39.6

Os hooligans e a grande crise do futebol inglês

Marcos Alvito 21 de setembro de 2012

“Desde o pontapé inicial parecia provável que haveria problemas, mas a balbúrdia explodiu quando Dean e Jarvis se chocaram… Isso acendeu os ânimos dos torcedores… A multidão atrás do gol enlouqueceu e havia brigas por toda a parte”. É assim que um jornal descreve o comportamento da torcida durante o “clássico” West Ham x Millwall. Só que isso ocorreu em Londres em 1906! Os episódios de violência por parte dos torcedores nunca foram novidade. Por vezes juízes eram atacados, atiravam-se objetos nos jogadores adversários e havia desordens fora do estádio também, na rua ou nos pubs, muitas vezes causadas pelo excesso de álcool. Já no século XIX os indivíduos envolvidos em desordens eram chamados de hooligans.

De qualquer forma, esses incidentes eram espontâneos e individualizados. Tendiam a ocorrer somente nos jogos em que havia maior rivalidade. De uma maneira geral o comportamento do público era pacífico e ordeiro. A prova disso é que nas décadas de 1940 e 1950  era comum escalar em média um policial para cada mil torcedores. Nos terraces ou nos stands, torcedores dos dois times misturavam-se sem problemas. Muitas vezes era a própria multidão que impedia as brigas e não tolerava determinados comportamentos.

Nessa época a polícia era bastante respeitada pelo público em geral, inclusive pela classe trabalhadora. Era comum dezenas de milhares de pessoas comprimirem-se durante horas em pé nos terraces atrás do gol, eventualmente na chuva e no frio, torcendo de forma apaixonada, sem que ocorresse qualquer distúrbio. A classe trabalhadora, cada vez mais consciente da sua importância e desfrutando de uma crescente prosperidade, frequentava as arquibancadas usando terno, gravata e chapéu.

Os primeiros sinais de mudança ocorreram ainda em meados da década de 1950, quando grupos de jovens, sobretudo de Liverpool, começaram a causar problemas nos trens especiais que levavam os torcedores aos jogos. Esses acontecimentos eram veiculados pela mídia, em um momento em que a juventude britânica começava a questionar o mundo adulto e suas convenções. Os jovens da classe trabalhadora também se beneficiavam da melhora de poder aquisitivo, o que estimulou o desenvolvimento de um mercado próprio de lazer para esse grupo. Na música popular, por exemplo, havia todo um movimento em ebulição, de onde surgiriam os Beatles.

No início da década de 1960, os jovens estavam revolucionando a maneira de torcer nos estádios britânicos. Passaram a se concentrar nos terraces localizados atrás do gol, onde os ingressos eram mais baratos e a distância da parte “respeitável” do público era maior. “You will never walk alone”, uma música tocada por um grupo local, Gerry and the Pacemakers, foi transformada pelos torcedores do Liverpool F.C. em um verdadeiro hino do clube. Cantavam, criavam gestos e roupas próprios, sobretudo para diferenciarem-se dos adultos, mas também dos outros grupos de jovens. Esses estilos viajavam rapidamente pela mídia, influenciando outros jovens por todo o país.

Os terrace ends são cada vez mais exclusivamente frequentados por jovens, que começam a percebê-los como um território particular, onde eles afirmavam sua identidade e seus valores. As rivalidades futebolísticas eram apropriadas por esses jovens, resultando em disputas e conflitos entre os grupos. Antes de mais nada, havia a agressão verbal do tipo:

“Oxford boys we are here

Shag your women

Drink your beer”

(Chegaram os caras de Oxford

Transamos com suas mulheres

E bebemos sua cerveja)

            Ou então:

“You’re gonna have your fuckin’ heads kicked in”

(Vocês vão ter suas cabeças chutadas)

 

Além de ofensas, xingamentos e ameaça, as brigas entre torcedores rivais, as invasões de campo e o arremesso de objetos tornavam-se a cada dia mais frequentes. Já em novembro de 1963, o Everton F.C. é o primeiro clube a colocar cercas atrás do gol, chamadas pelos jornais de “hooligan barriers” (barreiras contra os hooligans). Ao mesmo tempo, estava havendo uma diminuição do público que frequentava o estádio, causada pelas transformações em curso na sociedade, mas também agravada por esse aumento na violência.

Confrontos entre grupos de jovens ocorriam também fora do futebol, e o público começa a ficar extremamente sensível a este tipo de notícia, o que é amplamente explorado pela imprensa, cada vez de forma mais sensacionalista. Os jornais do final da década de 1960 passaram a vender a ideia de que havia uma “guerra” em curso nos estádios, o que sem dúvida contribuiu para afastar ainda mais o público bem-comportado e para tornar o sábado à tarde ainda mais excitante para os jovens.

Começava assim um círculo vicioso que logo iria resultar na criação de pequenos grupos de jovens torcedores voltados exclusivamente para a violência e o combate entre si, as chamadas “firms” ou “crews”. No início da década de 1970 os jornais populares já publicavam rankings dos grupos de torcedores mais violentos. E as “firms” começaram a ousar cada vez mais, buscando aumentar a sua “reputação”. A violência no futebol começa a fazer parte do cardápio de atrações da televisão que começa a focalizar os confrontos entre as torcidas, os palavrões e desafios obscenos em um verdadeiro estímulo ao à agressividade exibicionista.

De início a “brincadeira” era tomar o end da torcida adversária, pois a invasão do território inimigo era a suprema humilhação dos contrários. Mas a polícia começa a prever estes incidentes e a prender os envolvidos. A minoria de jovens interessados somente em brigar começa a planejar outros tipos de ação, muitas vezes encontrando os grupos rivais fora do estádio. Ao mesmo tempo, começam a ser tomadas medidas para prevenir a violência, mas que transformam os estádios em verdadeiras prisões: são levantadas cercas em torno de todo o campo e o estádio é dividido em pens (“chiqueirinhos”) separados por grades. De ambos os lados, as torcidas estavam enjauladas.

Esta divisão e segregação dos torcedores aumenta ainda mais o clima e as manifestações de rivalidade e de agressão verbal. Os torcedores visitantes passam a ser escoltados pela polícia desde o seu desembarque dos trens e marcham como se fossem um exército inimigo até o local do jogo. Cada vez mais a polícia usa cães e cavalos, é montada uma verdadeira “operação de guerra” a cada sábado. Os torcedores passam a ser revistados à entrada, mas os interessados em violência conseguem ludibriar a polícia com uma maligna criatividade: afiam moedas até torná-las pontudas, enrolam jornais até transformá-los em armas e por aí vai. A presença de enormes contingentes policiais e o clima belicoso tornam tudo aquilo ainda mais atrativo para os torcedores patologicamente violentos, ao mesmo tempo em que a frequência aos estádios cai assustadoramente.

Grupos de extrema-direita como o National Front logo percebem as possibilidades propiciadas por aquele tipo de ambiente e começam a usar o futebol como um palco para expressões de racismo e xenofobia. Jogadores negros são xingados, recebidos com gestos imitando primatas, atiram-se bananas no campo. As incursões destes grupos no exterior, acompanhando a seleção inglesa, solidificam a reputação dos hooligans ingleses que começam a ser imitados por jovens de outros países.

Tudo isso ocorre sobretudo na década de 1980, quando a Inglaterra está sofrendo uma recessão econômica profunda, um grave processo de desindustrialização e desemprego, tudo isso agravado pela política neoliberal de Margaret Thatcher, primeira ministra da Inglaterra desde 1979: privatização de empresas estatais, guerra aos sindicatos e ao Estado de Bem-Estar social, com cortes de verba na educação, na saúde e nos serviços públicos em geral.

Além da violência física, os estádios de futebol começam a ser palco de inúmeras manifestações de violência simbólica: os torcedores dos clubes londrinos tiram notas de dinheiro do bolso e acenam para torcedores do norte da Inglaterra, supostamente pobres e desempregados, gritando “We have loads of money” (Nós temos dinheiro paca) e “You will never find a job” (Vocês nunca vão conseguir um emprego). Eventualmente até abaixam as calças para mostrar que usam cuecas de “marca”. Os nortistas respondem com cantos que afirmam serem os sulistas frouxos e moradores de apartamentos alugados. É como se os estádios de futebol fossem um teatro das contradições e problemas da sociedade britânica.

Foram muitas as tentativas de explicação do hooliganismo. Alguns tentaram relacioná-lo a uma forma de protesto contra a comercialização excessiva do futebol, mas a violência dos hooligans não era contra os diretores e sim contra os outros grupos de jovens. Ademais, o hedonismo e o consumismo abraçados por eles mostram uma clara aceitação do capitalismo. Problemas sociais, que decerto podem ter contribuído, não são uma explicação suficiente, porque o problema surgiu no início da década de 1960, uma época de prosperidade e baixas taxas de desemprego. Houve quem relacionasse o hooliganismo a um setor mais “rude” da classe trabalhadora, marcado por uma socialização violenta, em que a briga, a formação de grupos de jovens e a defesa do território eram características centrais. Essa hipótese parece ter mais peso, embora deva-se ressaltar que os hooligans não viessem de uma só classe social.

Richard Holt, em seu livro Sport and the British, é quem parece melhor dar conta do fenômeno. Ou melhor, dos fenômenos. Para ele, o hooliganismo é resultado de um conjunto articulado de processos. A defesa do território e da comunidade era uma característica das classes populares há vários séculos: o futebol tradicional jogado entre as aldeias é um bom exemplo disso. Tornar-se “homem” entre os jovens da classe trabalhadora era um aprendizado que envolvia bebida, brincadeiras verbais e brigas, eventualmente envolvendo dois grupos distintos, cada um deles afirmando sua masculinidade, o pertencimento a um território e a solidariedade coletiva. Este comportamento era ao mesmo tempo estimulado e controlado pelos homens mais velhos. As disputas entre as turmas de jovens ficavam restritas ao bairro e não causavam maiores problemas.

A partir da década de 1950, começam a se esgarçar as solidariedades de classe e muitas comunidades inclusive desaparecem diante das transformações econômicas e das reformas urbanas que põem abaixo bairros inteiros. Cada vez menos os jovens irão seguir as carreiras dos pais e mesmo quando o fazem não mais se conformam a uma posição subordinada que lhes barra o acesso a bens de consumo cada vez mais desejados.

O futebol e seus “rituais de sábado à tarde” irão proporcionar a estes jovens o pertencimento a um novo tipo de comunidade, uma identidade definida pelo clube e um território próprio a defender (o end). Alguns valores da classe trabalhadora, como a rudeza (hardness) e o apego ao local serão retrabalhados e elaborados em novas formas. O skinhead, por exemplo, com suas pesadas botas de operário e cabeça raspada para diferenciar-se dos estudantes de classe média com seus cabelos longos, pode ser visto como uma caricatura agressiva da figura do trabalhador. Todo aquele que vem de fora, seja o torcedor do outro clube ou o imigrante paquistanês ou indiano é visto como um inimigo.

É claro que esta nova configuração social do futebol iria resultar em tragédia, mas às vezes a tragédia pode ser o início de um novo tempo.

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Marcos Alvito

Professor universitário alforriado. Escritor aprendiz. Observador de pássaros principiante. Apaixonado por literatura e futebol. Tenho livros sobre Grécia antiga, favela, cidadania, samba e até sobre futebol: A Rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. O meu café é sem açúcar, por favor.

Como citar

ALVITO, Marcos. Os hooligans e a grande crise do futebol inglês. Ludopédio, São Paulo, v. 39, n. 6, 2012.
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