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Políticas trans no Gay Games de Sydney’2002: um marco histórico

Enquanto o mundo ainda tropeça para decidir se continua no caminho democrático ou se adere a regimes despóticos e intolerantes, vale ressaltar que não faltam exemplos em nossa história que nos mostram como já fomos melhores, inclusive no esporte. Quero trazer o caso da implantação de políticas inclusivas de gênero para pessoas trans e com variação intersexo no campeonato multiesportivo do Gay Games, particularmente na edição que aconteceu em Sydney, em 2002.

E por que acionar este caso? Qual é sua importância? Vale dizer que enquanto no esporte convencional (mais precisamente nas federações internacionais de ciclismo, natação e rúgbi) as regras atuais rechaçam atletas trans e com variações de intersexualidade, a Federação dos Gay Games (FGG), criada em 1982 e executora deste evento internacional quadrianual, implementou uma política bastante avançada no Gay Games VI, se comparada com o que discutia sobre o tema, na época, o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI).

Homens e seu domínio no esporte moderno

O esporte seguia sua trajetória de considerar que homens eram melhores do que mulheres em provas esportivas, particularmente aquelas em que se empregava força, contato vigoroso, velocidade e resistência. Esta tendência vinha do fim do século XIX, momento em que o esporte moderno nasce de homens para homens.

Eles eram incentivados no esporte desde suas tenras infâncias, ao passo que às mulheres pairava um cuidado, muitas vezes excessivo, para que não se afastasse do “feminino”. Mulheres atletas tiveram que brigar muito por espaço ao longo do século XX e sofreram inúmeras proibições, como ocorreu, por exemplo, no futebol (no Brasil e em outros países).

Dissonâncias no celebrado sistema sexo-gênero do esporte

Nos anos 1930 apareceram as primeiras manifestações de atletas mulheres que não se encaixavam na feminilidade vigente e que acabaram perseguidas por causa disso – Stella Walsh, Helen Stefens, Kinue Hitome foram algumas delas, como nos conta Lindsay Pieper (2016).

Nos beligerantes anos da Guerra Fria (de 1945 a 1990), atletas continuaram a ser perseguidas e impedidas, devido tanto por suas performances, quanto por seus excepcionais resultados esportivos. Como relata Caroline Symons (2010), uma década antes do COI sentar para discutir a situação de pessoas trans no esporte de alto nível, o Gay Games já traçava as primeiras decisões que foram formando suas políticas inclusivas neste sentido.

Os lugares trans e intersexo dentro do Gay Games

Havia certa tensão na participação de atletas trans e com variações de intersexualidade nas primeiras edições do evento. Entre a primeira edição (em 1982) e a terceira (em 1990), os jogos serviam para celebrar a diversidade sexual apenas de homens e mulheres que se autoidentificavam como gays e lésbicas, respectivamente.

Pouco a pouco, no entanto, uma comunidade de atletas trans foi se formando e, sobretudo, demandando participação em espaços esportivos competitivos. Isso não ocorreu sem crises ou discussões com as maiorias representativas de gays e lésbicas, porém foi resultando em medidas efetivas, que seriam aplicadas em competições futuras.

Gay Games
Fonte: Divulgação

Gay Games IV (1994) e Gay Games V (1998)

As edições de 1994, em Nova Iorque, e de 1998, em Amsterdã, foram eventos distintos entre si no quesito participação trans, mas figuraram como dois momentos importantes da formação de um corpo de regras que vai balizar a história dos jogos.

O Gay Games IV apareceria na história esportiva do século XX como o primeiro certame esportivo internacional em que se incluiu atletas trans, baseando-se em um conjunto de políticas e procedimentos, que levavam em conta, resumidamente: a) nome social; b) atestado médico sobre transição de gênero; c) atestado psiquiátrico sobre identificação de gênero; d) prova de vivência trans de, no mínimo, dois anos.

Apesar de ter sido criticado à época pela excessiva lista de exigências, ou mesmo pela enfática determinação médico-psiquiátrica, o Gay Games IV ofereceu subsídios para que a próxima edição tivesse uma base sobre a qual reelaborar suas políticas trans.

O Gay Games V, no entanto, deixou a desejar na elaboração e aplicação de tais políticas, apesar de ter sido organizado na libertária Amsterdã. Houve dificuldades na identificação de nomes sociais de pessoas trans, dúvidas de arbitragem sobre identidades de gênero de atletas e falta de pessoal qualificado para fiscalizar uso de hormônios nas provas de levantamento de peso e bodybuilding. Além disso, pessoas com variações de intersexualidade ficaram de fora de qualquer consideração.

Gay Games VI (2002): o mundo pode ser diferente

Os Jogos de Sydney definiram a mais inclusiva “política de gênero” até então na história dos Gay Games – e, possivelmente, na história esportiva mundial naquele momento. Finalmente, gênero foi entendido e definido em termos de identidade social e não se tomou a intersexualidade como uma “falha biológica”. Symons (2010) destaca mais de dez organizações regionais, na Ásia e na Oceania, que ficaram em função da elaboração deste documento por quase 2 anos antes do evento.

A FGG estabeleceu uma “política de compromisso” em aceitar a identidade social de gênero sem necessidade de comprovação ou documento médico de transição. Bastava, para isso, uma prova da pessoa de que se identificava com o gênero pretendido e que já vivia de acordo com esse desejo – uma conta de banco ou a carteira de motorista bastava para isso. Por sua vez, atletas com variações de intersexualidade podiam escolher suas categorias de competição.

E para os oficiais técnicos das provas sugeriu-se que avaliassem a questão da segurança de atletas trans, tanto na categoria masculina (homens trans jogando com homens cis), quanto na feminina (mulheres trans jogando com mulheres cis). Uma comissão técnica avaliaria caso a caso.

Gay Games
Fonte: Divulgação

Marco histórico e lições para o hoje

O exemplo do que ocorreu nesta competição esportiva há vinte anos nos mostra que alterações são possíveis e há caminhos para a inclusão sem discriminação, pontuando ações proativas. Isso serve não apenas para o esporte de nicho (como é o esporte feito por sujeitos LGBTQIA+), como para mudar o próprio esporte convencional e seu ethos competitivo.

Como já afirmaram várias pesquisadoras/es, a inclusão de atletas trans e pessoas com variação de intersexualidade dentro do Gay Games VI levou ao extremo o que se entendia por “política inclusiva”, destacando potenciais transformações na própria agenda do esporte.

Isso vai mudar ao longo da história do Gay Games nas edições posteriores, o que pode ser assunto para outros textos. Mas o que foi concretizado em Sydney’2002 deixou uma marca, que serve como parâmetro e que pode ser acionada a fim de construir outra agenda de necessidades no esporte.

Para quem tiver interesse:

PIEPER, Lindsay P. Sex testing: Gender Policing in Women’s Sports. Champaign IL: University of Illinois Press, 2016.

SYMONS, Caroline. The Gay Games: a history. New York: Routledge, 2010.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Políticas trans no Gay Games de Sydney’2002: um marco histórico. Ludopédio, São Paulo, v. 160, n. 9, 2022.
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