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Os chifres de Amalteia e a cabeça de gaúcho do mengão… ou sobre abundância e estrelas

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 22 de dezembro de 2021

Amalteia é a cabra de uma ninfa grega que recebeu a incumbência de cuidar do recém-nascido Zeus.[1] Como a ninfa não tinha leite para cumprir com tal função, ela entregou Zeus para que sua cabra o amamentasse. Zeus é filho de Réia com Cronos (o deus do tempo). Cronos, com medo da profecia de que seria destronado por um de seus filhos, comia-os todos quando nasciam.  Porém, sua esposa Réia queria um primogênito e, ao parir Zeus, enrolou uma pedra aos lençóis do parto e a entregou desse jeito para que Cronos a devorasse, acreditando ser seu filho recém-parido. Cronos engole a pedra sem se dar conta que caiu na trampa de Réia. Entretanto, Réia não podendo ficar com o então menino Zeus, entrega-o a uma ninfa, incumbida de criá-lo de modo escondido e protegido junto à sua cabra, no interior de uma caverna na Ilha de Creta. 

Luís Carlos Tóffoli, ou “Gaúcho” (como era mais conhecido no meio futebolístico), foi um centroavante que iniciou sua carreira nas categorias de base do Flamengo, em 1984. No entanto, com poucas oportunidades no estrelado elenco da época, o Flamengo, com medo de que a carreira do jogador fosse “devorada pelo próprio clube”, emprestou o jogador para que pudesse “crescer e se desenvolver” em outros times. Desse modo, Gaúcho jogou no XV de Piracicaba, Grêmio, Verdy Kawasaki (Japão), Santo André e Palmeiras antes de retornar no ano de 1990 ao clube que o pariu.

Zeus cresceu protegido, saudável e forte sob os cuidados da ninfa e de sua cabra Amalteia. Certo dia, ao brincar com a cabra e de modo despropositado, Zeus atinge um de seus chifres com um raio e o quebra.[2] Muito triste com o ocorrido, Zeus pega o corno de Amalteia e o entrega para a ninfa e, como forma de desculpas, lhe crava um presságio compensador: “nunca faltará nada a quem possuir este corno”. E assim é criada a cornucópia ou o “corno da abundância”.

Amalteia
Amamentação de Zeus (por Nicolas Poussin, 1630). Fonte: Wikipédia

Em algumas religiões os cornos simbolizam o poder vital da força espiritual que emana da cabeça e o chifre é a materialização externa de tal força. Por isso nessas religiões, alguns deuses são seres portadores de chifres. Além disso, no mundo mítico, os cornos também são signos de fertilidade, uma vez que são metáfora do masculino (sua forma côncava) e do feminino (sua forma convexa). Se olharmos um chifre pelo seu lado exterior, ele tem a forma fálico-peniana do homem e, quando visto por dentro ou lado interno, representa a concha receptiva que simboliza a vagina da mulher. De igual modo, ele também simboliza a fertilidade na agricultura, pois sua curvatura é metáfora da “lua nova”, assim como do arco solar. Por fazer alusão à abundância e à prosperidade, os chifres aparecem estampados com frequência em alguns escudos e bandeiras de estados e nações.[3]

Longe da Gávea, Gaúcho cresceu e se desenvolveu. Em 1988, quando jogava pelo Palmeiras, Gaúcho “quebra sem querer o chifre da cabra que o criou”. Tal episódio se deu num jogo contra o Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano no Maracanã. O Palmeiras vencia o Flamengo por “1 x 0” mesmo com um jogador a menos, pois Denis havia sido expulso por uma entrada violenta em Sérgio Araújo. O Flamengo sai em busca do empate e, ao final da partida, Bebeto divide uma bola com o goleiro Zetti, tirando-o machucado do jogo. O time do Palmeiras já havia feito todas as substituições e, então, eis que Gaúcho vai para debaixo da meta defender o gol do porco. Aos 47 minutos do segundo tempo, Zico cruza e Bebeto empata de cabeça: placar 1 x 1. Hora dos pênaltis: Gaúcho defende 2 tiros livres (o do zagueiro Aldair e o do meia Zinho) e como se não bastasse, ainda bate o seu e o converte em gol em cima do lendário goleiro Zé Carlos. Placar final: Flamengo 4 x 5 Palmeiras. O Palmeiras vence o Fla com golpes duros de Gaúcho.

Gaúcho Palmeiras
Gaúcho pegando pênalti no Flamengo x Palmeiras. Foto: reprodução

Muito triste com o ocorrido, em 1990 Gaúcho volta para o Flamengo para se tornar ídolo da Nação. Com sua especialidade, “fazer gols de cabeça”, Gaúcho dá abundantes títulos ao Mengão. Com ele, o Flamengo vence a Copa do Brasil de 1990 diante do Goiás; o Campeonato Carioca de 1991 sobre o Fluminense (“4 x 2” Flamengo, com gol de cabeça de Gaúcho); e o Campeonato Brasileiro frente o Botafogo (nos “3 x 0” do primeiro jogo Gaúcho deixa o dele de cabeça). Um exímio centroavante cabeceador, “uma cabra com cornos abundantes” de gol. Além dos títulos, Gaúcho foi artilheiro do carioca de 1990 e 1991, da Libertadores da América de 1991 e da Supercopa Libertadores de 1991. Com a camisa do Flamengo atuou em 199 partidas, anotando sensacionais 99 gols.

Depois de adulto, Zeus faz valer a profecia, mata seu pai Cronos e tira seus irmãos de seu ventre. Ao matar o tempo, Zeus confere a dádiva da imortalidade aos Deuses. Além disso, ao destronar o pai, acaba por substituí-lo e se torna a divindade maior do Olimpo. O dia em que Amalteia morreu, em forma de agradecimento Zeus imortalizou a cabra no mais alto dos céus sob a insígnia de estrela. A “constelação de capricórnio” é o desenho de Amalteia esquadrinhado no horizonte celeste. Com a pele da cabra, Zeus fez sua armadura de guerra.

Em 1993 Gaúcho deixa o Flamengo e ainda defende vários outros clubes nacionais e internacionais, como: Lecce (Itália), Boca Juniors (Argentina), Atlético Mineiro, Ponte Preta e Fluminense. Encerrou sua carreira de jogador em 1996, atuando pelo Anápolis. Em 2016 Gaúcho morre acometido por um câncer.  Na sala de troféus do Flamengo está lá uma “constelação chamada Gaúcho”, uma estrela imortalizada em forma de troféus. Gaúcho foi enterrado coberto com a bandeira rubro-negra, com as mesmas cores de sua “armadura” de número 9.

Gaúcho, Cronos jamais há de te devorar, porque você está imortalizado em forma de títulos.

Notas

[1] Há outra versão do mito que diz que Amalteia é uma ninfa que tinha uma cabra chamada Aix que amamentou Zeus.

[2] O raio é o símbolo do poder de Zeus e a arma mais poderosa do Olimpo. Além disso, também é metáfora do fogo e dos trovões.

[3] Escudo da Colômbia, Peru, Panamá, Venezuela, Honduras. A cidade Chilena de Copiapó, que fica na região do Atacama, traz a cornucópia estampada no pano de sua bandeira.

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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Os chifres de Amalteia e a cabeça de gaúcho do mengão… ou sobre abundância e estrelas. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 32, 2021.
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