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Para que servem os times “pequenos”?

Glauco José Costa Souza 9 de abril de 2023

“Sensação do Campeonato Paulista, o Água Santa está garantido na Série D do Brasileirão e na Copa do Brasil de 2024. Com as vagas em mãos, o clube de Diadema optou por interromper as atividades do elenco profissional no segundo semestre desta temporada. Assim, serão no mínimo oito meses sem jogar entre abril, numa possível final do Paulistão, e janeiro do ano que vem”.[1]

O ano de 2023 começou para o futebol brasileiro masculino de alto rendimento com as equipes profissionais disputando seus campeonatos estaduais. No Rio de Janeiro e em São Paulo, a fase final das competições contou com a presença de alguns clubes considerados “zebras” e, no presente texto, damos um enfoque maior ao Água Santa e ao Volta Redonda, semifinalistas nos Campeonato Carioca e Campeonato Paulista.

O Esporte Clube Água Santa é uma equipe da cidade de Diadema, mesorregião metropolitana do estado de São Paulo, e foi fundado em 27 de outubro de 1981 “por imigrantes nortistas, nordestinos e mineiros, que viam no clube a única possibilidade de lazer”.[2] A versão histórica de criação da instituição presente em seu site oficial já mostra, por si só, relação com o surto migratório Nordeste-Sudeste fruto da rápida industrialização paulista a partir dos anos 1930,[3] bem como associa o nascimento da entidade a grupos de menor poder aquisitivo.

Água Santa
Gustavo Goméz, do Palmeiras, disputa bola com Bruno Mezenga, do Água Santa na primeira partida da final do Campeonato Paulista. Os dois gols da vitória do Água Santa foram marcados por Mezenga. Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon.

O Volta Redonda Futebol Clube surgiu nos anos 1970 como parte do processo de reforço identitário da cidade homônima do Rio de Janeiro, famosa por ser o local de instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) durante a Era Vargas (1930 – 1945). Desde seu princípio, a agremiação contou com o apoio institucional de outras entidades do gênero, pois o “então presidente da Liga de Desportos de Volta Redonda, Getúlio Albuquerque Guimarães, iniciou então o projeto, juntamente com o presidente do Flamenguinho de Volta Redonda, Guanayr de Souza Horst, para criar um clube de futebol para representar a cidade no novo Campeonato Estadual do Rio de Janeiro”.[4] Ademais, o próprio poder público se envolveu para ajudar no desenvolvimento do projeto que necessitava de um campo de jogo adequado e, por isso, “Nessa época, o Estádio Raulino de Oliveira pertencia à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e era administrado, em regime de comodato, pelo Guarani Futebol Clube, tradicional time amador da cidade. A prefeitura, a CSN e a Confederação Brasileira de Desportos (atual CBF), fizeram um acordo para a reforma do estádio, a fim de que abrigasse o novo time”.[5]

Ambas as equipes possuem histórias ligadas ao desenvolvimento industrial no Brasil, o qual pode ser visto como parte do processo de urbanização de partes do país, algo essencial para a difusão do futebol. Todavia, estas equipes ficaram condicionadas dentro da lógica do futebol masculino de alto rendimento como clubes pequenos, cuja existência, na maior parte das vezes, é ignorada e, portanto, sem utilidade. Dessa forma, cabe-nos perguntar: para que servem os clubes “pequenos”?

Campeonato Carioca
Lance da semifinal do Campeonato Carioca entre Fluminense e Volta Redonda. Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC.

Se partíssemos da perspectiva de que o futebol só tem a relevância atual por causa dos grandes times, dos super astros e dos jogos marcantes em estádios lotados, certamente nossa resposta à pergunta “para que servem os clubes ‘pequenos’?”, seria “para fornecer jogadores aos clubes maiores”. A perspectiva de que em torno de um centro futebolístico orbitam aspectos para engrandecê-lo é antiga e existente no Brasil desde os primeiros chutes,[6] não podendo, aliás, ser vista como algo natural, mas fruto dos processos de construção excludentes que caracterizaram a Primeira República (1889 – 1930).[7] Esta perspectiva está tão enraizada na sociedade brasileira que ainda se faz presente na atualidade pela pouca relevância atribuída aos clubes “pequenos” ou mesmo em vinculando-os como sujeitos ativos apenas quando podem ser associados às equipes consideradas “maiores”.

A visão hierarquizada dos times futebolísticos traz consigo o caráter excludente por meio do qual clubes com menos títulos “de expressão” acabam sendo esquecidos, ignorados e/ou apenas são lembrados somente quando conseguem obter sucessos dentro de campo semelhantes às das grandes equipes. Contudo, a realidade é bem mais complexa do que isso e, principalmente, é preciso considerar estas equipes dentro das suas possibilidades e percebê-las enquanto agremiações ativas e independentes dos chamados times grandes.

Historicamente, muitos dos times ditos pequenos foram responsáveis pelo desenvolvimento cotidiano do futebol em bairros que os clubes grandes não se faziam presentes com frequência. Foi por meio deles, aliás, que as relações de identidade futebolísticas foram construídas e consolidadas, motivo forte o bastante para não associarmos os times pequenos como hierarquicamente inferiores àqueles chamados grandes, mas igualmente importantes para a história do esporte bretão no Brasil.


[1] Disponível em https://ge.globo.com/sp/futebol/times/agua-santa/noticia/2023/03/18/serie-d-em-2024-e-estadio-por-que-agua-santa-sensacao-do-paulista-vai-ficar-oito-meses-sem-jogar.ghtml. Acesso em 03 abr.2023.

[2] Disponível em https://www.ecaguasanta.com/historia. Acesso em 19 mar. 2022.

[3] BAENINGER, Rosana. Fases e faces da migração em São Paulo / Rosana Baeninger. – Campinas: Núcleo de Estudos de População-Nepo/Unicamp, 2012.

[4]  Disponível em https://voltaco.com.br/nossa-historia/. Acesso em 19 mar. 2023.

[5] Disponível em https://voltaco.com.br/nossa-historia/. Acesso em 19 mar. 2023.

[6] O Imparcial, 22 mar.1919, p. 04.

[7] FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano: O tempo do liberalismo excludente. Da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

 

Este texto foi originalmente publicado no Blog Comunicação, Esporte e Cultura.

 
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Glauco Costa

Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), também possui graduação em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2015). Tem experiência nas áreas de pesquisas sobre História Econômica, História Social e História Cultural, bem como na produção de textos jornalísticos.

Como citar

SOUZA, Glauco José Costa. Para que servem os times “pequenos”?. Ludopédio, São Paulo, v. 166, n. 9, 2023.
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