Em recente estada na França, na cidade de Besançon, pude ter contato com um jogo interessante, praticado coletivamente, denominado “petanca” (ou “pétanque”, em francês). Diz-se que vem dos jogos com bolas (ou “boules”), tradicionalmente realizados na Gália, antiga região francesa povoada por Gauleses e que serviu como província do Império Romano. A petanca permaneceu durante muito tempo como um passatempo popular, sendo proibida durante a Idade Média e parte da Idade Moderna[1]. A princípio e como referência para um espectador estrangeiro (e, no meu caso, brasileiro), a petanca se assemelha muito à bocha, esporte bastante conhecido no Brasil. Porém, após cuidadosa observação, acabei percebendo particularidades distintivas.

Pés juntos (“pieds tanqués”) num círculo desenhado no chão, balanço do corpo acoplado ao jeito de pegar a bola, com a mão em formato curvo, ou de “meia lua”, voltada para o corpo. O lançamento de uma lustrosa bola oca metálica (bonita e fascinante, aliás) adquire ares de movimentos mágicos. O objetivo é colocar tal bola mais próximo possível de uma outra, de madeira e de menor dimensão (“le petit” ou “le cochonnet”), localizada em algum lugar do terreno. Ao contrário do jogo de bocha, a petanca não é jogada em uma cancha ou campo delimitado, mas em uma superfície plana de areia, grama ou chão batido.

Pessoas jogam petanca na cidade de Besançon, na França, em 2019. Foto: Maria Conceição Camargo.

O interessante é que conheci o jogo de petanca por acaso, num sábado de visita turística à Cittadelle, uma fortaleza militar antiga do século XVII e patrimônio histórico da UNESCO. Ainda antes de subir os incontáveis e envelhecidos degraus de acesso à Citadelle, pude observar a petanca ser jogada por vários grupos de pessoas, dentre as quais havia mulheres com crianças de colo, idosos e jovens. Vi pessoas magras e obesas, mais jovens ou mais velhas, lançando bolas ao ar e comemorando ou lamentado tais arremessos. Pareceu-me uma atividade inclusiva, de intensa socialização e, particularmente, de baixo custo (pois feita em espaços públicos).

Buscando mais informações sobre tal atividade, encontrei que a petanca participa do grupo dos chamados “esportes de precisão”, como a bocha, o boliche e mesmo o curioso curling, esporte da “vassorinha” (como é identificado), que se tem atraído a atenção de brasileiros/as, fãs de esportes de inverno. Apesar de originada em comunidades pequenas e tradicionais ao sul da Europa e de ter se espalhado por vários cantos do continente, a petanca permaneceu como um passatempo marginal até fins do século XIX.

Vista de cima de um jogo de petanca. Foto: Rafael Xavier de Camargo.

A França é o país europeu que se destaca em sua prática, e segundo a Federação Francesa de Petanca e de Jogo Provençal (Fédération Française de Pétanque et Jeu Provençal – FFPJP), havia em 2016 cerca de 300 mil membros (hoje possivelmente muitos mais), distribuídos entre os 6.122 clubes registrados. De acordo ainda com o site da federação, “todos os anos, são organizados 12 campeonatos em toda a França” e em 2005 a petanca galgou novo status quando o Ministério dos Esportes do país a decretou “esporte de alto nível”[2]. Por sua vez, segundo dados da Wikipedia, há mais de 17 milhões de franceses que praticam este esporte, notadamente no verão[3].

A petanca atualmente é um esporte, pois se estruturou em termos de regras e de competições esportivas. Há ranking de melhores jogadores/as e sua prática está disseminada, tanto na França como em outros países, europeus (como Inglaterra, Espanha, Portugal, Bulgária) ou outros (Vietnã, Cambodja, Tailândia e mesmo Canadá e EUA). Este percurso de desenvolvimento de um jogo tradicional a esporte moderno é o que Norbert Elias e Eric Dunning chamaram de “esportivização”, no livro A Busca da Excitação.

No Brasil há conhecidos/as pesquisadores/as que desenvolvem pesquisa com relação ao jogo da bocha, porém possivelmente nada há sobre a petanca – ou, pelo menos, nada em língua portuguesa foi encontrado numa busca virtual no Google acadêmico. Contudo, há certa produção internacional (em espanhol e inglês) sobre a petanca, focando desde questões socioculturais que a envolvem até temáticas como treinamento psicológico para praticantes deste esporte. Como curiosidade, acabei encontrando à venda kits de petanca (com 8 bolas metálicas e uma de madeira, numa simpática bolsa para carregar) numa famosa loja espanhola de artigos esportivos sediada no Brasil.

Longe de ser um passatempo qualquer, a petanca envolve habilidades que poderiam fazer qualquer um se envolver, desde nossos avós até nossas crianças. Resta-nos, caso interessar, inseri-la na cultura como possibilidade educativa e recreacional, inclusive em aulas de Educação Física escolar.

Praticante de petanca observa bola lançada no jogo. Foto: Rafael Xavier de Camargo.

Notas

[1] “L’ histoire de la pétanque”. Disponível em <https://www.ffpjp.org/index.php/pratiquer/la-pratique/l-histoire-de-la-petanque>. Acesso em: 01 out. 2019.

[2] “Présentacion”. Disponível em <https://www.ffpjp.org/index.php/ffpjp/presentation>. Acesso em: 02 out. 2019.

[3] “Petanca”. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Petanca>. Acesso em: 02 out. 2019.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Petanca: você já ouviu falar?. Ludopédio, São Paulo, v. 124, n. 6, 2019.
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