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Pioneirismo de torcedoras no futebol piauiense

Socorro Cruz 29 de março de 2022

A participação da mulher no futebol brasileiro é perceptível em diversas áreas de atuação. Seja como atleta, seja como torcedora, no reportar dos fatos, na arbitragem ou como dirigentes de clubes, a figura feminina se mantém presente no universo futebolístico. O objetivo aqui é relatar parte de uma pesquisa sobre torcedoras símbolo de clubes de futebol do Estado do Piauí e o papel desempenhado por mulheres resistentes no âmbito do futebol. Embora invisibilizadas pela força de um passado excludente e de proibição no cenário esportivo, conforme determinava o decreto do Conselho Nacional de Desportos (CND) de 1941.

Como bem destaca Aira Bonfim:

Apesar das adversidades de um esporte que com o passar dos anos se forjou cada vez mais por e para homens, mulheres nunca deixaram de torcer e reivindicar o dito “esporte nacional e popular” de volta para elas. Além de uma estrutura desfavorável para a presença feminina, foi necessário – e ainda o é – desmistificar uma ideia culturalmente construída de que mulher e futebol não combinam (e aqui vale lembrar aos garotos, que nós, moçoilas, fomos proibidas por lei de praticar futebol no Brasil entre 1941 a 1979…) (BONFIM, 2019, p.2).

Futebol Piauí
Sheila Castelo Branco, torcedora símbolo do River, presente no Estádio em 1978. Foto: arquivo pessoal

Diversas piauienses figuram dentre essas mulheres resistentes que conquistaram espaços no meio futebolístico, mesmo em meio às adversidades que surgiram ao longo dos anos. Em 1960, algumas já compareciam aos estádios piauienses e marcaram época como referências entre as torcidas de clubes de futebol no Piauí. Nesse período, já havia líderes de torcidas nos principais times como no River Atlético Clube e no Esporte Clube Flamengo.

As torcidas organizadas surgiram no Piauí a partir de 1980. A Flagiant, fundada por José Airton Soares, foi a primeira do estado. Era formada por flamenguistas que compareciam aos jogos com as tradicionais charangas e bandeiras. Outras torcidas surgiram como as Dragões Rubro-Negros, Flanáticos e TUF (Flamengo); os Tigrões do Fabuloso (Sociedade Esportiva Tiradentes); Embriagalo e Torcida Jovem (River Atlético Clube); Tubarões da COHAB (Parnahyba Sport Club) e Dou-lhe 4 (4 de Julho).

No livro Fatos e Fotos de um Campeão, escrito por José Alves Nunes Neto, presidente do River no biênio 1982 e 1984, há registros de várias mulheres, inclusive torcedoras presentes na solenidade de entrega de faixas do título de campeão piauiense conquistado pelo River no ano de1973, no estádio Lindolfo Monteiro, em Teresina, capital do Piauí.

Sheila Viana Castelo Branco Rocha é uma das torcedoras piauienses apaixonadas por futebol e que mantém vivo o amor pelo River Atlético Clube, um dos mais tradicionais do futebol do Piauí, fundado em março de 1946. Doutora Sheila, como é chamada pelos riverinos, frequentava, na década 1960, as arquibancadas do estádio Lindolfo Monteiro.

River Piauí
Sheila Castelo Branco, torcedora e dirigente do River. Foto: arquivo pessoal

Sheila, uma das mulheres pioneiras no futebol do Piauí, ocupa um espaço que passou a ser seu ainda aos 15 anos de idade quando começou a ir aos jogos do time riverino. O amor pelo River começou em 1965. Na companhia dos irmãos Renato Viana e Paulo Viana, ela passou a ser frequentadora assídua das arquibancadas do Lindolfo Monteiro. Na época, o tio, Raimundo Viana, que era dirigente do clube riverino, também o incentivou a frequentar o estádio. A relação com o clube se intensificava a cada ano.

Em 1970, doutora Sheila casou-se com o então presidente do River, Delson Castelo Branco Rocha que presidiu o clube no período de 1970 a 1972 e de 1978 a 1980. Em sua gestão, o River – conhecido como Eterno Campeão – por ser a agremiação que alcançou 67 títulos ao longo de sua história, garantiu, em 1978, o bicampeonato piauiense.

Sheila Castelo Branco relembra a sua trajetória enquanto torcedora e dirigente do River:

Sempre fui torcedora do River, é um amor inexplicável. Até o ano de 1973 os jogadores iam para o estádio levados por nós diretores. Quando o Delson foi presidente do River fomos bicampeões piauienses em 1978. Vencemos o Piauí de 2 a 1. Esse momento é inesquecível para nós que temos paixão por esse time. Até hoje a gente continua trabalhando em prol da torcida, da diretoria e do próprio clube.

River Piauí
Sheila e o esposo Delson Castelo Branco na arquibancada torcendo pelo River. Foto: Arquivo pessoal

Doutora Sheila, atualmente com 71 anos de idade, cinco filhos e 10 netos – todos riverinos –  ainda acompanha o time do River em alguns jogos com as caravanas de torcida. No início dos anos 2000, já como dirigente do clube, Sheila incentivou a presença das mulheres riverinas nas torcidas organizadas como a do Galo de Aço e a do Esporão do Galo.

As mulheres estão dividindo as arquibancadas igualmente com os homens. Antigamente não era comum as mulheres irem para o estádio. Alguns olhavam com olhar atravessado, mas nada que causasse constrangimento. Ainda hoje sou diretora do River e respeitada. Isso é muito gratificante para nós mulheres ocupar a direção de um clube de futebol.

Na torcida do Esporte Clube Flamengo, principal rival do River Atlético Clube, destaca-se a participação das irmãs gêmeas – Catarina Maria de Freitas e Francisca Maria de Freitas. Apaixonadas pelo rubro-negro, as irmãs costumavam assistir aos jogos no Lindolfo Monteiro e no Estádio Alberto Tavares Silva (Albertão).

Aos 12 anos de idade, Catarina e Francisca (já falecida), começaram a acompanhar o Flamengo com o pai, Tobias Jacob de Freitas, o principal incentivador.

Flamengo Piauí
Irmãs gêmeas, Francisca e Catarina, torcedoras do Flamengo. Foto: arquivo pessoal

Catarina relatou que na época, embora não participasse diretamente das ações das torcidas, era fiel ao clube, inclusive, acompanhando o time em alguns jogos fora de Teresina. Atualmente, aos 69 anos, Catarina relembra os bons momentos como torcedora do Flamengo.

A arquibancada era nosso lugar. O fato de ser mulher nunca foi empecilho para eu deixar de ir ao estádio e torcer pelo Flamengo. Foram vários títulos que presenciamos e foram momentos inesquecíveis. Muitas vezes perdi oportunidades na minha vida porque o Flamengo iria jogar. Fiz um concurso do Tribunal de Contas do Estado, passei em todas as provas. Faltava a prova de datilografia. Marcaram essa prova para um domingo e eu não fui fazer porque o Flamengo iria jogar. O Flamengo perdeu o título para o River. Mas mesmo assim não me arrependi de nada. É o amor que tenho pelo meu Rubro-Negro.

Flamengo Piauí
Catarina exibe camisas e lembranças do Flamengo. Foto: arquivo pessoal

Na década de 1990, Catarina Freitas ainda se tornou funcionária do Flamengo. Esse momento, segundo Catarina, foi marcante, pois ela passou a ter um contato direto com os ídolos e a paixão pelo clube se intensificou.

Catarina, que à época despertava a atenção da imprensa esportiva local pela presença marcante nas arquibancadas dos estádios Lindolfo Monteiro e no Albertão, ainda guarda várias camisas, toalhas e outras lembranças com as cores vermelho e preto. O amor pelo Flamengo do Piauí também se entendeu ao rubro-negro do Rio de Janeiro.

As irmãs Catarina Freitas e Francisca Freitas, assim como Sheila Castelo Branco, mesmo diante das adversidades que o futebol apresentava, não deixaram de torcer pelos seus times e se mantiveram presentes nas arquibancadas, construindo uma trajetória histórica no futebol do Piauí.

Flamengo Piauí
Catarina rezava o terço e agradecia pelas vitórias do Flamengo. Foto: arquivo pessoal

Referências

BONFIM, Aira. “Conheça a origem de uma das palavras mais importantes do futebol”. Torcedores.com, 2019. Disponível em: www.torcedores.com/noticias/2019/09/torcer-origem-palavras-futebol. Acesso em: 16 de março de 2022.

FILHO, Severino. Piauí 100 anos de Futebol. Teresina: Alínea, 2005.

NETO, José Alves Nunes. Fatos e Fotos de um Campeão. Teresina: Rêgo, 2013.

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Como citar

CRUZ, Socorro. Pioneirismo de torcedoras no futebol piauiense. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 34, 2022.
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