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“Pintou um clima!”: um texto sobre assédio sexual, pedofilia, fascismo e também futebol

Não há justificativa para alguém, um adulto, usar a expressão “pintou um clima” para tratar relação de proximidade com crianças, além disso, há uma íntima relação entre políticos marcadamente fascistas com abusos no campo sexual. Mas o texto que aqui se propõe não é para tratar o caso recente de um político abertamente admirador de personalidades e políticas fascistas e sua fala com teor de violência sexual. Pretende-se aqui falarmos da seleção da Islândia, sua estética fascista e os recentes casos de abuso sexual por parte de seus jogadores, inclusive o mais renomado deles. Espero que político fascista e falas absurdas com teor sexual direcionadas a crianças seja coisa do passado em nosso país.  

Sim, sei que você que nos lê possivelmente se encantou com a trajetória da seleção islandesa de futebol, ainda mais sabendo que ela foi fruto de políticas públicas na tentativa de inserção de jovens na sociedade e para que eles não abandonassem o país. Tudo parecia um grande conto de fadas, com ajuda financeira da FIFA, 2 milhões de euros, o trabalho iniciou com a infraestrutura básica, construção de campos de treinamento e profissionalização e treinadores, passando pela montagem de uma seleção nacional. A Islândia que não tinha participação em competições internacionais de futebol, não tendo antes passado das eliminatórias classificou-se para a Eurocopa de 2016.

O sucesso não parou por aí, com atuações espetaculares, no Grupo F da competição, terminou a fase de grupos à frente de Portugal do astro Cristiano Ronaldo, nas oitavas, ninguém menos que a Inglaterra pela frente, Rooney e seus companheiros também ficaram pelo caminho, 2 x 1 para os nórdicos. A saga parou frente os donos da casa, perdendo por 5 x 2 para os franceses os islandeses deram adeus ao torneio, mas já havia conquistado o coração da maioria dos que acompanhavam o torneio.

Cada vitória proporcionava uma festa incrível tanto nos estádios franceses quanto na própria Islândia. Tudo pintado de azul, crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres em movimentos sincrônicos e harmônicos, entoando cânticos de orgulho nacional exaltando seus símbolos e o espirito mítico de sua formação, orgulho nacional de uma grandeza imaginária elevado ao máximo, os islandeses se sentiam evenceis como nação, invencíveis como povo, prontos para qualquer embate e combate, sendo eles reais ou imaginários. Pois bem, você realmente não notou as nuances fascistas de tais festas? É isso, não se culpe, ficamos fascinados com as festas, mas, o fascismo é fascinante como alerta Susan Sontag.

Islândia
Seleção da Islândia na Copa do Mundo 2018. Fonte: Wikipédia

Feito o alerta, voltemos para a fascinante trajetória do selecionado islandês. Na Copa do Mundo de 2018, se classificando como líder de seu grupo nas eliminatórias, caiu em um grupo com Argentina, Nigéria e Croácia. Já na estreia um empate contra o selecionado argentino liderado por Messi. Festa, na Islândia e nos estádios, tudo pintado de azul, crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres em movimentos sincrônicos e harmônicos, entoando cânticos de orgulho nacional exaltando seus símbolos e o espirito mítico de sua formação, orgulho nacional de uma grandeza imaginária elevado ao máximo, os islandeses se sentiam invencíveis como nação, invencíveis como povo, prontos para qualquer embate e combate, sendo eles reais ou imaginários. Nas rodadas seguintes acabaram derrotados por Nigéria e Croácia, o que não importava, os islandeses já conheciam a grande festa do futebol e especialmente a grande festa conhecia os islandeses.  

O que parecia impossível começou a ocorrer, o roteiro perfeito de conto de fadas era apenas a introdução de um filme de terror. O fascismo faz com que as pessoas se sintam invencíveis, faz com que a massa se sinta invencível, acima do bem o do mal, se achem os verdadeiros cidadãos de bem, não só o público e sua massa, mas também seus soldados, seus jogadores. 

A seleção islandesa não classificou para a Euro de 2021, se essa fosse a única tragédia da equipe nem poderia ser considerada uma tragédia, uma série de denúncias de abuso sexual, inclusive envolvendo pedofilia, começou a ocorrer.  

O principal destaque individual da equipe foi indubitavelmente Gilfy Sigurdsson que foi contratado pelo Everton da Inglaterra em 2017, sendo a contratação mais cara do clube até então, inclusive assumindo a camisa 10 da equipe. Em 2021, Sigurdsson foi preso pela polícia acusado de pedofilia, o clube o afastou. Portanto, o principal jogador da geração que encantou o mundo era acusado de pedofilia.

O drama não parou por aí, outros jogadores também foram acusados de abuso sexual, dentre eles o capitão da equipe Arnar Gunnarsson. Como se já não fosse trágico o suficiente, outro expoente dessa geração também foi acusado de abuso sexual, e Kolbeinn Sigthorsson, autor de um gol sobre a Inglaterra na Eurocopa de 2016. Outros três atletas, com nomes não revelados também são acusados de crimes sexuais.  

Como uma maquiavélica obra do destino os três principais jogadores da equipe, ou ao menos, três de seus principais jogadores foram acusados de crimes sexuais. Em 2021, após o caso envolvendo Sigthorsson, a situação se tornou insustentável os principais dirigentes da Federação Islandesa de Futebol, a KSI, muitos deles que participaram da construção do projeto que levou o futebol islandês ao sucesso pediram demissão, dentre eles Gudni Bergsson, seu presidente. Tudo isso ocorrendo inclusive por pressão popular e dos clubes, masculinos e femininos do país.

A Islândia que é considerado um dos países com maior igualdade de gênero do mundo foi surpreendida com um escândalo sexual que envolve as estruturas de uma de suas novas paixões, o futebol. O alerta é que mesmo em locais como a Islândia, os “garotos” quando “pintam um clima” agem de forma violenta.

O presente texto não tem meias palavras, é simples e direto, o fascismo que envolveu a ascensão do selecionado islandês favoreceu ações de cunho violento contra mulheres. Sim, o fascismo tem como uma de suas características a violência, inclusive sexual contra mulheres. Isso na Itália no início do século XX, Islândia ou Brasil do século XXI. Ao fim, a ascensão da seleção de futebol islandesa foi péssima para o país, péssima para o futebol e péssima para as mulheres.

Bibliografia

MADRID, Bruno. Do auge ao escândalo: como futebol islandês foi à Copa e caiu em desgraça. UOL, São Paulo, 30 set 2022. Disponível em: < https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/09/30/selecao-islandia-copa-do-mundo-eurocopa-sucesso-caos-estupro.htm>. Acesso em: 28 de out. de 2022.

RODRIGUES, Alexandre. Dirigentes islandeses se demitem após escândalo sexual com ex-Ajax; entenda o caso. Torcedores.com, São Paulo, 31 ago 2021. Disponível em: < https://www.torcedores.com/noticias/2021/08/dirigentes-islandeses-se-demitem-apos-escandalo-sexual-com-ex-ajax>. Acesso em: 28 de out. de 2022.

SONTAG, Susan. Under the sign of Saturn. New York: Vintage Books, 1981.

The case of Gylfi Sigurdsson, accused of pedophile, embarrasses Everton and Icelandic football. Archysport, Londres, 25 dez 2021. Disponível em: < https://www.archysport.com/2021/12/the-case-of-gylfi-sigurdsson-accused-of-pedophile-embarrasses-everton-and-icelandic-football/>. Acesso em: 28 de out. de 2022.

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Makchwell Coimbra Narcizo

Doutor em História pela UFU, Graduado e Mestre em História pela UFG. Atualmente professor no IF Goiano - Campus Trindade. Desenvolve Estágio Pós-Doutoral na PUC Goiás. Membro do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisa Aplicados ao Futebol - UFG). Coordenador do GT Direitas, História e Memória ANPUH-GO. Autor dos livros: A negação da Shoah e a História (2019); A extrema direita francesa em reconstrução - Marine Le Pen e a desdemonização do Front National [2011-2017] (2020) dentre outros... isso nas horas vagas, já que na maior parte do tempo está ocupado com o futebol... assistindo, falando, cornetando, pensando, refletindo, jogando (sic), se encantando e se decepcionando...

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. “Pintou um clima!”: um texto sobre assédio sexual, pedofilia, fascismo e também futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 160, n. 32, 2022.
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