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“Ou corta… ou estica”: Raul Plassmann e a trave de procusto

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 8 de abril de 2022

“Eu vestia a camisa do Flamengo

e parecia que eu estava vestindo a roupa do super-homem”

(Raul Plassmann)

A nossa crônica de hoje faz um “bate-bola” entre Raul Plassmann,[1] o lendário goleiro da conquista do mundial interclubes do Flamengo em 1981, e Procusto, um personagem latrocida da mitologia grega cujo conto nos remete à intolerância a tudo que foge à métrica dos padrões da norma.

Raul Plassmann nasceu na cidade paranaense de Antonina, em 27 de setembro de 1944. Foi o arqueiro das duas maiores equipes de dois dos times mais formidáveis e vitoriosos do Brasil: o Cruzeiro[2] de Tostão e Piazza e o Flamengo de Zico e Nunes. Raul Plassmann iniciou sua carreira nas categorias de base do Atlético Paranaense, mas estreou como profissional no rival Coritiba. Foi contratado pelo São Paulo, no entanto ficou por ali pouco tempo, foi emprestado ao Nacional do Uruguai, por lá treinou 2 meses, mas não chegou a estrear. De volta ao Brasil, o tricolor paulista vendeu o goleiro ao Cruzeiro no qual atuou de 1965 a 1978. Em 1978 foi para o Flamengo onde encerrou sua carreira em 1983.

Raul Plassmann
Raul Plassmann ganhou busto em sua homenagem na Gávea. Foto: Marcelo Cortes / CRF / divulgação @Flamengo

Procusto é uma figura mítica, um salteador que vivia às margens de uma floresta, onde costumava atrair hóspedes para pernoitar em sua pousada. Ali, ele tinha uma cama onde, ao anoitecer, prendia suas vítimas e as torturava. O leito de Procusto era padrão métrico, na busca do que ele considerava perfeito em termos de tamanho. Desse modo, Procusto prendia suas vítimas à cama e os que eram pequenos, Procusto os submetia a uma engrenagem de roldanas na qual os esticava até ficarem do tamanho da cama. Por outro lado, os que eram demasiado grandes, Procusto cortava as extremidades de seus corpos. O tamanho da cama era a “norma” métrica utilizada por Procusto que não tolerava as vítimas fora dos seus padrões. Após esticar a falta ou cortar os excessos, Procusto matava suas presas.

Assim era também o goleiro Raul Plassmann, era intolerante com todos os adversários que se aproximavam da baliza do Flamengo com a bola. A “trave de Raul Procusto” era a métrica que balizava as ações do arqueiro abaixo da meta. Quando os oponentes de perto chutavam, o goleiro diminuía o ângulo e “cortava” toda e qualquer possibilidade de a bola transpor sua baliza; quando de longe tentavam, o goleiro se esticava todo para não permitir que a bola morresse no fundo das redes do Flamengo. Raul era perfeito e métrico nos seus gestos de defesa e um a um aniquilava seus oponentes.

Raul protagonizou um feito histórico para o futebol brasileiro em 1965, quando estreou pelo Cruzeiro num clássico contra o Galo mineiro. O citado goleiro acreditava que era a terceira opção do técnico Ayrton Moreira e numa tarde de domingo, quando estava a caminho do cinema para uma sessão matinê foi abordado por dois jogadores do Cruzeiro, que estavam à sua procura, pois os dois goleiros principais do elenco (e mais quatro jogadores de linha) estavam com indisposição intestinal naquela tarde. Raul então sobe no carro dos colegas e vai até o Mineirão. Quando entra no vestiário, descobre que ele seria somente reserva do terceiro goleiro e isso o aborreceu a ponto de sugerir ao técnico que o escalasse para a partida, já que ele tinha deixado de ir ao cinema para vir jogar pelo clube. O técnico meio contrariado aceita e lança Raul como titular para o jogo. No entanto, surge outro problema, na época os goleiros costumavam jogar com camisas escuras, e a camisa do goleiro titular não cabia em Raul, visto que era quase 10 centímetros mais alto. Foi quando Raul toma o moletom amarelo do lateral esquerdo Néco e cola um esparadrapo nas costas para numerar sua camisa, indo assim para o jogo. Quando entrou em campo, o goleiro virou chacota de ambas as torcidas pela cor chamativa de sua camisa. Porém, ela lhe deu sorte, e Raul passou a jogar de amarelo com bastante frequência desde então. Dessa forma, o que inicialmente foi motivo de deboche, passou a ser visto como um talismã pelo goleiro.

Pelo Flamengo Raul Plassmann jogou de amarelo, o jogo que ele mesmo considerou o mais difícil de sua carreira, a final brasileiro de 1982 contra o Grêmio num Olímpico lotado. “Raul Procusto” fechou a meta naquela tarde, e depois de dois empates consecutivos o Flamengo então batia o tricolor gaúcho por 1 x 0, com gol de Nunes após passe magistral de Zico. Raul jogou de amarelo também na final do mundial em 1981, porém, outra vez a camisa amarela foi motivo de “novela”. A delegação do Flamengo fez uma escala em Los Angeles (EUA), antes de pousar em Tóquio (Japão) para o jogo contra o Liverpool. Com a intenção de se adaptar melhor ao fuso horário o time passa uns dias nos EUA. No entanto, a camisa de Raul foi esquecida no Rio de Janeiro, assim, membros da delegação foram comprar uma camisa amarela para Raul jogar. Eles estamparam o número “1” nela e colocaram o nome de Raul nas costas[3]. No entanto, a camisa que Raul jogou na final do mundial não tinha o escudo do mengão estampado em seu peito.

Procusto teve seu fim no dia em que o destino o colocou frente a frente com Teseu. Teseu era um grande herói e justiceiro grego que na sua trajetória de vida vitimizou vários tiranos e salteadores. Quando Teseu viajava a Atenas parou na pousada de Procusto, porém, desta vez o latrocida não teve a mesma sorte que das outras vezes. Numa violenta luta para fugir da armadilha de Procusto, Teseu o pega e o joga violentamente sobre seu próprio leito no qual o mata, esticando as roldanas de sua cama. Procusto morre de sua própria “máquina de matar”.

Teseu e Procrusto
Teseu e Procrusto. Fonte: Wikipédia

Em 1978, Claudio Coutinho era técnico da seleção brasileira e vinha utilizando Raul nos jogos da seleção. No entanto, às vésperas de ir à Alemanha para um amistoso, Coutinho chama Raul e diz a ele que como jogaria somente uma partida não o levaria para uma viagem tão longa, mas que contava com ele para a copa daquele ano. Porém, no dia da convocação oficial o nome de Raul não apareceu entre os relacionados para a copa, fato que o decepcionou muito, afinal, Cláudio Coutinho tinha lhe dado a palavra. Aborrecido com o caso, Raul aos 32 anos de vida decide se aposentar. De volta ao Paraná, num sábado à noite, o goleiro é surpreendido com uma ligação do então presidente do Flamengo, Cléber Leite, que anunciava a compra de seu passe junto ao Cruzeiro. Raul de pronto não aceitou o convite, já que na época quem também treinava o Flamengo era o próprio Claudio Coutinho. Cléber então faz a seguinte proposta a Raul: “Estamos indo para a Europa jogar um torneio internacional, viaje com a gente. Se você gostar, você fica; se não gostar, você pode sair”. Caro/a leitor/a, o resto da história vocês já conhecem. Com a camisa do Flamengo, perante a meta, Raul Plassmann conquistou vários títulos importantes: o Mundial (1981), a Libertadores (1981), o Brasileiro (1980, 1982 e 1983) e o Carioca (1978, 1979-Especial, 1979 e 1981). Os jogadores do Flamengo apelidaram Raul de “VELHO”, pois ele supostamente saiu da condição de aposentado para jogar ainda 5 anos pelo Fla.

Em 1982, Raul Plassmann outra vez é cortado da seleção que disputaria a copa. Em decorrência de uma contusão no dedo mínimo e de um suposto “bate-boca” com o então técnico da seleção canarinho, Telê Santana, este não convocou Raul para disputar a Copa do Mundo, mesmo sendo ele um goleiro utilizado com frequência durante o período em que a antecedeu.  

Parece que o Teseu de “Raul Procusto” foram os técnicos da seleção brasileira. Raul é vitimado por dois cortes do seu sonho de disputar uma Copa do Mundo. Constantemente os jornalistas perguntam a Raul Plassmann se ele guarda alguma mágoa disso. Prontamente Raul sempre responde a mesma coisa: “Quem joga no Flamengo não precisa se importar em jogar na seleção brasileira”.

Notas

[1] Raul tem um livro que conta sua biografia, trata-se da obra intitulada “Raul Plassmann – Histórias de um Goleiro” que tem como autor o jornalista Renato Nogueira.

[2] O time de 1966 do Cruzeiro entrou para a história do futebol brasileiro pela conquista da Taça Brasil daquele ano vencendo o Santos de Pelé. A primeira partida foi um dos jogos mais lendários do Mineirão: Cruzeiro 6 x 2 Santos. O placar agregado das duas partidas foi de “9 x 4”.

[3] A final do mundial de clubes foi a primeira vez que o Flamengo jogou com camisas com os nomes dos jogadores estampado nas costas.

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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. “Ou corta… ou estica”: Raul Plassmann e a trave de procusto. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 11, 2022.
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