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“Porque mistério sempre há de pintar por aí” (III:) Manifesto contra os tapetes vermelhos

Mariana Brescia 1 de junho de 2020

Em tempos tão estranhos e difíceis, os clubes de futebol tornaram-se uma possibilidade de afeto. Mais do que isso, arriscamos dizer, os clubes se tornaram quase que uma extensão familiar. Como bem aponta Hilário Franco Jr, existe uma tendência de se copiar formas de falar e vestir, comportamentos e nomes dos jogadores de futebol na cultura dos países latino-americanos. Para o autor, isso é a prova de que os jogadores são, algumas vezes, assimilados a santos: “Ídolos, santos ou heróis nas religiões tradicionais, futebolistas na maior “religião laica” da atualidade, todos provocam forte mimetismo.” (p. 262).

No ano passado, por exemplo, a sequência vitoriosa do Flamengo trouxe à tona as famosas homenagens que os pais mais emocionados costumam fazer aos jogadores. Alguns casos se tornaram conhecidos, como por exemplo, o pai que homenageou Gabigol e Arrascaeta após a virada histórica contra o River Plate, nomeando o filho como Vitor Gabriel Arrascaeta Sant’ana Bastos.

Os atleticanos seguem o mesmo caminho desde 2013, ano em que o Atlético Mineiro conquistou a Libertadores. Um levantamento feito pelo GloboEsporte em 2017 constatou que desde o famoso “Milagre do Horto” o registro de crianças nomeadas “Victor” subiu 33% em Minas Gerais.

O “Milagre Do Horto” foi, na verdade, a histórica defesa do goleiro Victor: no dia 30 de maio de 2013, o jogador atleticano consagrou-se como santo após a defesa de um pênalti, aos 43 do segundo tempo, com o pé esquerdo. Desde então, o dia 30 de maio é conhecido pela torcida atleticana como o ‘Dia de São Victor’ e algumas comemorações marcantes foram noticiadas pela imprensa, como a comemoração realizada em 2015 pelo grupo “Devotos de São Victor” com direito até a um altar em homenagem a Victor.

Em 2016, a comemoração ganhou um tom profissional e o livro “O milagre do Horto” foi lançado. A sinopse do livro entrega o tom religioso e sagrado que a defesa do pênalti carrega:

“Trinta e nove testemunhos de fé. Relatos de devoção. Confissões de paixão. Declarações de amor. Exaltações à família, à saudade. A esperança que venceu o pânico. A nova vida sobrepujando a velha morte. Definitivamente, este não é um livro sobre futebol.”.

Sete anos depois do ‘Milagre do Horto’, embora não tenhamos notícias de novas procissões ou comemorações públicas, o dia segue comemorado pelos atleticanos nas redes sociais e o goleiro continua sendo considerado sagrado, comprovando, mais uma vez, a estreita ligação entre futebol e religião. 

São Victor do Horto. Foto: Reprodução autorizada por André Fidusi.

Se continuarmos defendendo a tese de que o futebol é sagrado, então também devemos inserir o papel do estádio de futebol nessa discussão com uma observação feita por Hilário Franco Jr: o estádio é um santuário e o terreno do jogo é a parte principal.

A construção do novo estádio do Galo é o exemplo perfeito para justificarmos essa tese. Se o fato de erguer um estádio de futebol em meio a uma pandemia mundial já não causasse certo espanto, a relação que a torcida vem criando com o terreno do estádio não deve ser vista como surpresa. Nas redes sociais, vídeos de torcedores indo assistirem a obra têm se tornado cada vez mais comum.

Antes mesmo do inicio das obras, o terreno do estádio já vinha sendo considerado um local sagrado para os torcedores: em setembro de 2017, por exemplo, a torcida atleticana reuniu-se em frente ao espaço para confraternizar a nova conquista. Dois meses depois, um casal atleticano se casou a centímetros do terreno da Arena do Galo. Em entrevista concedida ao GloboEsporte, a noiva revelou que tinha o sonho de se casar no campo do Galo. O desejo foi realizado e organizado por um grupo de atleticanos que se comoveu com a história. O plano inicial era para que o casamento fosse realizado dentro do terreno, mas a chuva impossibilitou e o casamento foi realizado a centímetros do estádio, com direito à presença do Padre Natanael, o famoso padre atleticano.

Os casamentos em estádios de futebol têm se mostrado uma tendência. Em uma rápida pesquisa sobre o assunto no Google, por exemplo, encontramos 8.890.000 resultados. É notório que ao perceberem a possibilidade de lucro, os clubes ampliaram o acesso aos seus gramados para a realização de casamentos, mas para os torcedores apaixonados, o que fica evidente é a possibilidade de iniciarem uma nova vida em um local considerado como sagrado e abençoado.

Com gols de Carlos, Maicosuel, Dátolo e Luan, o Atlético goleou o Flamengo por 4 a 1 e reverteu a vantagem de 2 a 0 dos cariocas no primeiro jogo da semifinal da Copa do Brasil 2014. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

Do lado de cá, a relação com o sagrado desta que escreve este texto, não poderia ser diferente. De família atleticana, presenciei desde os dedos cruzados do meu avô durante os jogos do Galo até promessas envolvendo os mais diferentes santos. De todas as superstições e crenças mais malucas que vi de perto, gosto de lembrar da crise que minha família enfrentou durante a semifinal contra o Flamengo na Copa do Brasil de 2014.

Durante o intervalo entre o primeiro e o segundo jogo, uma faxina passou despercebida pelos olhos dos meus irmãos, que não viram que minha mãe tinha mudado a sala completamente de lugar e acrescentado um novo objeto: um tapete vermelho. Na escala Pantone, aquele tapete, hoje escondido, consta como Vermelho-cor-da-camisa-do-Flamengo. Estressados e ansiosos, a presença do novo item na sala só foi notado por meus irmãos na hora do primeiro gol do Flamengo. Não me lembro agora quem percebeu que a sala estava diferente, mas foi de entendimento geral que o novo ambiente com certeza teria permitido o primeiro gol do Flamengo e estava colocando em risco nossa classificação.

Foi o suficiente para começar a guerra. Guerra intensa, mas rápida, afinal, o juiz não parou o jogo para nos ajudar a resolver aquele conflito. Acuada, minha mãe não teve outra opção a não ser concordar com a retirada do tapete e com a nova-antiga posição da sala. Com uma agilidade de dar inveja na equipe dos Irmãos à obra, os móveis voltaram para o lugar original e o tapete foi jogado dentro de um quarto e trancado com chave. 

Antes amado e admirado, agora o tapete vermelho encontra-se empoeirado e escondido envergonhado em um canto da casa. Foto: Arquivo pessoal.

Não preciso dizer que funcionou. O 4 a 1 no Flamengo não apenas nos vingou contra José Roberto Wright, mas também nos levou à final e à conquista da Copa do Brasil em cima de nosso maior rival. A história está aí para provar e para dar mais força às superstições e crenças atleticanas.

Quando Roberto Drummond questionou, em 1987, se o Atlético viveria para sempre “morrendo na praia” e nomeou os fracassos atleticanos de “Síndrome da Morte na Praia”, acabou apresentando um universo de superstições e crenças que só o atleticano compreende e que fazem parte de nossa identidade.

De alguma maneira, o tapete vermelho, aquele maldito tapete vermelho, e os móveis em locais diferentes estavam desalinhando a harmonia do futuro campeão da Copa do Brasil de 2014. É claro que muitas outras eliminações e mortes diagnosticadas como “Síndrome da Morte na Praia” viriam pela frente, mas agora que descobrimos a causa, resta saber qual atleticano está nos prejudicando com um tapete vermelho na sala desde 2015.

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Mariana Brescia

Atleticana, graduada em História pela PUC Minas, pesquisadora do projeto Saberes da Terra (UFMG) e participante do Grupo de Estudos e Pesquisa Memória FC.

Como citar

BRESCIA, Mariana. “Porque mistério sempre há de pintar por aí” (III:) Manifesto contra os tapetes vermelhos. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 1, 2020.
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