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Palmeiras 3×0 São Paulo: o tabu e o personagem

Gustavo Dal'Bó Pelegrini 30 de agosto de 2021

A quebra de um tabu é sempre um momento especial para o torcedor. Ela representa o fim de uma escrita que a equipe parece que está fadada a encarar, uma derrota quase certa. A vitória do último dia 17 é a lavada de alma que o torcedor sempre deseja, o momento que parece que nunca ia chegar. Mas a beleza do torcer é essa: o momento sempre chega, e tabu só existe para ser quebrado.

O palmeirense não pode reclamar do desempenho frente aos seus maiores rivais ultimamente. Contra o Corinthians somam-se três grandes resultados desde o ano passado: a conquista do Paulistão em 2020, a vitória na semifinal na casa deles no Paulistão em 2021 e o inesquecível 4×0 de janeiro deste ano no Allianz Parque. Contra o Santos, então, conquistamos o maior título do time no século, a Libertadores 2020 em pleno Maracanã. Impossível qualquer reclamação.

Contra o São Paulo, porém, a história era outra. Apesar de termos dominado o confronto nos últimos anos, principalmente após a construção do Allianz Parque, desde 2019 a equipe do Morumbi voltava a ser uma pedra em nosso sapato. Em 2019 nos eliminaram no Paulistão. Em 2020, venceram pela primeira vez no Allianz, onde tinham se acostumado a sofrer goleadas e gols marcantes, como os de Dudu e Robinho de cobertura. Em 2021, título do Paulistão perdido para os são-paulinos. Nenhuma vitória desde 2019 e sete jogos de invencibilidade do time do Morumbi. Junta-se a tudo isso o fato de Abel Ferreira nunca ter vencido Crespo (ou mesmo o São Paulo).

Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Agora chegava a Libertadores, e mais um tabu posto a prova. Em oito jogos na história da competição, eram seis vitórias são-paulinas e dois empates, com três eliminações palmeirenses em fases oitavas de final.  Escrita terrível, e ainda que o palmeirense estivesse confiante, o nervosismo de saber a importância desse duelo era maior que qualquer sentimento.

Os jogos aconteceram. Primeiro, o empate em 1×1 no Morumbi. Grande resultado, conseguindo a igualdade após sofrer o primeiro tento, garantindo a vantagem de empatar sem gols na volta, em nossa casa. No segundo jogo, a consagração, a quebra do tabu, a inapelável vitória por 3×0 no melhor jogo do Palmeiras na temporada. A grande vitória contra o rival que faltava.

Não faltam destaques para serem celebrados nessas partidas. Dudu e seus dois grandes jogos e primeiro gol desde o retorno, Patrick de Paula e sua predestinação em fazer gols importantes contra rivais, Danilo e sua onipresença em campo destilando habilidade, Gomez e sua força no comando de uma defesa extremamente sólida… Qualquer um deles poderia ser eleito o grande nome desse duelo. Eu, porém, escolho exaltar um outro, que praticamente não atuou no 3×0, mas que é um dos grandes personagens de nossa história recente: Weverton.

O goleiro palmeirense nem sempre foi unanimidade do torcedor. Após chegar em 2018 para disputar posição com os já consagrados Jaílson e Fernando Prass, Weverton lutou muito para superar a desconfiança e finalmente, em 2020 com a tríplice coroa e atuações gigantes, alçar o posto de ídolo da torcida. O altíssimo nível apresentado desde então faz com que o camisa 21 seja apontado por praticamente todos os brasileiros como o melhor goleiro em atividade no país.

E Weverton mostrou seu tamanho no confronto contra o São Paulo. No primeiro jogo, fez importantíssimas defesas e foi considerado o melhor jogador da partida. No segundo, não precisou de nenhuma. Sua presença, gigante embaixo das traves, foi o suficiente para que os jogadores são-paulinos não conseguissem nem acertar o gol.

O goleiro palmeirense tem um estilo comedido, seguro, nada espalhafatoso. Dificilmente faz grandes milagres, pois tem como uma de suas grandes características seu excelente posicionamento. Faz as defesas parecerem até fáceis. É um especialista na saída do gol pelo alto, segurando firme as bolas que tentam rondar o espaço aéreo palmeirense.

Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

O mais importante de tudo, porém, é que essa segurança de Weverton bota medo no atacante. O adversário sabe que não é qualquer chute, qualquer finalização que irá transpor o arqueiro. E até quando toma gol isso fica provado. Antes de Luan abrir o placar para o São Paulo no primeiro jogo, duas finalizações à queima-roupa de Rodrigo Nestor explodiram no goleiro palmeirense, como quem dissesse que precisaria de muito para ser vazado.

A volta no Allianz provou a teoria. Quando Pablo teve a chance, sabendo que precisaria de um chute perfeito para vencer o goleiro, chutou-a para o alto. Mesma coisa no chute de Nestor, logo após o gol de Veiga, no qual talvez fosse suficiente apenas acertar o gol, mas acabou tirando muito. Finalizações de fora da área? Sempre para fora, claro, pois um chute que não fosse rente a trave com certeza seria defendido. Bolas pelo alto foram poucas, e foram a chance de o arqueiro mostrar que seria preciso muito mais do que isso para o vencer, segurando-as com firmeza.

A grandeza de Weverton fica ainda maior quando comparada ao goleiro adversário, Tiago Volpi. Cobrança de falta de Patrick de Paula no primeiro jogo, sem barreira a pedido do goleiro? É gol! Chute de Raphael Veiga, de direita, no “canto do goleiro”? É gol também! Finalização de fora da área de Patrick de Paula com desvio no meio do caminho? Claro que é gol! Chute de Dudu no ângulo? Mais um pra conta (mas aí, milagrosamente, sem culpa de Volpi).

Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Existem goleiros, no jargão do futebol, que são “chama-gol”. Podem até ser bons, mas parecem que não botam medo no atacante, que sempre acerta grandes finalizações quando os enfrenta. Weverton é o caso contrário, o “afasta-gol”. Porque, para ser goleiro, não basta ser bom, precisa intimidar, fazer com que o adversário saiba que apenas o melhor dos chutes poderá o vencer. E essa fama, totalmente justificada, faz também com que a torcida absolva o goleiro em possíveis e naturais falhas, ainda que raras, nunca atingindo seu prestígio.

Weverton é a personificação da “defesa que ninguém passa”. Como monstro de jogador que é, decidiu o Choque-Rei, e tal como Pablo, mandou para longe o tabu!

Seguimos, mais vivos do que nunca, na busca do tri!

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Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Professor de Educação Física e mestrando na área de Educação Física e Sociedade. E um pouco palmeirense. @camisa012

Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. Palmeiras 3×0 São Paulo: o tabu e o personagem. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 57, 2021.
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