Causou polêmica uma declaração recente do técnico da Sociedade Esportiva Palmeiras, sobre a formação de jogadores no Brasil. A propósito de um vídeo que mostrava o jovem Gabriel Verón consumindo bebida alcóolica numa noitada, a consequente multa que o clube lhe impôs e a boa atuação do jogador na partida seguinte, Abel Ferreira destacou a grande capacidade técnica dos futebolistas brasileiros, sublinhando, no entanto, a existência de um défice no que se refere aos aspectos da formação deles como homens.

As reações foram diversas, entre elas uma mais exacerbada foi a de Mauro Cézar Pereira, que qualificou a posição de Abel de colonialista, visto que, sendo português e generalizando seu comentário para os atletas brasileiros, ele teria desprezado o fato de que igualmente jovens futebolistas europeus, inclusive lusitanos, fazem das suas em aventuras etílicas. O Palmeiras prometeu um processo judicial contra o comentarista, o que me pareceu uma contraofensiva desproporcional. Milly Lacombe, responsável por uma das colunas sobre futebol mais lúcidas de que dispomos, também viu ecos do colonizador na postura do comandante alviverde, mas destacou que, de fato, a formação dos homens (em geral, mas obviamente incluindo os brasileiros) ainda deixa muito a desejar.

Abel Ferreira
Foto: Divulgação/Palmeiras

O imbróglio talvez nos diga algo sobre os portugueses, os brasileiros e a relação entre esses povos que falam a mesma língua. Há três anos Mathias Alencastro escreveu um tão instigante quanto breve texto em que opõe os estilos de Jorge Jesus e de José Mourinho, não exatamente em relação ao que seus times fazem em campo, mas ao que representam como expressões de distintas épocas: “Um fadista no banco de reservas. Sempre vestido de preto dos pés à cabeça, uma homenagem à sua amada Mãe, Jorge Jesus costumava acompanhar o jogo sentado perto da linha lateral. (…) Com a sua crista prateada e o seu jeito de taxista da Baixa lisboeta, Jesus destoa no universo do cada vez mais formatado e regulamentado do futebol mundial. Avesso a redes sociais, estranho quando sai na capa das revistas dos famosos, Jesus é um dos últimos representantes do Portugal rude e arcaico das casas em ruínas, do vinho tinto pesado e das tascas gordurosas, abandonado por uma nova geração de consumidores de Airbnb, latte e poke bowls”. Por outro lado, “Ícone desse Portugal limpinho e cheiroso, globalizado e elitista, José Mourinho passou pelos melhores clubes do mundo até ser relegado ao papel ingrato de anti-herói de outra figura do futebol pós-moderno, Pep Guardiola. Metrossexual poliglota, frequentador das galas filantrópicas e sócio de empresas de offshore, Mourinho anunciou recentemente que estava aprendendo a sua sexta língua, o alemão, como se estivesse se preparando para vencer o Nobel de economia”[1].

Se Jesus e Mourinho podem ser tomados como tipos ideais, Abel estará em algum lugar entre um e outro, quem sabe em posição equidistante. Destaca o trabalho mental de sua equipe, mantem-se em evidência durante as partidas ao constantemente reclamar da arbitragem, e também fala das saudades da família e lamenta não ter comparecido à primeira comunhão do filho. Nas diferentes experiências que sobrevivem em simultaneidade em Portugal, funda-se também um imaginário sobre si e a respeito do Brasil. Um dos fatores a compor as autoimagens do país da ponta atlântica da península é seu caráter europeu, precariamente estabelecido por relações políticas e econômicas desiguais com os grandes do continente; outro, em parte derivado do primeiro, é o lugar que o Brasil ocupa no quadro de expectativas que o antigo colonizador gera sobre sua ex-colônia. Não é raro que o europeísmo fragilizado se manifeste com certa evocação de um passado colonial já superado.

Jorge Jesus
Jorge Jesus. Foto: Alexandre Vidal / Flamengo / Fotos Públicas

Mas há também o que por aqui se gera como narrativa a respeito de Portugal. Era muito comum até alguns anos que brasileiros fizessem piadas de mal gosto sobre os lusitanos, vistos como ingênuos e simplórios, quando não obtusos, o que se viu reforçado, nos anos 1990, com produtos de entretenimento como a série televisiva O quinto dos infernos, de Wolf Maya, e o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati. Nada mais falso, como escrevia naquela mesma década Otávio Frias Filho. De tolos, os portugueses nada têm. Basta lembrar o sucesso diplomático de manter-se com alguma relevância, mesmo perdendo seus territórios na África e na Ásia, e sendo um produtor industrial desimportante. Dois séculos antes, João VI, retratado no cinema como um glutão aficionado por coxas de frango, salvou a corte ao trazê-la para o Brasil, manteve o reino unido e esperou Napoleão perder força para regressar a Portugal. De quebra, fez o filho regente no Brasil, logo tornado, há exatos 200 anos, imperador local.

O futebol tem suas estranhas dinâmicas. Nas duas melhores participações de Portugal em copas do mundo, sua seleção foi dirigida por treinadores brasileiros: em 1966, o terceiro posto na Inglaterra teve no banco de reservas Otto Glória; na Alemanha, 40 anos depois, o comandante do quarto lugar foi Luís Felipe Scolari. Entre ambos, Paulo Autuori levou o pequeno Marítimo à Copa da UEFA (1993-1994) e Carlos Alberto Silva fez história no Futebol Clube do Porto, com um bicampeonato nacional nas temporadas de 1991-1992 e 1992-1993. Agora o movimento se dá na direção oposta, em especial depois da vitoriosa passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo. Vejam só, ter um técnico vindo do além-mar dirigindo a equipe virou sinônimo de modernidade e expectativa de sucesso, mais ou menos como aconteceu, quase ao mesmo tempo, em relação a profissionais argentinos, após as exitosas campanhas, mesmo sem ter alcançado títulos, de Jorge Sampaoli.

Abel Ferreira, em especial, e Vitor Pereira, no Corinthians, têm realizado excelentes trabalhos, enquanto António Oliveira se destacou no Athletico e agora faz o que pode no Cuiabá.  Já houve quem dissesse que o primeiro desrespeita a arbitragem brasileira e o país com suas constantes reclamações. Desrespeitosa e sem sentido foi essa crítica feita ao treinador do Palmeiras. Quanto ao que disse sobre a formação humana dos jovens brasileiros, ele está coberto de razão. Escutemos, brasileiros e portugueses, uns aos outros, deixando qualquer traço xenofóbico de lado, tentando superar traumas e ressentimentos. Acreditemos na ideia de que falamos a mesma língua.

Ilha de Santa Catarina, julho de 2022.

Nota

[1] Em oposição a Mourinho, Jesus representa Portugal rude e arcaico. Folha e São Paulo, 25/10/2019. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2019/10/em-oposicao-a-mourinho-jesus-representa-portugal-rude-e-arcaico.shtml.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Portugal, o Brasil, o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 31, 2022.
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