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Predestinada Chape: a história depois do desastre

Na madrugada de 29 de novembro de 2016 aconteceu a maior tragédia do futebol brasileiro. Há quatro anos, o voo LaMia 2933 sem combustível e cheio de ganância encerrou a ascensão Condá num morro dos arredores de Medellín, no momento em que a glória se mostrava possível para o pequeno clube catarinense. O trauma poderia resultar numa derrocada inevitável, mas a Chape ainda luta para estar entre os grandes, mesmo sendo gigante esse clube chamado Chapecoense.

Foto: Sirli Freitas/Chapecoense

Quando as primeiras desencontradas informações começaram a chegar ao Brasil, muita gente não acreditava que aquele simpático time havia sido vítima de um desastre. Nas primeiras horas da manhã, a esperança era pelos nomes dos sobreviventes, mas logo ficou claro que a lista era pequena, mais precisamente seis pessoas escaparam e 71 vidas foram perdidas.

O caótico cenário de falta de informação logo deu espaço aos tristes boletins jornalísticos que confirmavam os nomes dos atletas, dirigentes e jornalistas mortos no fatídico acidente.

Em poucos dias, o Brasil assistiu atônito e submerso numa tristeza ímpar, o luto pela jovem equipe catarinense. O velório coletivo no gramado da Arena Condá é uma das cenas mais fortes da história do futebol brasileiro. A entrevista de dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo, seguida do abraço no repórter do SporTV Guido Nunes é ainda hoje uma das coisas mais emocionantes e cheias de significado daquela tragédia.

Cerimônia em Homenagem às Vítimas do Acidente com Avião da Chapecoense.
Foto: Beto Barata/Fotos Públicas.

No entanto, quando o impacto dos primeiros dias passou — para o público é claro, pois para os familiares a dor deve ser constante—, a pergunta que pairava no ar era como a Chapecoense continuaria depois daquilo? Que clube teria fibra para manter as atividades depois de perder um time inteiro e praticamente toda a cúpula diretiva? Em resumo, a Chapecoense continuaria a existir após tamanha tragédia?

Exemplos de outros desastres com delegações de times começaram a aparecer na imprensa como forma de guiar os próximos passos da Chape. O que ninguém sabia era que, como Deva Pascovicchi profetizou na defesa final de Danilo, “o espírito da Condá” não abandonaria a Chapecoense e alguns momentos marcariam de maneira única a ressurreição do clube.

Chape x Palmeiras: a volta do “vamo, vamo, Chape!”

A primeira partida após o acidente aconteceu em 21 de janeiro de 2017. Na Arena Condá, a Chape remontada com jogadores recém contratados cedidos em condições especiais por outros clubes e atletas promovidos de sua base, enfrentou o Palmeiras, que havia vencido o Brasileirão 2016, justamente no último jogo antes da viagem sem volta.

Com ares de renascimento, a entrada em campo contou com as presenças de Alan Ruschel, Neto e Jackson Follmann, únicos atletas sobreviventes do acidente. Em estado gravíssimo, Follmann havia tido alta hospitalar apenas dois dias antes daquela partida.

Sobreviventes da tragédia com o avião da Chapecoense entram em campo para receber a Taça da Sul-Americana. Foto: Sirli Freitas/Chapecoense.

Apesar de ser um amistoso e pela condição obviamente não ser possível analisar a atuação dos times, a partida teve muito mais significado fora de campo. O placar encerrado num empate por 2 a 2 pouco contou a história de superação daquele clube que menos de dois meses antes havia passado pela maior tragédia da história do futebol.

Muito mais que futebol: o jogo da amizade 

Apenas quatro dias depois, mais um passo em direção à recuperação da Chape. Num misto de homenagem e ação para arrecadar fundos que seriam destinados ao clube catarinense, a Seleção Brasileira enfrentou a Colômbia, em amistoso disputado no estádio Nilton Santos.

Por conta da solidariedade do povo colombiano, tanto nos primeiros momentos após o acidente quanto depois, na atitude dos dirigentes do Atlético Nacional em ceder o título da Copa Sulamericana à Chape, o amistoso entre Brasil e Colômbia foi chamado de jogo da amizade.

Mais uma vez, o que se viu em campo foi muito mais o significado fora das quatro linhas, pois Dudu anotou o gol que garantiu o 1 a 0 para os brasileiros. Pobre em bola rolando, o objetivo principal também não foi alcançado, apenas 18.695 pagantes estiveram nas arquibancadas do Nilton Santos e proporcionaram a renda de R$ 1.219.675,00 repassada ao clube.

Meses depois, em agosto, o Barcelona também entrou na onda de solidariedade e abraçou a Chape com o convite para a disputa do tradicional Troféu Joan Gamper, no Camp Nou. O placar de 5 a 0 para os catalães não foi mais importante do que a presença da Chapecoense num dos principais palcos do futebol mundial.

A partida também marcou o retorno de Alan Ruschel aos gramados após o acidente. Entre os três sobreviventes, somente Ruschel segue em atividade atualmente.

As campanhas ruins e o primeiro rebaixamento

O início da temporada 2017 não deixava dúvidas de que a Chapecoense continuaria em atividade. No entanto, a imprevisibilidade sobre a sequência do clube deixava um ponto de interrogação em relação a permanência da Chape na Série A.

A proposta de não rebaixamento por três temporadas que foi ventilada no fim de 2016 e que foi recusada pela nova diretoria chapecoense era uma expressão do que seria o caminho mais provável.

Além de encarar os tradicionais clubes na elite do futebol brasileiro, com o título da Sulamericana, a Chape estava classificada para a Libertadores da América pela primeira vez em sua história. Num grupo com Nacional, Lanús e Zullia, os catarinenses até fizeram campanha regular, mas foram punidos pela escalação irregular do zagueiro Luiz Otávio e acabaram eliminados ainda na fase de grupos.

Nacional e Chapecoense pela Copa Libertadores de 2018. Foto: Sirli Freitas/Chapecoense.

O motivo da desclassificação levantou rumores sobre a desorganização no clube e aumentou o temor pelo rebaixamento. Ao fim da temporada, a Chape não sofreu sustos e terminou em oitavo lugar com 54 pontos.

Em 2018 a história já foi diferente e com 44 pontos na décima quarta colocação, a Chape ficou apenas dois pontos acima do último clube rebaixado. Na temporada seguinte, porém, não houve saída e o rebaixamento aconteceu com o clube somando apenas 32 pontos e terminando o campeonato na vice-lanterna.

A Série B 2020

Concretizado o rebaixamento, a Chape poderia seguir o caminho mais óbvio e despencar às divisões inferiores, mas quando a Série B começou em agosto desse ano, o time da Condá iniciou uma temporada de recuperação e a caminhada parece ser rumo à Série A 2021.

Líder absolta com sete pontos a frente do segundo colocado e 10 de vantagem para o quinto lugar, não é exagero dizer que a Chape está com um pé na elite do futebol brasileiro com quase um turno ainda em disputa.

Fora de campo, porém, algumas questões ainda precisam de resolução e as indenizações aos familiares das vítimas é a mais urgente. Entre muitos episódios desse imbróglio, em maio de 2019, a diretoria chapecoense anunciou o acordo com 20 famílias para pagamentos que totalizavam 14 milhões de reais.

Já em outubro de 2020, uma decisão da corte estadual da Flórida, nos Estados Unidos, deu procedência ao pedido de indenização das famílias de 40 vítimas, o valor chega a U$$ 877 milhões — quase R$ 5 bilhões pelo câmbio.

Tanto em campo quanto fora dos gramados, o processo de recuperação da Chapecoense ainda deve levar alguns anos, pois nenhum clube seria capaz de se reerguer de tamanha tragédia sem cicatrizes.

O ineditismo da situação também faz o caminho mais difícil, mas passados quatro anos daquela madrugada em Medellín, a grandeza da Chapecoense em suportar isso tudo só faz com que o “vamo, vamo, Chape!” continue mais vivo do que nunca.

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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Predestinada Chape: a história depois do desastre. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 53, 2020.
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