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Paralimpíadas de Tóquio e a caminhada por um jornalismo inclusivo

Crisneive Silveira 20 de setembro de 2021

Lembrar da alegria de Gabrielzinho, o Gabriel Geraldo, ao dançar no pódio. Notar a determinação na fala de Carol Santiago após outra prova na piscina. Voar na pista com Petrúcio Ferreira, tirar o peso da saudade no arremesso de Beth Gomes, solidarizar-se com Thiago Paulino pela medalha arrancada… Realizadas entre 24 de agosto e 5 de setembro, as Paralimpíadas de Tóquio reforçaram o prazer de torcer, quem viu também se envolveu. É como se cada brasileiro estivesse junto aos 434 integrantes da delegação. Vai além de se sentir representado, teve sabor de pertencimento. Aliado à construção dessas novas memórias, o Jornalismo.

 
Gabriel Geraldo
Gabriel Geraldo, atleta da seleção paralímpica de natação. Foto: reprodução redes sociais/CPB

O Brasil igualou os 72 pódios da Rio 2016 e superou o recorde de 21 ouros alcançado em Londres 2012. Desta vez, 22 no Japão. Além de 20 pratas, 30 bronzes e vários recordes quebrados por nossos desportistas. Até chegamos à 100ª dourada nos Jogos… Tudo apesar do orçamento reduzido, condições limitadas de treinamento e pandemia. Por isso lamento que, de certa forma, os louros do desempenho histórico da delegação verde e amarela tenham sido abafados por um escândalo sanitário no futebol, naquele Brasil x Argentina, e pelas manifestações antidemocráticas no 7 de setembro fajuto e tenebroso.

Não questiono o valor das outras notícias. É só o desabafo de quem mora num país sem trégua. Os Jogos Paralímpicos, assim como as Olimpíadas, eram a nossa bandeira de alívio nesse furacão pandêmico, o resgate dos sucessivos tombos. É que o Brasil vive em constante tropeço. Mal pudemos aproveitar o deslumbramento de tantas vitórias paralímpicas no alto rendimento. Aqueles atletas foram nosso agito bom no peito. A eles, devemos incontáveis dias de vibração, de ansiedade por outras medalhas, de celebração na despedida, bem como estímulo aos iniciantes e consolo aos que não alcançaram as metas.

Assistir ao evento elevou a experiência do torcer ao aprender. O canal de diálogo foi massivamente ampliado pela transmissão online das disputas mundo afora, além das emissoras de tv nacionais fechadas e abertas. Apesar da discrepância na cobertura das Olimpíadas, bem superior, o espaço gerou boa colheita. Verônica Hipólito e Clodoaldo Silva, destaques nos comentários da programação do SporTV, deram aula. Ela, do atletismo, e ele, ex-nadador. Os medalhistas paralímpicos envolveram espontaneamente o telespectador numa bolha de carisma, didática e conhecimento.

Estimativa do último censo realizado pelo IBGE aponta: mais de 45,6 milhões de brasileiros, ou 23,9%, “vivem a experiência de alguma deficiência”, definição do Minimanual do Jornalismo Humanizado, da ONG Think Olga. Daí a importância de aproximar o grande público de pautas como acessibilidade, explicar sobre capacitismo e mostrar que pessoa especial é aquela para a qual você manda uma boa pizza. A audiência conseguiu aprender o que é T11, classe baixa, classe alta, entre outros, conheceu melhor a personalidade dos atletas e ouviu histórias de bastidores. A dupla é uma enciclopédia ambulante do Movimento Paralímpico. A sintonia com os demais profissionais da casa fechou o combo de estímulo para grudar na tela.

Os narradores Natália Nara, Sérgio Arenillas, Márcio Meneghini e Luiz Prota fizeram audiodescrição nas transmissões. Além da audiência também ser de PCD, os esportes adaptados e o goalball, exclusivo para cegos, têm especificidades pouco conhecidas do grande público. Com o esforço da equipe em aprender e informar da maneira mais palatável, era comum esclarecerem as próprias dúvidas ao vivo, acionando os convidados. E isso não é demérito. Mostra o quanto a imprensa, como principal meio entre a notícia e a sociedade, deve aprender para alcançar e inserir essas pessoas. Um agir simbólico, especialmente vindo da maior emissora esportiva do país.

+ Uma saudade olímpica
+ Jogos Paralímpicos: história e memória
+ Deficiência, esporte e gênero: relações invisíveis

Para nós, jornalistas e demais profissionais, será difícil produzir sem viés capacitista ou sair do modo “falar em superação” se não houver prática. Portanto, é indispensável pautar e procurar informar adequadamente sobre tais questões. É óbvio mas, na correria das redações, até o básico parece difícil às vezes. Fotos com descrição para cegos, legendas em vídeos, etc são detalhes fundamentais na democratização do conteúdo. A caminhada é longa. Contudo, as Paralimpíadas 2020 deixaram esse legado valioso ao Jornalismo. Afinal, representatividade no teor e na forma como ele é passado é um modo de inclusão. Avanço conquistado na incansável luta pela visibilidade das pessoas com deficiência.

Jogos Paralímpicos
Fonte: Wikipédia

O Brasil está entre os dez melhores do mundo há quatro ciclos paralímpicos. A delegação esteve em 20 das 22 modalidades e a 7ª posição no quadro geral era esperada. Mas a campanha traz outro ganho relevante, impossível de ser mensurado. Quando um evento dessa dimensão, com quase cinco mil atletas cegos, amputados e deficientes intelectuais alcança multidões através da tv e da internet, o esporte transpõe o aspecto do alto rendimento e costura causas maiores. Pela saúde, pelos corpos, pelos direitos, pela autonomia, pela dignidade dessa gente, cidadã como quaisquer outras.

A dificuldade em sair de casa, os olhares preconceituosos, o acesso à educação… O paradesporto jogou nova luz sobre as inúmeras omissões enfrentadas por PCD. Ampliar e melhorar a escuta desses brasileiros deve ser meta constante, não só no esporte. Instrumento fundamental nesse processo, o desafio da Comunicação é estender a visibilidade aliando informação acessível e de qualidade. Dessa forma, contribuir no esclarecimento da sociedade e na integração quem tem sido excluído. Um passo nessa direção foi dado nos Jogos de Tóquio. Celebremos isso.

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Crisneive Silveira

Gosto do futebol jogado e do futebol vivido. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. Paralimpíadas de Tóquio e a caminhada por um jornalismo inclusivo. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 31, 2021.
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