada rodada, a cada Campeonato, aquela partida que você queria tanto acompanhar está sujeita a estar em um canto diferente, seja na TV aberta, fechada, no pay per view, no serviço de streaming pago ou nas plataformas digitais de acesso livre, como Facebook, Youtube ou TikTok. É a era da plataformização em massa das transmissões de jogos de futebol. Plataformização, vale reforçar, é um conceito utilizado para definir a “penetração de infraestruturas, processos econômicos e estruturas governamentais das plataformas digitais em diferentes setores econômicos e esferas da vida”. (POELL; NIEBORG; VAN DIJCK, 2020). Uma discussão perfeitamente aplicável ao contexto atual da mídia esportiva, tendo em vista o enorme poder de penetração das plataformas digitais e  de streaming nesse segmento.  

Afinal, vivemos um tempo de pulverização dos direitos de transmissão dos campeonatos de futebol, que acabaram fortemente impactados pela Lei do Mandante, em vigor desde junho de 2020 (além de outros fatores de mercado e de consumo, como a dispersão da atenção da audiência, que hoje fragmenta o seu tempo em várias plataformas, puxando também o investimento publicitário para vários players). Só na TV aberta, onde até pouco predominava o monopólio da Globo, as disputas por direitos de transmissão hoje contam com pelo menos quatro atores fortes: Globo, Record, SBT e Band. Na TV fechada, a disputa segue acirrada entre SporTV, TNT Sports, ESPN e Band Sports, fora os serviços de pay per view que cada uma dessas emissoras controla. A agitação é ainda maior no mercado de transmissões de campeonatos pela internet. Nos últimos dois anos, temos testemunhado uma explosão de serviços de streamings esportivos. Cada um deles, com um cardápio diferente, acessível mediante o pagamento de assinatura para ter acesso aos jogos. Entre eles, DAZN, TV NSports, Eleven Sports, One Football, D Sports, Prime Video, Nordeste FC, Estádio TNT Sports, HBO Max e Star+.

Interessante observar o fato de que cada um desses serviços consegue aproveitar as brechas que surgem no mercado de transmissões para fecharem seus contratos. Isso não apenas das competições badaladas como a Champions League, Libertadores da América e Série A do Brasileirão, mas sobretudo de competições que, até então, nunca foram televisionadas ou transmitidas na internet. Ou mesmo os chamados “jogos esquecidos”, testemunhados apenas pelos que estão no estádio. Um dos exemplos dessa leva de transmissões do famigerado  ‘futebol alternativo’ é capitaneado pela Eleven Sports, que transmite atualmente os jogos da 3ª Divisão do Campeonato Paulista, a Série A3. Outro exemplo de apropriação dos direitos de transmissão de campeonatos no estilo #futebolraiz é a Série C do Campeonato Brasileiro, que é exibida por três plataformas de streaming (DAZN, TV NSports e D Sports), além de contar com exibição de jogos em TV aberta, na Band.  

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Vale citar ainda o caso da TV NSports, considerada a primeira plataforma de streaming esportivo brasileira a criar os canais oficiais de cada entidade esportiva (não só de futebol, mas de outras modalidades, como futsal, basquete e vôlei). A empresa é responsável pela produção de jogos da Série A e B do Brasileirão para o exterior, cujos direitos pertencem à 1190 Sports. Além disso, a TV NSports opera plataformas que transmitem jogos de grandes clubes do Brasil, como Palmeiras, Vasco, Botafogo, Fluminense e Paysandu.

"Onde vai passar o jogo do meu time?" A era da plataformização em massa das transmissões de jogos de futebol
Nos novos formatos de transmissão, o torcedor pode assistir os jogos pelo celular, tablet, notebook ou smart TV. Foto: Divulgação

Outra plataforma recente em destaque é o Nordeste FC, que nasceu como Live FC e mudou a identidade em 2020, como estratégia para se aproximar mais do público nordestino. O serviço, de propriedade da empresa LiveMode, é responsável pela transmissão de todos os jogos da Copa do Nordeste e recentemente adquiriu também os direitos de transmissão do Campeonato Cearense. As partidas podem ser acompanhadas tanto pelo aplicativo, quanto pelo site ou via assinatura de pay per view em operadoras de TV a cabo.

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Há ainda plataformas de streaming vinculadas a grandes canais de TV por assinatura, como a Star+ (do Grupo Disney, que controla os canais ESPN) e a HBO Max (do grupo Warner Media, que controla o TNT Sports Brasil, e possui ainda outro serviço de streaming para transmissão de campeonatos, o Estádio TNT Sports, antigo EI Plus, da extinta marca Esporte Interativo. 

Caminhos para a democratização das transmissões de jogos de futebol 

Em meio a tantos serviços de streaming pagos,  o torcedor encontra ainda opções onde pode assistir jogos de forma liberada, sem necessidade de pagamento de assinatura, em plataformas como Youtube (alguns jogos do Paulistão e do Cariocão foram exibidos de forma liberada nos canais oficiais dos torneios), Twitch (em lives de perfis de influenciadores, como o ‘fenômeno da mídia esportiva’ Casimiro, Gaulês e TV Ronaldo) e TikTok (a Copa do Nordeste exibiu em 2022, em média, um jogo gratuito por rodada até a fase de semifinal).

 

A expressiva oferta de serviços de streaming esportivo ao mesmo tempo em que movimenta o mercado e dá opções para que o torcedor adquira o pacote de sua preferência, deixa um cenário preocupante: a maioria dos torcedores brasileiros não tem condições de pagar por tantas assinaturas, para que possa ter acesso aos jogos de sua preferência. Ou seja, vemos um paradoxo: ao mesmo tempo que os jogos estão em todos os cantos (em múltiplas plataformas), não estão canto nenhum (para o torcedor que não tem condições de assinar nenhum desses serviços por assinatura). 

Há, contudo, alternativas que podem baratear os custos, como a assinatura de serviços que dão acesso a algumas dessas plataformas, como o UOL Esporte Clube, Guigo TV e DirecTV Go. A escolha de um deles resolve apenas em parte os problemas de acesso aos jogos, mas ainda é uma solução longe de gerar o efeito que o Netflix proporciona para quem busca por filmes, séries e documentários. Assim, enquanto não surgir uma espécie de “Netflix dos Esportes”, cabe ao torcedor ponderar – diante de suas limitações orçamentárias – os serviços que reúnem condições de adquirir ou se virar com as opções gratuitas de acompanhar o seu time do coração, como o rádio e as transmissões (com e sem imagens da partida) pelas plataformas digitais de acesso livre. Fiquemos de olho nas movimentações desse mercado de transmissões, para que o futebol continue sendo um esporte democrático e de fácil acesso para o consumo da maioria dos brasileiros.

Referências e sugestões de leitura

POELL, Thomas; NIEBORG, David.; VAN DIJCK, José. Plataformização In: Revista Fronteiras – Estudos Midiáticos, 22(1):2-10 janeiro/abril 2020. 

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Possíveis efeitos da “Lei do Mandante” para clubes nordestinos (1). Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 39, 2021.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Possíveis efeitos da “Lei do Mandante” para clubes nordestinos (2). Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 26, 2021.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Possíveis efeitos da “Lei do Mandante” para clubes nordestinos (3). Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 34, 2021.

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Bruno Balacó

Jornalista, cronista esportivo e pesquisador. Doutorando em Comunicação na Universidade Federal do Ceará (UFC), mestre em Comunicação pela UFC, especialista em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais pela Estácio e graduado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza. Membro do grupo de pesquisa PraxisJor (UFC) e da Rede nordestina de estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). Pesquisa rádio e mídias sonoras, com ênfase em produções nas áreas de radiojornalismo esportivo e podcasts. Atua no mercado como jornalista e produtor de conteúdo no Grupo Cidade de Comunicação. Edita e produz o PapoCom, podcast vinculado ao Práxisjor. É editor dos livros 'Arena Castelão: templo do futebol cearense' (Fundação Demócrito Rocha - 2014) e "Leão 100 anos", o livro do centenário do Fortaleza Esporte Clube (O POVO - 2019).

Como citar

BALACó, Bruno. “Onde vai passar o jogo do meu time?”: a era da plataformização em massa das transmissões de jogos de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 27, 2022.
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