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Osvaldo Ardiles, um craque no meio da Guerra das Malvinas

Thiago Rosa 12 de abril de 2019

Osvaldo Ardiles foi um dos grandes nomes do futebol argentino do final dos anos 70 e início da década de 80. Meio campo de muita técnica e precisão no passe, era o que se chama hoje de volante moderno. Vestindo a camisa albiceleste, foi titular e campeão da Copa do Mundo de 1978, com direito a participação em um dos gols da vitória por 3×1 diante da Holanda, na final.

Ardiles jogou tanto no Mundial que naquele mesmo ano o técnico do Tottenham Hotspur, Keith Burkinshaw, foi até a Argentina para contratá-lo. Camisa 2 da seleção comandada pelo lendário técnico César Luis Menotti – no torneio, a numeração obedeceu a ordem alfabética dos sobrenomes – ele seria o precursor entre os argentinos no futebol inglês, segundo conta o documentário “White, Blue and White”, da série Espn 30 for 30: Soccer Stories. Acabou não indo sozinho. Por 750 mil libras, o time londrino comprou ele junto ao Huracán e o meia do Racing e da seleção argentina, Ricardo Julio Villa. Era o início da trajetória dos hermanos na terra da Rainha.

Osvaldo Ardiles e Ricky Villa com a camisa do Tottenham. Foto: Fanpage do Tottenham Hotspur/Facebook.

Logo no começo eles perceberam que a vida no novo continente não seria nada fácil. Afinal, não eram apenas os dois únicos argentinos, mas também os primeiros jogadores não britânicos a atuar no Reino Unido. “Era uma liga muito fechada e até surgiram vozes no Parlamento contra nossa chegada porque estaríamos tirando trabalho dos britânicos”, escreveu Ardiles em um artigo para a revista SoHo.

O tempo, porém, mostrou que Burkinshaw havia tomado a decisão certa. O clube tinha acabado de retornar à primeira divisão. Ardiles e Ricky Villa, como Ricardo era chamado, passaram a fazer o time jogar bonito, com qualidade e, principalmente, bola no chão. Era um choque para o velho futebol inglês de força e bolas alçadas na área. Juntos, os dois argentinos foram fundamentais para a conquista da Copa da Inglaterra em 1981. Foi de Ricky Villa um dos gols da vitória por 3×2 contra o Manchester City na grande final, em Wembley.

Os feitos com os Spurs deram uma imensa popularidade a Ardilles. Um reconhecimento que extrapolou os gramados. O craque participou do filme “Fuga para a Vitória”, ao lado de estrelas do futebol, como o inglês Bobby Moore, o rei Pelé e o ator Sylverster Stallone. Virou também personagem principal de uma música de sucesso cantada pela dupla londrina Chas & Dave.

Ardiles e a Guerra entre Argentina e Inglaterra

Era manhã de 2 de abril de 1982 quando as tropas argentinas desembarcaram em Stanley, a capital das Ilhas Malvinas. O arquipélago sob o domínio da Inglaterra desde 1833 voltava a ser comandado pela Argentina 149 anos depois.  

A reconquista das Malvinas representava uma tentativa desesperada do ditador Leopoldo Galtieri de ganhar apoio popular e distrair o povo diante dos problemas latentes do país. Se a ideia era incendiar o nacionalismo argentino, ele conseguiu. Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas. Primeiro, para celebrar o domínio das Malvinas. Segundo conta o livro “Os Hermanos e Nós”, do jornalista Ariel Palácios, o que se viu depois foi o nascimento de um forte sentimento antibritânico. Multidões fanatizadas passaram a apedrejar comércios com nomes britânicos em Buenos Aires. Acabara ali o ditado popular que definia o argentino como “um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês”.

Pelo lado da Inglaterra, mesmo enfrentando problemas econômicos e resistência internacional, a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher decidiu pela reocupação do que chamam de Ilhas Falkland. Estava instaurada a Guerra.

Não demoraria nada para que aquele clima bélico interferisse na vida de Ardiles. Um dia depois da tomada das Ilhas pelos argentinos, Tottenham e Leicester disputariam uma das semifinais da Copa da Inglaterra. Naquele momento, a animosidade sairia das ruas e invadiria as arquibancadas. A cada vez que o volante tocava na bola, a torcida adversária gritava: “Inglaterra, Inglaterra, Inglaterra”. Como resposta, fãs do Tottenham diziam “Argentina, Argentina, Argentina”. Enquanto argentinos e ingleses se matavam, torcedores dos Spurs optaram em apoiar seu ídolo.

Aquela seria a última partida de Ardiles pelo Tottenham. Depois do duelo, ele se juntou à seleção da Argentina para a disputa da Copa de 82, na Espanha. Nem ele nem Villa, que estava em Londres, jogaram a final da Copa da Inglaterra, vencida pelos Spurs contra o Queens Park Rangers.

Osvaldo Ardiles, em campo com a camisa da Argentina. Foto: Monaco World Sports Legends Award – WSLA/Facebook.

Para piorar a situação, José Leónidas Ardiles, primo do jogador e piloto da Força Aérea Argentina, foi morto durante a Guerra. E isso a menos de um mês do início do Mundial. Em campo, a seleção vai mal e cai na segunda fase, trazendo na bagagem uma derrota de 3×1 para o Brasil de Zico, Sócrates, Falcão e companhia.

Pressionado por todos os lados, Ardiles decide que era hora de sair. “Para a imprensa argentina, eu era um traidor; para a inglesa, um espião. Tudo o que dizia era visto com 20 lupas e interpretavam mal. Então, pedi ao clube que me transferisse. O técnico não queria saber de nada. O presidente me disse que fosse à Argentina e que quando estivesse bem, voltasse. Eu não podia ficar parado”, disse em 2011 à revista El Gráfico.

Quando ele deixou o Tottenham, a Guerra já havia acabado, com vitória da Inglaterra e um triste saldo de 907 mortos de ambos os lados. Longe de sua terra natal e do clube em que se tornou ídolo, o volante encontrou abrigo no Paris Saint-Germain, onde jogou seis meses por empréstimo.

Com uma atuação apagada no PSG e com um clima menos hostil,o jogador não hesitou em voltar ao Tottenham, onde viria a ganhar a Copa da Uefa em 1984. Jogou até 1988 e se consolidou como um dos maiores ídolos da história do clube.  

Com vários trabalhos como treinador, Ardiles hoje vive em Londres e é o embaixador oficial do Tottenham. Do conflito das Malvinas, ele aprendeu uma importante lição extracampo. A de que política e futebol sempre andam juntos.

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Thiago Rosa

Formado em Jornalismo e com especializações em Relações Internacionais, Marketing e Gestão da Experiência do Consumidor. Cofundador do Extracampo, projeto com a finalidade de mostrar a influência do esporte mais popular do mundo na sociedade e na vida das pessoas ao longo do tempo. Tem a certeza de que o futebol jamais será só um jogo.

Como citar

ROSA, Thiago. Osvaldo Ardiles, um craque no meio da Guerra das Malvinas. Ludopédio, São Paulo, v. 118, n. 13, 2019.
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