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Otávio na seleção portuguesa e a xenofobia dos que não se acham xenófobos

Emanuel Leite Júnior 31 de agosto de 2021

Na passada quinta-feira, 26 de agosto, Fernando Santos, treinador da seleção portuguesa, anunciou a convocação para os três jogos que o time vai realizar entre 1º e 7 de setembro, dois pelas Eliminatórias Europeias da Copa do Mundo 2022 (Irlanda e Azerbaijão) e, pelo meio, o amistoso com a seleção do Catar, que tem enfrentado todas as equipes do Grupo A. Da lista de 26 nomes, três jogadores são estreantes na relação. A principal novidade e que gerou maior repercussão foi o paraibano Otávio, que se naturalizou português no primeiro semestre de 2021. O meio-campista do FC Porto é o sétimo “luso-brasileiro” a jogar por Portugal, o quinto neste Século – destes cinco mais recentes, quatro são nascidos no Nordeste (Pepe, Liedson, Dyego Sousa e Otávio).

Nascido em João Pessoa, Tavinho, como é carinhosamente chamado por muitos portistas, deu seus primeiros chutes na bola nas categorias de base do futsal do Santa Cruz, do Recife (a 120km de sua cidade natal). O paraibano esteve dos 11 aos 15 anos no tricolor pernambucano, onde ainda integrou os times sub13 e sub15 de futebol de campo antes de rumar ao Internacional de Porto Alegre. Do Inter, transferiu-se para o FC Porto em 2014. Depois de uma temporada no Porto B e outra emprestado ao Vitória de Guimarães, Otávio se firmou no elenco principal dos Dragões a partir da temporada 2016/17. Já são sete anos a viver em Portugal, algo que o próprio atleta destacou ao reagir à sua primeira convocação para a Seleção das Quinas:

“Há sete anos, escolhi Portugal como a minha casa e a casa da minha família. Aqui, fui acolhido por todos, fiz grandes amigos e, claro, sempre honrei a camisola do FC Porto. Hoje, a convocação para a Seleção Portuguesa chega como a realização de um sonho. Só posso agradecer a oportunidade de representar este país e as suas cores. Sinto que é o momento de retribuir o carinho de toda uma nação com essa chamada” (grifo nosso), manifestou-se o meia em seu perfil no Instagram.

Apesar de Otávio desejar “retribuir o carinho de toda uma nação”, a realidade é que a presença de seu nome na lista de Fernando Santos fez despertar novamente a discussão entre os portugueses sobre a convocação de brasileiros naturalizados para a seleção portuguesa. Infelizmente, a contestação ganhou contornos xenófobos, com vários comentários preconceituosos poluindo as redes sociais. Algo que também não surpreende, afinal, apesar de grande parte da população portuguesa não se considerar racista e xenófoba, manifestações preconceituosas são frequentes.

 
 
 
 
 
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O mito do “não-racismo português”

No artigo “Racistas são os outros! Reflexões sobre as origens do mito do «não racismo» dos portugueses”, João Filipe Marques inicia sua análise com uma pergunta de partida básica: “de onde vem a ideia tão difundida e tão resistente do “não racismo” dos portugueses?” (MARQUES, 2008). O questionamento faz todo o sentido, pois como é que o país que inventou o racismo como o conhecemos atualmente – afinal, não nos esqueçamos, “o racismo e o eurocentrismo tiveram origem no colonialismo e nas questões de poder que daí advieram” (ALMEIDA, 2012) – pode achar que não é racista e xenófobo?

Marques argumenta que em Portugal se construiu a ideia de que a colonização portuguesa foi não apenas branda, mas harmoniosa e inclusiva, contrapondo-se às explorações de espanhóis “sanguinários que matavam os índios”, ingleses e franceses que exploravam “até o limite as suas colónias” e até mesmo dos EUA que “segregavam e descriminavam odiosamente negros”. Esta visão “mítica”, segundo o autor, primeiro surge como propaganda política do Estado Novo e depois do 25 de abril (de 1974, que derrubou o regime fascista e instaurou uma democracia burguesa) continua a ser reproduzida pela “escola, família, o homem da rua, os cientistas e os políticos” (MARQUES, 2008).

Essa imagem que Portugal construiu de si mesmo, ainda de acordo com Marques, começou a ser elaborada na virada do Século XIX para o Século XX. Porém, é apenas após o fim da II Guerra Mundial, “face às críticas internacionais ao sistema colonial e ao descrédito generalizado das teorias raciais” que o Estado Novo implementa uma mudança em seu discurso, que se alicerça inclusive em uma reforma jurídica, para justificar essa percepção manufaturada. A Constituição portuguesa em 1951 é alterada, fazendo com que os termos “Império Colonial” e “Colónias” fossem substituídos por “Ultramar” e “Províncias Ultramarinas”, forjando-se, assim, uma nação “pluricontinental” e “multirracial” indivisível (MARQUES, 2008).

Para isso, o Estado Novo se fez valer dos conceitos de uma suposta “democracia racial” que Gilberto Freyre inicialmente elaborou em “Casa Grande & Senzala”, em 1933. Freyre alega que a colonização portuguesa se diferenciava por, supostamente de acordo com este sociólogo, ter uma predisposição para a miscigenação e, mais, uma aceitação de valores e práticas culturais diferentes, fruto da própria “plasticidade social” da formação portuguesa (FREYRE, 2003).  

Curiosamente, como aponta Marques, as ideias de Gilberto Freyre não foram bem aceitas pela intelectualidade portuguesa nos anos 1940, sendo inclusive visto com desconfiança por parte do regime fascista (MARQUES, 2008). Somente a partir dos anos 1950, com a mudança na conjuntura geopolítica internacional, é que Portugal se vê na necessidade de alterar seu discurso e, assim, recorre a Gilberto Freyre. É só nesta década que Freyre, já próximo do regime português, esboça o que ficou cunhado como “Lusotropicalismo” (LIMA, 2021).

É o Lusotropicalismo que vai dar sustentação teórica à propaganda ideológica do regime fascista, que passa a difundir a imagem de um Portugal indivisível, sem discriminação e segregação. Haveria, assim, a ausência do racismo na própria essência do povo português e, por isso, sua colonização não foi má como a espanhola, inglesa e francesa, mas harmoniosa e fraterna (MARQUES, 2008; LIMA, 2021). O esporte, particularmente o futebol, também foi usado como um instrumento desta difusão ideológica, como bem demonstra o companheiro de Reneme Rodrigo Carrapatoso em seu artigo “Colonialismo, Lusotropicalismo e futebol” (LIMA, 2021).

É por essa razão que o mito do “não-racismo” português é tão forte e presente no ideário do cidadão português em geral. Mesmo quando alguém destila seu etnocentrismo europeu e tece comentários racistas e/ou xenófobos, essa pessoa não é capaz de reconhecer seu preconceito. Foi isso o que se viu em várias reações à convocação de Otávio para a Seleção Portuguesa na semana passada.

 
 
 
 
 
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A xenofobia contra Otávio

Muita gente tentou menosprezar o cunho xenófobo contra a convocação de Otávio alegando que as manifestações de ódio se baseavam em uma rejeição ao “caráter” do jogador (isso porque o meia é muito identificado com o FC Porto e já provocou torcedores rivais nas redes sociais), enquanto algumas pessoas argumentavam que a crítica se limitava à questão técnica, no caso a falta de qualidade do jogador. Sim, é verdade, houve muita clubite (ou seja, a versão doentia do clubismo) e também questionamentos técnicos. Porém, também existiram diversas manifestações preconceituosas e xenófobas. Abaixo, menciono apenas algumas. Optei por omitir seus autores e suas autoras, copiando e colando os textos conforme publicados (inclusive com seus erros de grafia e gramática).

Um perfil com conta verificada pelo Twitter e 10,7 mil seguidores questionou:

“Entendo que um jogador estrangeiro possa entrar na convocatória portuguesa quando vem dar uma qualidade diferente á equipa tal como deco,pepe, até liedson, a minha curiosidade agora é, Otavio acrescenta algo que outro português não possa acrescentar ?” (grifo nosso)

Um olhar menos crítico, até pode ignorar o uso do “um jogador estrangeiro”, já que a publicação se foca na questão da qualidade do jogador e o que pode oferecer à seleção. Podemos pensar que “estrangeiro” foi um lapso, quando queria dizer “naturalizado”. Não é o nosso entendimento, afinal, as pessoas não escolhem as palavras por acaso e se ele realmente quisesse apenas questionar a qualidade do jogador, ser ou não naturalizado não deveria ser mencionado. E isso fica evidente nos comentários. Quando é perguntado sobre quem entraria no lugar de Otávio, ele começa a reconhecer a má fase de alguns atletas da seleção naquela posição. Porém, é quando alguém indaga sobre a volta de João Mário, que ele se revela:

“mas joão mario é portugues e merecia ter estado no euro e não esteve para mim é diferente, não podemos comparar isso” (grifo nosso)

Ou seja, João Mário é português. Otávio não. Se ainda restassem dúvidas, em outra tréplica, o autor “argumenta”:

“eu tambem acho o otavio muito bom jogador atenção, eu vejo as crianças aqui a comentar e não entendem o que é ser português e verem um estrangeiro ser convocado á sua frente para a própria seleção, n o vejo jogar nesta seleção” (grifo nosso)

Afinal, Otávio até é muito bom jogador. O problema é mesmo ser “estrangeiro”. Obviamente, o autor destes comentários fez questão de frisar que não era racista, nem xenófobo. Ele só não quer um naturalizado jogando pela seleção de seu país e acha que isso vai ser prejudicial para as crianças.

Abaixo, deixo-vos com uma seleção de impropérios e xenofobia de pessoas que não são preconceituosas, claro:

“Portugal é dos portugueses de sangue CRL”

“Os convocados do Brasil tão fixes mas gostava de saber da seleção nacional”

“Volta po brasil otavio fds”

“para quê o Otávio mano ? mais vale o Pizzi , roto por roto levamos um roto tuga”

“O que é que está ali a fazer o infiltrado do Otávio??”

“Falta de respeito para um jogador português o Otávio ser selecionado, é que nem vou discutir com vcs…”

“Que escarradela na cara de atletas portuguesas.”

“desde 2000 que não existe uma seleção realmente portuguesa, a última foi no euro 2000, desde ai banalizou-se a entrada de brasileiros medianos que não contam para a selecção brasileira e aceitam em final de carreira jogar por portugal, uma vergonha ver ai o octávio!”

“A “nossa seleção” os tomates!!! Com Pepe e Otávio, nunca há-de ser a minha seleção!!!”

“Com tanta gente para o meio campo que existe precisam destes “portugueses””

“Que puta de vergonha.. Vamos a seleção das nações unidas”

“Palhaça chamem a isso seleção do Brasil, triste continuem a naturalizar toda a gente triste”

Calma, que, infelizmente, ainda não acabou. Fiquem com esta de um cidadão que não é racista, porque até tem duas sobrinhas “de cor”:

“não sou nem nunca fui racista pois 2 sobrinhas de cor mas eu tenho muito orgulho em ser português na selecção de Portugal só mas só deviam jogar jogadores nascidos em Portugal mas cadum tem a sua mentalidade eu tenho orgulho em ser português”

Otávio é apenas a mais nova vítima de manifestações intolerantes movidas pelo sentimento de rejeição a um brasileiro vestindo as cores da seleção portuguesa. Todos os outros quatro jogadores brasileiros naturalizados portugueses que atuaram pela Seleção das Quinas neste Século sofreram ataques e foram repudiados.

Dyego Souza
Dyego Souza. Foto: Wikipédia

Dyego Sousa e os portugueses “bacteriologicamente puros”

O último brasileiro naturalizado português a ser chamado para a seleção portuguesa antes de Otávio havia sido o maranhense Dyego Sousa, em março de 2019. Na altura, o centroavante, que atuava pelo Sporting Braga, foi convocado para partidas das Eliminatórias da Euro 2020. No programa televisivo Tempo Extra, no canal SIC Notícias, o comentarista esportivo Rui Santos argumentou que a defesa do futebol português passava por jogador português “bacteriologiamente puro”: “tem que haver mais cuidados, a Federação deve assumir a sua posição de federação formadora, com cuidados relativamente ao jogador português, bacteriologicamente puro, formado nos clubes”. A afirmação gerou uma queixa à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, bem como à Entidade Reguladora da Comunicação Social, por parte da entidade SOS Racismo.

Em sua defesa já em outro programa do mesmo canal de TV, o comentarista alegou que sua declaração havia sido descontextualizada e lamentou a falta de responsabilidade de uma entidade como a SOS Racismo. Questionado pelo apresentador a explicar o que ele quis dizer, então, com “bacteriologicamente puro”, Santos argumentou que era preciso pegar o contexto da frase, mas admitiu que é “a princípio, contra a seleção portuguesa jogar com naturalizados” porque se afirma um defensor da formação de novos talentos nas categorias de base dos clubes portugueses e ainda sustentou que reconhece exceções, como Deco e Pepe.

Novamente provocado pelo apresentador, que lembrou de jogadores africanos que atuaram pela seleção portuguesa, como Coluna e Eusébio, Santos disse que “o enquadramento dos jogadores de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde é diferente dos jogadores do Brasil”. Ou seja, o comentarista, sem se dar conta, reproduziu a ideia tão difundida pelo Lusotropicalismo do Estado Novo. A conversa durou seis minutos. Mas, neste tempo todo, Santos foi incapaz de explicar porque usou a expressão “bacteriologicamente puro”, limitando-se a repetir sua defesa à formação da base portuguesa e, pior, insinuar que algumas pessoas pegaram no termo de propósito, mas sem dizer quem eram. Em momento algum Rui Santos admitiu que foi, pelo menos, infeliz na escolha das palavras que utilizou.

Deco
Deco atuando pela seleção portuguesa. Foto: Wikipédia

“Os hinos aprendem-se, mas não se sentem”: a rejeição a Deco

Recuemos ainda mais no tempo e falemos do primeiro luso-brasileiro a atuar pela seleção portuguesa neste Século: Deco. Depois de seis anos a atuar em Portugal, o meio-campista se naturalizou em março de 2003, quando já era o grande nome do FC Porto. Sua naturalização gerou enorme discórdia com críticas de muita gente, inclusive de alguns jogadores da seleção.

Um dos primeiros a se manifestar foi Rui Costa, uma das principais referências portuguesas na altura, que considerava que a seleção portuguesa deveria ser apenas para jogadores portugueses.

O craque português Luís Figo, eleito melhor do mundo em 2001, seguiu-se ao colega e foi muito duro, afirmando que “os hinos aprendem-se, mas não se sentem”. Figo ainda afirmou que se ele fosse o capitão, não aceitaria um naturalizado na seleção. As declarações da principal estrela do time fez com que Luiz Felipe Scolari reagisse bem ao seu estilo, reafirmando sua autoridade: “quem manda na seleção sou eu” e quem não concordasse com a convocação de Deco podia simplesmente desistir da seleção. Perguntado a respeito, Figo limitou-se a dizer que o treinador estava certo, que “quem está mal, muda-se”. Quem também se manifestou na época foi o meia Tiago.

A pressão contra a sua chamada fez com que Deco pensasse em desistir da seleção portuguesa. Segundo o próprio jogador, isso só não aconteceu porque Scolari o defendeu, comprometendo-se com ele que iria ficar ao seu lado. O meia, ironicamente, estreou em um amistoso contra a Seleção Brasileira em 29 de março de 2003 e logo no Estádio das Antas, casa do “seu” Porto. Deco saiu do banco já no segundo tempo para marcar, de falta, o gol da vitória portuguesa. E o resto é história, o jogador se consolidou como um dos maiores nomes de todos os tempos da Seleção das Quinas.

Pepe Portugal
Pepe, o primeiro à direita. Foto: Wikipédia

Pepe e a “hipocrisia”

Quando o alagoano Pepe foi convocado por Scolari pela primeira vez, em agosto de 2007, a discussão acerca da naturalização de jogadores voltou à tona. Quando o zagueiro, que em julho havia se transferido do FC Porto para o Real Madrid, houve quem questionasse novamente a opção por um brasileiro para a seleção portuguesa. No site do jornal esportivo Record há um artigo de opinião, que não está assinado, que diz: “não concordo com a chamada de Pepe. Para mim – e fazendo questão de assumir, antecipadamente, que não tenho nada de xenófobo -, o madrileno é um excelente futebolista, mas deveria ser internacional pelo Brasil e não por Portugal” e, mais à frente, reforça “não gosto de imaginar uma Selecção Nacional recheada de lusos-brasileiros ou lusos-qualquer coisa”.

Scolari mais uma vez saiu em defesa da sua opção e argumentou primeiro que havia outros atletas da seleção nascidos fora de Portugal como “Nani em Cabo Verde, Daniel Fernandes no Canadá, Manuel da Costa na França e Bosingwa no Congo” e prosseguiu “todos ficamos muito felizes com o vencedor do triplo salto, Nélson Évora. É português. Nascido onde?”, questionou, afinal o atleta nasceu na Costa do Marfim e tem ascendência cabo-verdiana, o treinador ainda apontou que em outros esportes como “no rugby, no futsal e no basquetebol” também havia naturalizados e finalizou: “Vamos deixar de ser hipócritas!”.

14 anos depois, Pepe segue sendo convocado para a seleção portuguesa e já soma 119 jogos de Quinas ao peito.

Liédson
Liédson atuando pelo Sporting. Foto: Wikipédia

Repúdio do sindicado dos jogadores

Em agosto de 2009, foi a vez do baiano Liedson se ver no olho do furacão. O Levezinho já tinha seis anos de serviços muito bem prestados ao Sporting quando se naturalizou português e foi convocado por Carlos Queiroz. O presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), Joaquim Evangelista, manifestou posição de repúdio por parte da instituição, chegando a afirmar que “hoje o atleta português está em extinção”. O centroavante Pauleta foi um dos atletas que também expressou seu descontentamento na ocasião.

Conclusão

Como vimos, Otávio é apenas a mais nova vítima do repúdio de parte dos portugueses ao fato de jogadores brasileiros naturalizados jogarem pela seleção portuguesa. A polêmica em torno da convocação do meia do FC Porto repete as discórdias que aconteceram em 2002, 2007, 2009 e 2019, quando Deco, Pepe, Liedson e Dyego Sousa estrearam por Portugal. Neste texto, procurou-se compreender as razões para este sentimento, principalmente para a curiosa percepção portuguesa de que suas manifestações preconceituosas, nesses casos xenófobas, não sejam um preconceito. Argumentamos que uso do “Lusotropicalismo” como ferramente ideológica para a construção de uma comunidade imaginada de um Portugal ultramarino, pluricontinental e multirracial por parte do regime fascista, ideia que seguiu sendo difundida mesmo depois da democratização em 1974, está enraizada no imaginário coletivo e é uma explicação para esta visão distorcida, de um país que, na sua história, inaugurou o racismo moderno, que tem manifestações preconceituosas como as que vimos contra Otávio, mas acha que “xenófobos são os outros”.

Referências

ALMEIDA, Pedro. Futebol, racismo e eurocentrismo. os média portugueses na cobertura do Campeonato mundial de Futebol na África do Sul. Revista Crítica de Ciências Sociais, 98, 2012.

FREYRE, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 48ª edição, São Paulo: Global Editora, 2003.

LIMA, Rodrigo Carrapatoso de. Colonialismo, Lusotropicalismo e futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 47, 2021.

MARQUES, João Filipe. Racistas são os outros! Reflexões sobre as origens do mito do «não racismo» dos portugueses. 5-20. Faro, Portugal: Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, 2008.

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Como citar

LEITE JúNIOR, Emanuel. Otávio na seleção portuguesa e a xenofobia dos que não se acham xenófobos. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 59, 2021.
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