165.17

Pelé: a construção do mito (1958-1962) [2a. e última parte]

Denaldo Alchorne de Souza 17 de março de 2023

[Continuação …]

Se um jogador de futebol era considerado um mito, isso se devia à existência de características que correspondiam a algum tipo de anseio pré-existente na sociedade brasileira. Em relação a Pelé, uma característica que ficava em evidência nos periódicos dos primeiros meses após a Copa da Suécia (1958) era a sua predestinação. Afinal, aquele que é elevado à condição de mito sempre é considerado um predestinado. Em Pelé, esta característica era ainda mais acintosa: afinal ele possuía apenas 17 anos. Era um adolescente. Um adolescente com cara de criança. Esta prematuridade assombrava a todos, no Brasil ou no exterior [ver a primeira parte do artigo].

Outra característica sempre atribuída ao mito de Pelé era a da sua excepcionalidade. Afinal, o mito era aquele que realiza proezas extraordinárias, o que um indivíduo comum seria incapaz de fazer. Ainda na Copa do Mundo de 1958, os torcedores não somente admiraram a jovialidade de Pelé, mas também as suas jogadas sensacionais, os dribles, os chutes nas traves adversárias e, sobretudo, o gol salvador contra Gales, os três gols contra os franceses, o dramático gol no último segundo de partida contra os suecos e, principalmente, o excepcional terceiro gol dos brasileiros na final. Segundo o Jornal do Brasil, Pelé fez um “gol-joia”. Ele estava “parado, esgrimiu como um relâmpago com o zagueiro sueco, deixou-o encabulado e como um mágico que no palco faz um número de sensação enfiou a bola nas redes.[1]

Muitos comentaristas consideraram, este, um dos mais belos tentos da história das Copas do Mundo. Fazer gols neste estilo foi uma constante em sua carreira. Gols de todo o tipo: de falta, de pé direito, de pé esquerdo, de cabeça, de bicicleta, com dribles, de “bate-pronto”. No período posterior ao campeonato mundial, alguns se destacaram.

Um foi contra o Juventus, no estádio da rua Javari, no dia 2 de agosto de 1959. Pelé deu três “chapéus” seguidos nos zagueiros Lima, Pando e Julinho sem deixar a bola cair no gramado e, depois, ainda deu mais um ”chapéu” no goleiro Mão de Onça antes de chutar para o gol.

Outro foi na partida realizada em 6 de março de 1961, no Rio de Janeiro, contra o Fluminense. Pelé driblou sete jogadores – Edmilson, Valdo, Clóvis, Altair, Pinheiro, Jair Marinho e o goleiro Castilho – marcando o que para muitos jornalistas foi o mais belo gol já feito no estádio do Maracanã. Para o tricolor Nelson Rodrigues, era um gol perfeito, irretocável. Até a torcida do Fluminense aplaudiu.[2] Nos dias seguintes o jornal paulista O Esporte resolveu premiar Pelé com uma placa comemorativa em homenagem ao belo gol.

Neste período, os gols antológicos foram muitos. Houve o tento contra o Internazionale de Milão, em 1959, feito após driblar os dois zagueiros; o contra o Standart da Bélgica, em 1960, feito após driblar na velocidade três zagueiros e encobrir o goleiro; e tantos outros.

Era o jogador que fazia os gols mais belos e em maior quantidade, chutava com eficiência com qualquer um dos pés, cabeceava com perfeição, driblava espetacularmente bem. Pelé era um jogador completo, um jogador excepcional.

Identidade popular e carisma

Pelé não era considerado um mito pelos trabalhadores somente por ser predestinado e excepcional. Era preciso ter algo mais. Mário Filho seguia outra estratégia para explicar as razões de Pelé ser ídolo dos torcedores. Numa crônica publicada no Jornal dos Sports, no início de 1959, o jornalista buscava responder a seguinte pergunta: por que Pelé e Garrincha eram considerados os heróis do último campeonato mundial e de todo o futebol brasileiro, juntamente com os craques do passado Friedenreich e Leônidas da Silva? Para responder, ele retornou à final do campeonato sul-americano de 1919, quando se discutia quem era o melhor craque Friedenreich ou Neco. Segundo Mário Filho, para ser ídolo não era preciso ser o melhor jogador. “Qual era o melhor jogador: Friedenreich ou Neco? Bastava olhar para Neco que até foi chamado de carroceiro: não tinha jeito de ídolo”. Neco era feio, jogava mordendo um dedo, fazendo careta, chorando, “reclamando, indo para cima do juiz, levantando os braços e mostrando a cara contraída, os olhos apertados, a boca que parecia tremer”. Porém, sem Neco, Friedenreich não teria sido o ídolo que foi. “Quem trabalhou o goal da vitória do Brasil contra o Uruguai, em 19, quem deu a Friedenreich depois de correr meio campo e numa hora em que ninguém mais se aguentava em pé, foi Neco”. Deu um passe para trás e “Friedenreich apenas tocou na bola, que rolou, mansa, para o fundo das redes”. Apesar de Neco ter sido o melhor jogador, quando a multidão entrou em campo, foi para carregar Friedenreich em triunfo. “Pode-se dizer que em Friedenreich se homenageava todo o scratch brasileiro. Realmente era um pouco assim, mas também em Friedenreich se esquecia os outros”. Não se impõe um ídolo: a escolha se faz espontaneamente. “De certo modo o ídolo já está escolhido inconscientemente. É preciso o acontecimento, o motivo da gratidão dos que amam o foot-ball para projetá-lo e colocá-lo num pedestal”. Daí a escolha popular de “um Friedenreich, o mulato de olhos verdes, de Leônidas, o preto de nariz arrebitado, de Garrincha, com as pernas tortas e de Pelé, o crack-menino”.[3]

Arthur Friedenreich
Arthur Friedenreich. Fonte: Wikipédia

Se Pelé e Garrincha eram mitos populares, era porque os mesmos populares o escolheram como tal.

Só posso concordar com Mário Filho. Se um jogador se tornou um mito nacional, um símbolo de sua nação, isso se deveu a algo mais do que à sua habilidade excepcional, à sua condição atlética ou ao imenso número de gols feitos. Se Pelé e Garrincha se tornaram os símbolos maiores da seleção campeã de 1958 e, nos anos seguintes, do futebol e da nação brasileira, isso se deveu a razões muito mais profundas do que se pode imaginar. No caso de Pelé tais razões foram obscurecidas pela exuberância dos dados estatísticos registrados insistentemente pela imprensa esportiva. Assim, a pergunta que se faz nesse momento é por que Pelé foi escolhido pelos torcedores? Por que ele é ainda hoje um dos principais mitos da nação brasileira? Se não é somente por causa da sua predestinação e excepcionalidade; então por que Pelé se constituiu num mito popular indiscutível?

A interpretação que procuro seguir nas próximas linhas é que, se Pelé se tornou num dos maiores mitos populares, é porque ele foi carismático. Entendo como pessoa carismática, não como geralmente é tratado, como um poder hipnótico que certas personalidades possuem, lhes tornando capazes de provocar paixões e dominar mentes. Seguiremos aqui as concepções de Edward Shils, para quem o carismático é uma pessoa que está bem próxima ao “centro” das coisas, que tem contato direto com uma camada considerada vital à sociedade em que vive. Tais “centros” são pontos de uma sociedade onde acontecem eventos e atividades importantes que influenciam a vida de seus membros de uma maneira fundamental. O carisma pode aparecer em qualquer parte da vida social, desde que essa área esteja em evidência e pareça indispensável para a sociedade.

Segundo Shils, devido o carismático está próximo do “centro” das coisas, ele invariavelmente dá ordem e sentido a elas. O carismático é justamente aquele que cria ordem. A razão das pessoas buscarem ordem é complexa. Não é simplesmente a necessidade de estar num meio ambiente controlável. É algo que está mais próximo da necessidade de um mapa cognitivo racionalmente inteligível, mas obviamente é mais do que isso. Existe uma necessidade moral de que as coisas se encaixem num padrão que seja ao mesmo tempo previsível e justo.[4]

No caso do Brasil, o futebol se constitui num “centro” importante não somente pelo esporte em si mesmo, mas porque carrega uma infinidade de representações sobre o Brasil e o povo brasileiro. Se Pelé era carismático era porque o seu mito possibilitava ao simples trabalhador uma ordem ao mundo em que vivia, lhe fornecendo coerência, continuidade e justiça. Ele dava coerência às concepções de Brasil e de povo brasileiro que estavam se desenvolvendo na época.

Durante o Primeiro Governo Vargas (1930-1945) ocorreu um redirecionamento dos discursos raciais, tendo como marco e símbolo a obra de Gilberto Freyre. O objetivo central de seu livro Casa-Grande e Senzala era demonstrar os elementos característicos das três raças – o branco português, o negro africano e o nativo indígena – que pretensamente formavam os brasileiros, encontrando um elo que colocaria no mesmo patamar estes três componentes formadores da nacionalidade. O processo de miscigenação brasileiro produziu a visão de que as características culturais extremas eram uma ameaça ao projeto nacional, e que a junção destes elementos propiciaria o surgimento de um tipo nacional mais original, capaz de amenizar os conflitos na sociedade brasileira.

Já, na década de 1950, produziu-se um aprofundamento de tais questões. A intensificação da industrialização no Brasil evidenciou as desigualdades entre brancos e negros. Segundo alguns teóricos do período, como Florestan Fernandes, a discriminação racial no Brasil era temporária, pois à medida que o elemento negro fosse inserido no processo de industrialização, ele seria plenamente incorporado à sociedade brasileira, levando o preconceito racial a sua erradicação, sendo substituído por relações classistas. A noção de classe era que organizaria a sociedade, e não a que se baseava nos modos tradicionais de manutenção de poder. Portanto, o fim do preconceito racial era apenas uma questão de tempo fixado pelo desenvolvimento das relações de trabalho capitalistas.[5]

As interpretações de Gilberto Freyre e de Florestan Fernandes, mais do que acadêmicas, eram visões de “Brasil” e de “povo brasileiro” hegemônicas; e, portanto, tinham atingido o senso comum da sociedade daquela época. As ideias de que o Brasil era uma democracia racial, sem preconceitos de raça, e de que era possível, num país industrializado, a ascensão econômica e social dos trabalhadores e, especificamente, dos negros eram compartilhadas por amplos segmentos da sociedade brasileira.

Faltava, porém, uma coisa para que tal hegemonia se consolidasse: uma prova de coerência. As dúvidas persistiam: como poderia o Brasil ser uma democracia racial se, a olhos vistos, as diferenciações sociais e econômicas entre brancos e não-brancos eram gigantescas? Como era possível a ascensão social e econômica num Brasil industrializado, se nestas mesmas cidades industriais as desigualdades econômicas e raciais eram ainda maiores?

Era neste contexto que entrava o mito. Pelé era a comprovação destas teorias. Era a confirmação que era possível o negro lutar por um projeto de vida próprio sem sofrer preconceito. Em 1961, Pelé, com a colaboração de Benedito Ruy Barbosa, escreveu uma autobiografia intitulada Eu Sou Pelé. Nela, o jogador narrava a sua trajetória de vida, do seu nascimento em Três Corações, passando pela infância em Bauru, até a chegada no Santos FC e o seu desempenho na Suécia. Em quase duzentas páginas, não se observa, em sua narrativa de vida, sofrimentos vindo de atitudes racistas. O único ato racista narrado, assim mesmo de forma velada, foi o apelido que recebera ao chegar ao Santos do zagueiro Wilson: “Me botou o apelido de ‘Gasolina’. Cheguei a pensar que esse acabaria sendo o meu nome de guerra, no Santos, pois todos passaram a me chamar ‘Gasolina’ durante uns bons tempos”.[6]

Pelé mostrava que era possível, numa sociedade cada vez mais urbanizada e industrializada, um negro ascender social e economicamente. Afinal, ficou muito rico e conquistara um reconhecimento social maior do que qualquer outro jogador negro do passado ou do presente. Contudo para chegar a este ponto, ele precisava se comportar de forma coerente, e ordeira. Ele precisava ter um conjunto de qualidades que possibilitavam esta ascensão. E ele tinha. Era um profissional exemplar, possuía uma conduta irrepreensível e treinava muito. Nas palavras do craque: “Não bebia, não fumava, não dormia tarde e ouvia, sempre com atenção, as palavras do técnico”. Nos treinamentos, “procurava fazer aquilo que ele mandava, e ouvia, também, as recomendações dos meus companheiros veteranos”. Não era esbanjador e não gastava o salário em jogos de azar. Era uma pessoa empreendedora que se preocupava com o futuro. Muitos jogadores pensavam no futuro e não gastava dinheiro à toa: “Comecei a fazer a mesma coisa, seguindo sábios conselhos dos que sabiam mais do que eu: ‘Futebol não dura a vida inteira. Trate de fazer um pé-de-meia enquanto é tempo!’”.[7]

Era uma pessoa de família. Nunca esquecia os parentes mais próximos; sempre exaltava o pai e a mãe: “Pedi ao meu pai para que remodelasse a nossa casa e a mobiliasse de acordo com o gosto de minha mãe. Para mim era uma felicidade poder fazer aquilo”. Enfim, “eu estava dando uma alegria a quem tanto tinha feito por mim”. Contudo, por mais que pudesse ajudá-los, ele jamais poderia retribuir o que os pais lhe deram: “Devo a eles o fato de não ser um perdido. Devo a eles, também, essa minha maneira de pensar que muitos acham que é modéstia, mas que é, apenas, a consciência que tenho de que não sou mais do que ninguém”.[8]

Era uma pessoa romântica. Estava em busca de alguém que o amasse de verdade, apesar de ser Pelé: “O Pelé vai morrer solteiro. Quando eu for apenas Edson Arantes do Nascimento, quando já não falarem tanto de mim, como jogador de futebol, aí, então, procurarei uma companheira que possa dar os filhos que tanto desejo”.[9]

Era um batalhador que sofreu, lutou e venceu. Veio de um berço humilde sentiu a “dureza” da vida ainda quando era pequeno, engraxou sapatos na rua, viu os pais lutando a vida inteira, para criar ele e seus irmãos, mas nem por isso fazia do dinheiro a razão de todos os seus atos. Jogava futebol porque gostava, desde quando era garoto: “Acho que era esse o destino que Deus me reservou”. E Pelé era, antes de tudo, um patriota sempre pronto a exaltar o Brasil e a prestar serviços ao selecionado nacional. Não pretendia sair do Brasil, apesar de todas as grandes propostas que estava recebendo do exterior. Ficava aborrecido quando ouvia torcedores dizendo que jogava apenas pelo dinheiro: “Não é verdade. Apenas, por dinheiro, eu jamais deixaria que me dessem injeções nas pernas ou nos ombros, apenas para poder participar de uma partida”. Nunca exigiu nada do Santos, defendia-o da melhor maneira possível: “Gosto do clube, gosto dos amigos que tenho no clube e porque, antes de mais nada, o Santos é brasileiro”.[10]

Pelé prestou o serviço militar a partir de 20 de janeiro de 1959. Era o soldado “201 Nascimento”. Nesta época, teve que dividir seus afazeres futebolísticos entre a equipe do Santos e o time do Sexto Grupo Móvel de Artilharia da Costa Motorizada (6º GACM). Não era poupado por seus superiores. Era obrigado a pegar na enxada, capinava o mato no fundo do quartel, ou varria na frente da rua, para que todos pudessem ver que Pelé era um soldado como qualquer outro: “Longe de me aborrecer com aquilo, eu até achava graça. E atendia as ordens quase sempre sem reclamar”.[11]

Pelé era a explicação que faltava, era a “busca da ordem” tão almejada pelos trabalhadores, permitindo dar sentido ao ato de ser brasileiro. Apesar de pobre, de garoto, de morar no interior e de ser negro; conseguiu se tornar Pelé porque organizava a sua vida em busca de um objetivo definido. O mundo podia colocar diversos obstáculos no caminho, mas com persistência, ordem e postura moralmente correta, conseguia suplantar as dificuldades.

Cabe aqui ressaltar que, para os trabalhadores, o “mundo da ordem” ressaltado pelo mito de Pelé, não consistia no mesmo “mundo da ordem” pensado pelo Estado e pela grande imprensa comercial. Em ambos havia a noção de união, de obediência e de hierarquia. Mas, para o Estado e a imprensa, tais noções estavam irremediavelmente atreladas ao disciplinamento do Brasil e dos brasileiros como forma de atingir o desenvolvimento social, econômico e tecnológico. Já para os trabalhadores, estas noções abarcavam, antes de mais nada, um código de postura moral. Para eles, Pelé fazia sucesso porque era um bom filho, um garoto correto, não bebia, não fumava, sonhava casar com uma mulher que gostasse realmente dele, era trabalhador e obediente. Era por isso que Pelé era um modelo de comportamento para aquelas pessoas humildes que sofriam com a insegurança, a pobreza e o preconceito.

Pelé foi identificado como mito pelos trabalhadores brasileiros de maneira instantânea. Poucos dias após a Copa, o trabalhador Wilson Pereira mandava uma carta para o Jornal dos Sports afirmando que o choro de Pelé foi a maior prova das qualidades brasileiras, “a mais vibrante demonstração de esforço intelectual e espiritual para a nossa inesquecível vitória em terras alheias – choro esse que mostra que nem tudo está perdido nessas terras de Santa Cruz”.[12]

Pelé
Foto: reprodução

Os anos seguintes somente iriam confirmar a primeira impressão. Podemos buscar indício dessa popularidade nas músicas de carnaval. Estas músicas eram cantadas por milhões de populares. Os sambas e as marchinhas de carnaval constituíram veículos privilegiados para que os populares expressassem seus valores perante a vida. Era o momento também de rir dos fatores que os oprimiam. Em estudo clássico, Mikhail Bakhtin mostra que a obra de François Rabelais, escrita no século XVI, se inspirava na irreverência típica da praça pública durante o carnaval francês, quando as relações hierárquicas, os privilégios, as regras e os tabus eram abolidos. Segundo Bakhtin, o espectador não assistia simplesmente ao carnaval, ele o vivenciava. Enquanto durava o carnaval, não se conhecia outra vida senão a do carnaval. Era impossível escapar do carnaval, já que não havia nenhuma fronteira espacial. E, durante a sua realização, só se poderia viver de acordo com as suas leis, que eram as leis da liberdade.[13]

Guardadas as diferenças históricas em relação à época de Rabelais, ainda podemos nos aproximar dos sentimentos populares dos trabalhadores da década de 1950 através das músicas de carnaval, sempre conscientes da alegre relatividade das verdades e da autoridade no poder.[14]

Entre os carnavais de 1959 e 1963, Pelé e Garrincha eram temas frequentemente requisitados para marchinhas e sambas. Um exemplo é Coitadinho do Pelé, uma marcha de Mariano Nogueira, gravada por Kazinho, e muito cantada no carnaval carioca de 1962:

 

Sonhei que era

Jogador de futebol

Nunca ouve craque tão bom assim

Eu só fazia gol de letra

E folha seca

Coitadinho do Pelé

Perto de mim.

 

Decidindo a copa do mundo

A torcida delirou

Eu quase fiquei surdo

Driblei, center-half e o goleiro

Entrei no gol com bola e tudo.[15]

 

Ou então, esta Marchinha do Pelé, de Alvarenga e Ranchinho, também do carnaval de 1962:

 

Duas coisas neste mundo

Toda gente qué-é-é-é

É mulher bonita

E no campo é o Pelé

Pelé, Pelé, Pelé, Pelé

Na América do Norte

Só conhecem o café

Na Europa todo mundo

Só gritava o Pelé

Pelé, Pelé, Pelé, Pelé.[16]

 

Estas marchas cantadas no carnaval mostram como que a figura de Pelé já fazia parte da vida dos populares. A primeira era uma homenagem à excepcionalidade do craque. Brincava com os sonhos que qualquer pessoa tem de ser excepcional naquilo de que gosta. O autor gostava de futebol e queria ser igual ao atleta.

Já, na segunda marcha, fica evidente que os populares estavam orgulhosos por Pelé ser respeitado em grande parte do mundo considerado desenvolvido. Se ainda não era reconhecido na América do Norte; na Europa, todos só gritavam o seu nome. O reconhecimento prestado a um brasileiro negro e de origem pobre legitimava, para os trabalhadores, o direito de também sentirem orgulho de si mesmos, de sentirem orgulho de ser brasileiros.

Há ainda outra temática nesta música que chama a atenção que é a “mulher bonita”, que “toda a gente quer”. Voltaremos a ela nas próximas páginas.

Neste momento, o que nos interessa observar é que o mito de Pelé não foi uma construção feita a partir do alto, com objetivo unicamente de ludibriar os “ingênuos trabalhadores” de seus “reais interesses”. Pelé foi um autêntico mito popular não somente porque foi predestinado e excepcional; mas porque os trabalhadores se identificavam com ele, porque Pelé dava sentido ao mundo em que eles viviam. Em 1962, às vésperas da Copa do Mundo a ser disputada no Chile, Pelé era o verdadeiro herói de um povo, o rei de uma nação que encontrara o seu eixo narrativo, a sua epopeia, o seu destino. O mito de Pelé possibilitava uma ordem, uma noção de Brasil e de brasileiro coerente, justa e contínua. Os trabalhadores entendiam isso. Pelé era, antes de qualquer coisa, um modelo exemplar de brasileiro, um modelo de comportamento para quem esperava ver o Brasil uma verdadeira democracia racial, para quem desejava ver o Brasil um país de oportunidades de ascensão social independente da condição de pobreza ou de raça.

Notas

[1] MAZZONI, Thomaz. O mundo aos pés do Brasil. A Gazeta Esportiva, 2 jul. 1958, p. 10.

[2] RODRIGUES, Nelson. O gigantesco. Jornal dos Sports, 7 mar. 1961, p. 2.

[3] RODRIGUES FILHO, Mário. Quatro ídolos. Primeira. Jornal dos Sports, 4 fev. 1959, p. 5.

[4] SHILS, Edward. Carisma, ordem e estatuto. In: SHILS, Edward. Centro e Periferia. Lisboa: Difel, 1992, p. 394-398.

[5] Gilberto Freyre, Florestan Fernandes e outros teóricos eram criticados por Alberto Guerreiro Ramos. De acordo com este, os estudos produzidos em nada contribuíam para melhorar a vida dos negros brasileiros, uma vez que a ênfase era atribuída aos aspectos exóticos, ou melhor, os negros eram vistos como espetáculo. Mas uma coisa é “negro-tema”; outra é “negro vida”. O “negro vida” estava presente numa sociedade que continuava produzindo desigualdades entre brancos e negros, aprofundadas pelo processo de industrialização em curso no país. Consequentemente, a precária instalação das relações de classe colocava o negro em desvantagem diante do branco. Para ele, as desigualdades entre negros e brancos somente diminuiriam a partir da construção de uma “identidade negra” fortalecida. Ver: OLIVEIRA, Lúcia Lippi de. A Sociologia do Guerreiro. Rio de Janeiro: EdUFRJ, 1995.

[6] NASCIMENTO, Edson Arantes do. Eu Sou Pelé. São Paulo: Francisco Alves, 1961, p. 90. O livro foi escrito com a colaboração de Benedito Ruy Barbosa e serviu de base para o roteiro do filme O Rei Pelé (1962), de Carlos Hugo Christensen, com a participação de Pelé e família.

[7] Idem, p. 95-98.

[8] Idem, p. 165.

[9] Idem, p. 184.

[10] Idem, p. 179-182.

[11] Idem, p. 161.

[12] Jornal dos Sports, 9 jul. 1958, p. 7.

[13] BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec, 2010, p. 6.

[14] Ver: SOIHET, Rachel. A Subversão pelo Riso. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998.

[15] O Samba. Edição de Carnaval, nº 55, 1962, p. 20.

[16] O Samba. Edição de Carnaval, nº 55, 1962, p. 19.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
Seja um dos 14 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Denaldo Alchorne de Souza

Denaldo Alchorne de Souza fez pós-doutorado em História pela USP, doutorado em História pela PUC-SP e mestrado, especialização e graduação em História pela UFF. É autor dos livros Pra Frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, 1950-1983 (Ed. Intermeios, 2018) e O Brasil Entra em Campo! Construções e reconstruções da identidade nacional, 1930-1947 (Ed. Annablume, 2008), além de diversos artigos publicados em revistas, jornais e sites. Atualmente é pesquisador do LUDENS/USP e Professor Titular do Instituto Federal Fluminense, onde leciona disciplinas na Graduação em História.

Como citar

SOUZA, Denaldo Alchorne de. Pelé: a construção do mito (1958-1962) [2a. e última parte]. Ludopédio, São Paulo, v. 165, n. 17, 2023.
Leia também:
  • 176.25

    Léo Zonta: arranhaduras subjetivas e tempo-futebol

    Eduarda Moro
  • 176.24

    Sócrates – vida que não coube nos anos vividos

    Alexandre Fernandez Vaz
  • 176.23

    Acervos e coleções varzeanas

    Aira F. Bonfim, Alberto Luiz dos Santos, Enrico Spaggiari