No próximo dia 28 de junho comemora-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, isto é, uma data mundial de luta e resistência de pessoas autodenominadas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queer, intersexos, agêneros e demais. Na verdade, a sigla não é consenso, uma vez que cada mais letras estão reivindicando parte nela. Mas é unânime a explicitação de orgulho por uma data tão simbólica e importante para tal grupo.

O dia celebra a chamada “Revolta de Stonewall”, que foi o início da exigência por direitos de pessoas que não se enquadravam nas normas heterossexuais naqueles fins dos anos 1960, nos Estados Unidos. O que ocorreu em 28 de junho de 1969 foi o estopim de protestos contra as ações de tropas policiais, que insistiam em invadir o bar Stonewall Inn, no bairro de Greenwich Village em Nova Iorque, e bater sistematicamente em seus frequentadores.

A partir do início dos anos 1970 e para comemorar aquele levante, a comunidade LGBTQIA+ começou a organizar as famosas “Paradas” (então conhecidas como “Paradas Gays”), a fim de mostrar à sociedade que seus membros existem e são seres humanos com direitos. Todo ano, na mesma data, elas celebram o aniversário daquela revolta. E, dos EUA para o mundo, as Paradas têm atingido sucesso absoluto. Hoje mesmo, enquanto você lê esta coluna, uma gigantesca “Parada do Orgulho” está acontecendo na cidade de São Paulo, pela primeira vez pós-pandemia.

Parada Gay 2014
Fonte: Wikipédia

As pessoas LGBTQIA+ diariamente são mortas e perseguidas no Brasil. A maior parte delas se encontra em situação de vulnerabilidade, tendo dificuldades de aceitação social e vivenciando processos sistemáticos de exclusão – de suas famílias, de bairros, de igrejas ou templos, e mesmo de escolas e entidades educacionais. As instituições sociais que deveriam acolhê-las, em geral, são as primeiras a excluí-las.

Elas possuem direitos garantidos na Constituição Federal e, como outros grupos, são parte da população que deveria ser atendida pelo Estado em suas garantias mais básicas. Inclusive no da representatividade política. O Estado deveria estimular candidatas(os) LGBTQIA+ em cargos políticos no legislativo, no judiciário e mesmo no executivo.

O esporte, e dentro dele o futebol, não podem estar alijados desses direitos básicos e das questões relativas à visibilidade e representatividade de tais pessoas. Na verdade, sujeitos LGBTQIA+ têm direito a práticas esportivas e de lazer como qualquer outra pessoa em sociedade.

Infelizmente, os espaços de práticas esportivas ainda são discriminatórios em relação a expressões dissonantes de gênero. E quando sujeitos LGBTQIA+ assumem outra orientação sexual ou identidade de gênero distinta, mostrando que podem coexistir nestes mesmos lugares que outras pessoas heterossexuais e cisgênero, isso abre perspectivas de intolerância e ódio, resultando em homo e transfobias.

Se você está minimamente conectada(o) nas mídias sociais, já percebeu que há atletas LGBTQIA+ amadoras(es), em várias modalidades esportivas, correndo, jogando, lutando, nadando em espaços competitivos dos mais variados. Atletas gays e lésbicas são mais comuns e a saída do armário de muitas(os) tem alcançado maior visibilidade nos últimos tempos. No entanto, a polêmica do momento é relacionada a atletas trans, que sofrem muita rejeição pública.

As mulheres trans são as mais perseguidas. Quem tem maior presença midiática é Tifanny Abreu, jogadora trans profissional de voleibol, que quando apareceu em quadra, nos idos de 2017, levantou polêmicas infundadas e especulativas sobre sua feminilidade e suas taxas hormonais.

Mas há outras e outros atletas, que têm suado a camisa para mostrar que seus intentos de participação não são em vão. Isabelle Neris, por exemplo, tornou-se a primeira mulher trans voleibolista registrada no naipe feminino da equipe Voleiras, de Curitiba. E isso chancelado pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV).

Isabelle Neris
Isabelle Neris. Fonte: divulgação

São nomes que acabam servindo como exemplos de persistência a gerações mais novas, como é o caso de Anne Viriato, mulher trans que luta com homens no MMA, e de Maria Joaquina, patinadora trans de 14 anos que tem brilhado nas pistas de competições juniores.

Os exemplos são mais numerosos do que no passado, porém ainda são poucos. Se gays e lésbicas acabam se colocando em times e equipes, pessoas trans enfrentam transfobia do senso comum, para quem tais pessoas querem “virar trans” para competir e tirar a chance de atletas não-trans. 

Isto é enganoso, porque estamos falando de 0,69% (ou um milhão e meio) de pessoas trans em todo o Brasil, segundo pesquisa da Universidade Júlio de Mesquita Filho (UNESP), e isso é muito pouco para que se desencadeie um “pânico moral” contra atletas trans – provavelmente a minoria está no esporte.

Trata-se, sim, de considerar o direito de acesso a práticas de lazer e esportivas a um grupo discriminado no todo social. Documentários e filmes sobre a condição de existência e as atividades que envolvem pessoas LGBTQIA+ têm aparecido nas mídias sociais (como em plataformas independentes e no YouTube), inclusive sobre esporte. Isso é produtivo, pois uma maior produção cultural sobre elas significa, igualmente, maior disseminação e qualificação da informação distribuída.

Se há cerca de 10 anos o que se tinha disponível era baseado em casos de exceção no esporte, como o de Reneé Richards, a primeira atleta trans a jogar no tênis profissional nos anos 1970, cuja história foi colocada em filme disponível no YouTube (Second Serve), hoje em dia temos cada vez mais produções.

Disponível na Globoplay, por exemplo, há o longa “Quem Pode Jogar?” (2020), de Marcos Ribeiro. O filme traz o cotidiano de treinos do fisioculturista Juliano Ferreira, da lutadora Anne Viriato, da voleibolista Isabelle Neris, da patinadora Maria Joaquina e de outras(os) atletas LGBTQIA+, mostrando o quão dura é a realidade, mesmo para quem já transicionou ou adotou outra orientação sexual.

Enfim, o direito ao acesso ao esporte está assegurado no papel, na Convenção sobre os Direitos da Criança, na Constituição Federal Brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente, três importantes documentos que nos garantem, minimamente, possibilidades de uma cidadania digna na sociedade atual.

Nosso desafio enquanto sociedade brasileira é o de que o esporte e as práticas de lazer sejam garantidos nas escolas, nas praças, nos parques, nas ruas, nas comunidades e bairros e em todos os lugares, para qualquer pessoa, inclusive as LGBTQIA+.

Por isso, viva o Orgulho LGBTQIA+, pois a aceitação do diferente é o júbilo que podemos cultivar de nós mesmos enquanto seres humanos!

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Orgulho LGBTQIA+ e o esporte como direito. Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 21, 2022.
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