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Que horas são?

Marcos Teixeira 12 de dezembro de 2016

Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho no relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

BELO HORIZONTE / BRASIL (11.12.2016) jogo entre Cruzeiro e Corinthians, pela 38ª rodada do Campeonato Brasileiro, no Mineirão, em Belo Horizonte. © Gualter Naves/Light Press/Cruzeiro
Homenagens ao clube Chapecoense no jogo entre Cruzeiro e Corinthians, pela 38ª rodada do Campeonato Brasileiro, no Mineirão. Foto: Gualter Naves/Light Press/Cruzeiro.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Totthenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool. “You’ll Never Walk Alone“. O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?

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Marcos Teixeira

Jornalista, violeiro, truqueiro e craque de futebol de botão. Fã de Gascoine, Gattuso, Cantona e Rui Costa, acha que a cancha não é lugar de quem quer ver jogo sentado.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. Que horas são?. Ludopédio, São Paulo, v. 90, n. 6, 2016.
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