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Questões raciais: reflexões no campo educacional e esportivo

Ao iniciar essa conversa, quero dizer que estou realizando nos últimos anos a minha própria desconstrução, tenho procurado aprender e compreender sobre minha identidade e ancestralidade. Um processo que passa pelo reconhecimento e valorização, um exercício que se faz constante, só o debate pode desvelar as práticas naturalizadas e como gosto de dizer remover os constrangimentos.

Quando falo constrangimento, recordo da fala de um colega professor que fez o convite para que com outros dois colegas (uma professora e um professor também negros) participássemos de uma conversa sobre racismo. Realizamos uma reunião de preparação/organização e logo no início o organizador, disse: – professores, estou constrangido, não sei como falar com vocês! A preocupação dele era genuína, ele queria proporcionar um ambiente agradável, uma conversa prazerosa, mas naquele instante percebeu estar desconfortável. O constrangimento estava silenciando-o, logo, conseguiu perceber e estender essa situação para a sala de aula, identificou que quando realizava debates sobre o tema racismo, o constrangimento promove um silêncio que impede aprofundar inúmeras questões.

Abrir a conversa com este relato faz refletir a respeito da formação dos professores, ponderando, a partir do título, sobre o campo educacional e Educação Física. Não quero me alongar a respeito do papel da escola, acredito que compreendemos sua função na sociedade moderna.

A escola não está fora da sociedade, portanto os valores culturais podem ser observados durante os processos sociais de interação dos indivíduos. Questões como racismo, gênero, diferenças corporais e de inclusão (capacitismo), são vivenciadas de maneira brutal e violenta na escola e na disciplina/componente curricular Educação Física. Estas questões são importantes, pois, podem ser observadas por ações como: palavras, comportamentos, invisibilidades, risadas etc.

A conversa sobre questões raciais não deve estar restrita apenas a escuta da população negra. Um esforço de luta contra o racismo não basta, como alardeado por Ângela Davis precisamos ser antirracistas, nesse caso é um movimento de desconstrução pessoal, pois, antecipo, transformo, faço meu ensimesmamento visando rever posturas que não devem continuar se repetindo.

Angela Davis
Angela Davis. Fonte: Wikipédia

O preconceito é um empecilho, pois, a partir de pré-noções, pré-conceitos ou opiniões, tomamos decisões e julgamos o outro de maneira desfavorável. Com base em estigmas, marcadores que identificamos na aparência do outro, os estereótipos, agimos com maior ou menor sociabilidade. Oracy Nogueira nos ajuda entender que no Brasil a cor da pele e os traços corporais negroides, são definidores do preconceito de marca.

Os preconceitos encarados como modelos mentais nos conduzem a uma segunda expressão, discriminação, o ato ou ação de discriminar. O efeito é a separação, segregação e distinção dos indivíduos, atribuindo que alguns são melhores e iguais, outros, piores e diferentes. No contemporâneo, uma nova palavra acompanha nosso cotidiano, a injúria. Nesse caso, destacamos a injustiça, aquilo que é contrário ao direito. Se com base em preconceito realizo atos discriminatórios estou atacando o direito do outro, o principal deles, sua condição de humano.

Pensar, mesmo, de maneira muito superficial e linear como essas três palavras, preconceito, discriminação e injuria estão relacionadas, permite um exercício bastante didático para perceber os impactos e consequências de cada uma. No cenário que vivemos a intolerância racial é uma das consequências, baseada na falta de conhecimento dos processos que orientam esse modelo mental discriminatório. Portanto, reconhecemos como racismo, uma ideia, uma crença, uma teoria, uma doutrina que hierarquiza as pessoas aceitando que um grupo é superior ao outro. Como doutrina o racismo invade espaços, se dissemina por discursos e narrativas que se tornam hegemônicas, logo, naturalizadas.

Outras palavras, como: raça, branqueamento, colorismo, mestiçagem, invisibilidade, empoderamento, representatividade etc., revelam as disputas e os confrontos na busca constante para desconstruir os valores hegemônicos de base racista. Esses valores estão na estrutura da sociedade, reconhecidos como racismo estrutural que orienta posturas que são institucionalizadas, o conhecido racismo institucional. A partir dele decidimos quem vive ou quem morre, quem recebe atendimento de saúde ou não, quem deve ser acolhido ou não, quem elogiar ou não, quem incentivar ou não, em quem investir ou não, quem contratar ou não, com quem ser mais paciente ou não, quem requer vigilância ou não etc.

Os números da desigualdade racial no país são alarmantes e, infelizmente, refletem uma parte do que a população negra enfrenta, por isso, é comum se identificarem como sobreviventes. O Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol de 2021,[1] elaborado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol,[2] apresenta essa realidade na modalidade esportiva de maior destaque no país. Inúmeros outros relatórios de diversas áreas confirmam os dados, uma triste realidade brasileira.

Observatório da Discriminação Racial no Futebol
Fonte: Observatório da Discriminação Racial no Futebol

Outra maneira de perceber a desigualdade é realizar o teste do pescoço. Um ato simples e que não precisa dedicar tempo a leitura e análise de dados. Comece a olhar para o lado nos espaços que você frequenta, no shopping, restaurante, cinema, sala de aula, escola, universidade, nas ocupações de menor prestígio social e nas de maior, identifique quantos negros e quais posições ocupam? Apenas movimente a cabeça.

Percebemos nessa observação e, posterior constatação, que a maior ou menor presença de pessoas negras está relacionada aos condicionantes sociais, refletindo na racialização das posições sociais e não em uma suposta inferioridade biológica, emocional ou cognitiva. Se após essa observação, continuarmos aceitando a inferioridade como determinante, tenho que dizer: eu, você, nós, somos racistas! Não precisamos ser partidários ou pertencer a grupos supremacistas para professar o racismo, aceitar valores que moldam essa doutrina é o suficiente.

Quando proponho conversar sobre o tema do racismo, geralmente, oriento a minha fala a partir da teoria, conceitos e vou descrevendo seus desdobramentos. Estou fazendo um movimento diferente no texto, comecei percebendo seus efeitos e como eles são orientados por uma teoria racista, então hegemônica. A escolha foi proposital para refletir sobre a necessidade de promover rupturas nesse processo. Preciso deixar claro, não estamos combatendo os indivíduos ou propondo uma nova teoria racial. A luta é contra a reprodução da doutrina racista expressa por meio do preconceito, da discriminação e da injúria.

Um dos dispositivos para propor rupturas está na legislação, a criação de leis. Temos leis importantes que significam passos necessários na busca por transformação, entre elas: Lei 7.716/1989 – Crime de racismo; Lei 9.459/1997 – Crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional; Lei 10.639/2003 – estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira; Lei 11.645/2008 – obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira e Indígena; Lei 12.288/2010 – Estatuto da Igualdade Racial; e, Lei 12.711/2012 – regulamentação das ações afirmativas em universidades e institutos federais.

As leis descritas, falam sobre as questões raciais na sociedade, algumas são mais pontuais para a educação, como a obrigatoriedade da temática no conteúdo curricular e a regulamentação das cotas raciais. Ações que precisam ser entendidas, o mais breve possível, como prospectivas e não retrospectivas. Quando falamos em prospectivas, é projetar uma transformação, isto é, mudanças que permitam daqui a alguns anos não ser mais necessário realizar o teste do pescoço. Um caminho longo precisa ser percorrido, o trem da história está passando, precisamos escolher entrar nele ou ficar. O que significa entrar nele?

Primeiro, reconhecer o racismo naturalizado nas instituições, como ele estrutura as relações e como promove sua reprodução. Não será por um toque de mágica que a transformação irá acontecer, ela é um processo. Precisamos dar passos em direção a sua superação, por essa razão gosto de dizer que no jogo/partida contra o racismo a escolha de jogar pelo empate não basta. O constrangimento do ou sobre o tema deve mobilizar o estudo pessoal, não conseguiremos ensinar aquilo que desconhecemos.

Conversar abertamente, é primordial. Em seguida, ao despertar à consciência, começamos a evitar algumas práticas (piadas, comentários pejorativos etc.) e passo a incluir outras como revisar minhas atitudes e os meus referenciais teóricos.

Estas são ações simples que permitem transformações, mas infelizmente, ainda continuamos identificando na formação dos educadores a ausência de um robusto debate racial. A invisibilidade dos autores negros na ementa das disciplinas e ênfase nas práticas corporais eurocêntricas. Quando pensamos sobre o título da conversa, identifico a palavra reflexão, e aproveito para dar um exemplo pontual de como embarcar no trem da história. Uma frase que acredito todos já terem ouvido em algum momento, refere-se a um menino negro quando este se destaca como velocista, escutamos: – negros são bons velocistas porque estão acostumados a fugir da polícia. Lastimável, eu já escutei na adolescência isso dos meus colegas!

Para realizar uma reflexão, qual o papel do professor ao ouvir a frase? Intervir de imediato? Propor uma discussão? Organizar uma nova aula a partir dessa afirmação? São inúmeras as alternativas, uma coisa é certa, só não pode deixar de discutir ou tensionar tais alegações. O professor tem uma grande oportunidade para desconstruir a frase, um apelo que faço é: – não perca a oportunidade!

Precisamos não mais dedicar tantos esforços combatendo o racismo, identificando onde e como se apresenta. Devemos ser antirracistas, isto é, colocar em prática as ações que transformam. Não é nada fácil, começamos reconhecendo o constrangimento que o tema causa e em seguida avançamos com efetivo posicionamento, pois devemos falar sobre os estudantes. Quando falamos sobre os estudantes as questões raciais e outras interseccionalidades estarão presentes, se elas não fazem parte do nosso planejamento, significa que o constrangimento ainda está nos silenciando.

Notas

[1] Disponível em: FUTEBOL, Observatório da Discriminação Racial no; UFRGS, Museu da. Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2021. Porto Alegre: Museu da UFRGS, 2022.

[2] Disponível em: https://observatorioracialfutebol.com.br/

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Daniel Machado da Conceição

Doutor em Educação, Mestre em Educação e Cientista Social pela UFSC. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC/UFSC), Grupo Esporte & Sociedade.

Como citar

CONCEIçãO, Daniel Machado da. Questões raciais: reflexões no campo educacional e esportivo. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 15, 2022.
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