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Protetorado de Sarre: O esporte na “Alemanha esquecida”

Copa Além da Copa 25 de março de 2022

O fim da Segunda Guerra Mundial levou à divisão da Alemanha entre zonas de influência ocidental e soviética, que se converteriam nas Alemanhas Ocidental e Oriental. Havia, contudo, uma terceira Alemanha esquecida, a do Protetorado de Sarre.

Criada e administrada pela França, essa pequena nação de vida curta é normalmente esquecida nos livros de história, embora tenha marcado presença em eventos esportivos importantes, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. É pensando no resgate dessa história que este texto foi escrito.

Ele é um complemento ao Copa Além da Copa de março de 2022, sobre o futebol na reconstrução alemã do pós-guerra. Para ouvi-lo, clique aqui!

Sarre: de república francesa a resistência antinazista

A região do Sarre fica no atual sudoeste alemão, fazendo fronteira com Luxemburgo e França. Como muitos territórios fronteiriços da Europa Ocidental, ela foi disputada e reivindicada por diferentes reinos e impérios ao longo dos séculos. Seus habitantes mais antigos, por exemplo, foram os celtas e os francos, e o Sarre chegou a fazer parte do Império Carolíngio.

Dividida em pequenos territórios, a região era habitada por falantes de alemão, mas algumas de suas partes eram administradas e influenciadas pela França. Aliás, o Sarre chegou a ser parte da república após a Revolução Francesa, em 1792, mas passou para o domínio prússio quando Napoelão caiu. Depois, foi o local onde se acendeu a fagulha da Guerra Franco-Prussiana, essencial para a unificação alemã sob Otto von Bismarck em 1871.

Como parte do Império Alemão, a região viveu décadas prósperas devido às suas minas de carvão, num período de forte industrialização alemã. Mas as feridas da guerra ainda estavam abertas e, com elas, vieram a Primeira Guerra Mundial e o fim do Império Alemão. Assim, o Sarre e suas minas passaram ao controle da França. 

Com a ascensão nazista no entreguerras, muitos alemães que se opunham a Hitler migraram para o Sarre, já que era a única região do país que ainda estava fora do alcance do Führer. Mas esse status foi alterado em 1935, quando um referendo mostrou que mais de 90% da população local queria fazer parte da Alemanha. 

Sarre
Fonte: Wikipédia

A terceira Alemanha

Ao fim da Segunda Guerra, em 1945, a Alemanha foi ocupada e dividida entre os Aliados: EUA, União Soviética, Reino Unido e França, cada um ficou com um pedaço. O Sarre, embora ficasse próximo à zona de ocupação francesa, foi convertido em 1946 num protetorado à parte, para que não estivesse sob as regras do Conselho de Controle dos Aliados sobre a Alemanha.

Por causa das minas de carvão, o Sarre era importante para a indústria do aço, que, por sua vez, era importante para a produção de munição. Assim, mesmo os EUA apoiaram que a França ficasse com a região sob seu domínio, dado o histórico entre franceses e alemães. Entre a Guerra Franco-Prussiana e as duas guerras mundiais, a Alemanha havia invadido a França três vezes em 70 anos. 

É por isso que, embora a zona de ocupação francesa aos poucos fosse sendo unida às zonas britânica e estadunidense, formando um novo país, a Alemanha Ocidental, o Protetorado de Sarre permaneceu separado desse processo, ainda sob domínio francês. Então, além da Alemanha capitalista e da Alemanha socialista, tivemos durante um breve período a existência de uma terceira Alemanha, aquela sob domínio francês.

O Protetorado de Sarre teve vida curta, entre 1946 e 1956, já que o sucesso da reconstrução da Alemanha Ocidental levou a população a querer se juntar ao país. Essa vontade foi manifestada em referendo em 1955, em que quase 70% dos eleitores rechaçou a ideia do Sarre como um país independente.

Sarre
Bandeira do Protetorado de Sarre. Fonte: Wikipédia

A seleção do protetorado

Entre os escombros da guerra, os saarlandeses precisavam do futebol tanto quanto os alemães para se reeguerem. Assim, foi fundada uma federação própria no protetorado em 1948. O governo do Sarre era a favor de que ela fosse colocada sob administração da federação francesa, diminuindo a influência alemã no país. Mas essa ideia foi recusada pelos cartolas, que queriam, afinal de contas, mandar na sua seleção sem a França se meter.

Após a guerra, a FIFA baniu a Alemanha do futebol internacional, e por isso nenhum Estado alemão disputou a Copa do Mundo de 1950. Mas, depois do Mundial, com a situação apaziguada, as portas se abriram. Com base no fato de ser um Estado independente reconhecido pelas Nações Unidas, o Sarre se candidatou à filiação na FIFA. Obteve assim a permissão para ter sua seleção três meses antes que a Alemanha Ocidental fizesse o mesmo, e dois anos antes de a Alemanha Oriental ser reconhecida pela FIFA.

O Protetorado de Sarre chegou a disputar as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954, lutando pela vaga contra Noruega e Alemanha Ocidental (que acabaria sendo campeã mundial). A única vitória veio fora de casa contra os noruegueses, com um 3 a 2 em Oslo que talvez tenha sido a maior glória da seleção saarlandesa.

Durante sua breve vida, a seleção do Protetorado de Sarre foi treinada pelo lendário técnico Helmut Schön. Após o fim do Sarre independente, ele assumiria a seleção da Alemanha Ocidental e seria campeão europeu com ela em 1972 e campeão mundial em 1974. 

Helmut Schön
Helmut Schön. Fonte: Wikipédia

Saarbrücken: um grande clube na pequena região

Fundado em 1907, o Saarbrücken, da cidade homônima que foi a capital do Protetorado de Sarre, não era exatamente um clube vitorioso no futebol alemão do entreguerras. A estrutura do esporte era totalmente regionalizada naquela Alemanha, com dezesseis divisões diferentes, cujos vencedores depois se enfrentavam em sistema de playoffs. Uma única vez a equipe atingiu as quartas de final desse sistema.

Mas como principal clube da principal cidade do Protetorado de Sarre, região tão importante e cara à França, o Saarbrücken recebeu um convite para disputar a segunda divisão francesa em 1948-49. Era conhecido como Sarrebrücken.

Tal convite, é claro, tinha muita política envolvida: quanto mais se “afrancesasse” o Protetorado de Sarre, melhor. O comissário da região, Gilbert Grandval, queria eliminar ao máximo a influência alemã em língua, cultura e relações internacionais.

A ideia de convidar o Saarbrücken para a segundona francesa parecia excelente, portanto, já que geraria uma grande integração. Mas foi um tiro que saiu pela culatra: a equipe do Protetorado de Sarre venceu a competição com grande facilidade (chegou a ter goleadas por 10 a 1 e 9 a 0 no certame), ganhando o direito de promoção para a elite do futebol francês.

Se integração era o que os franceses queriam ao convidar um clube do Protetorado de Sarre para a liga francesa, com boa parte da população francesa o mesmo não ocorria. Os alemães ainda eram vistos como grandes inimigos, e o Saarbrücken era, apesar de tudo, um clube com identidade alemã: seus atletas tinham nomes alemães, falavam alemão, até poucos anos atrás se liam como alemães.

A tradição era que o presidente da França levasse um troféu e medalhas aos campeões, mas tal cerimônia com alemães era inconcebível. O Saarbrücken não recebeu nenhuma taça e nenhum bem físico pela campanha. Mas, além disso, a promoção nunca aconteceria, já que os clubes da primeira divisão votaram contra a inclusão da equipe do Protetorado de Sarre.

Houve tanta saia justa com a situação que até o poderosíssimo Jules Rimet, que então compartilhava os cargos de presidente da Federação Francesa de Futebol e da FIFA, renunciou ao seu cargo na primeira por não concordar com a decisão dos clubes.

Sem competições organizadas na Alemanha da época e com os demais clubes do Protetorado de Sarre sendo muito fracos, o Saarbrücken ficou preso em um vácuo. Arranjou amistosos e viajou pela Europa, chegando a enfiar sonoros 4 a 0 no Real Madrid no Santiago Bernabéu. Tudo isso era pouco.

Anos depois, em 1955, o Saarbrücken ainda representou o Protetorado de Sarre na edição inaugural da Copa dos Campeões da Europa, atual Champions League. Como contamos no podcast, venceu o Milan fora de casa por 4 a 3, resultado histórico, mas acabou perdendo por 4 a 1 em casa e sendo eliminado. No ano seguinte, o país já deixara de existir após se reintegrar à Alemanha Ocidental.

O Saarbrücken participou da edição inaugural da Bundesliga, em 1962-63, mas ficou na lanterna. Subiu ao principal degrau do futebol alemão outras três vezes, a última em 1992-93, sendo sempre imediatamente rebaixado. Disputa agora a terceira divisão, mas em 2020 teve um pequeno brilho que relembrou os momentos de grandiosidade do passado: chegou à semifinal da DFB Pokal.

FC Saarbrücken
Escudo do FC Saarbrücken. Fonte: Wikipédia

Um protetorado olímpico

Com o seu comitê olímpico fundado em 1950, o Protetorado de Sarre pôde disputar os Jogos Olímpicos de 1952. Era elegível tanto para os de inverno, quanto para os de verão.

Uma região cuja principal atividade sempre fora a mineração de carvão, o Protetorado de Sarre não enviou nenhum atleta para os Jogos Olímpicos de Inverno de 1952, mas colaborou ao doar um dispositivo de segurança, normalmente usado em minas, que permitia que a tocha olímpica pudesse viajar de avião sem qualquer risco.

Nos Jogos de Verão, em Helsinque, a história foi diferente: um total de 50 atletas disputou as competições, sendo 44 homens e 6 mulheres. Infelizmente, nenhuma medalha foi conquistada. Quem chegou mais perto foi a jovem canoista Therese Zenz, então com dezenove anos de idade, nona colocada no K-1 de 500 metros.

Ao contrário de hoje, a canoagem era disputada em mar aberto nas Olimpíadas de 1952. As geladas águas do Mar Báltico foram o palco da competição, o que faz do resultado da jovem ainda mais impressionante.

Mais tarde, Therese Zenz ganharia três medalhas de prata para a Alemanha, que participava unida dos Jogos Olímpicos, em 1956 e 1960.

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Copa Além da Copa

Perfil oficial do Podcast Copa Além da Copa. A história, a geopolítica, a cultura e a arte que envolvem o mundo dos esportes.

Como citar

COPA, Copa Além da. Protetorado de Sarre: O esporte na “Alemanha esquecida”. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 28, 2022.
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