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Raça e preconceito no futebol brasileiro: miscigenação, identidade nacional e identidade negra

Programa de Pós-Graduação em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPGREC
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB
Órgão de Educação e Relações Étnicas/ODEERE

 

Este texto teve como inspiração a excelente participação da grande pensadora Sueli Carneiro no programa de entrevistas Mano a Mano, com o rapper Mano Brown. Dentre os muitos assuntos tratados com rigor e vigor pela dupla, ficaremos aqui com a afirmação sobre o “embranquecimento” recente dos jogadores de futebol no Brasil e seu reflexo na seleção nacional.

Assunto que deu o que falar, não só nos programas esportivos e mesas redondas, mas em matérias jornalísticas e mesmo grupos de pesquisas acadêmicas.

Sueli Carneiro Mano Brown
Sueli Carneiro e Mano Brown. Foto: Jef Delgado / Spotify/Divulgação

Pois bem, o debate sobre raça e preconceito no futebol brasileiro é um daqueles temas que pode ser descrito como fundante da sócio-antropologia no país. Desde os clássicos de Rosenfeld e Mário Filho, que com distintas perspectivas relataram a presença do negro na sociedade no período após a Abolição e as levas de imigração europeia. Passando pela obra de Simoni Guedes, sempre tida por pioneira (Toledo e Costa 2022) e que por sorte será em breve relançada pela Editora Ludopédio. Nesta inicial dissertação, Simoni destaca as transformações trazidas pela imagem do negro: do “culpado” Barbosa de 1950 e o vice-campeonato, para a redenção do Rei Negro Pelé, com intervalos a debater o “complexo de vira-latas” e a deficiência física trazida pela miscigenação na preparação para a malfadada copa de 1966.

Fato é que a miscigenação e teses sobre embranquecimento foram trabalhadas por autores ainda mais antigos. Desde os “deterministas raciais”, como Oliveira Viana, Nina Rodrigues e Silvio Romero, para quem a miscigenação era um problema e o embranquecimento da população poderia ser uma solução; até os “deterministas culturais”, como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, que apostavam na positividade da miscigenação, no assimilacionismo e na construção do “mito da democracia racial”. Entre valorações positivas e negativas, a miscigenação era tomada como parte da construção de uma identidade genuína, típica, que buscava enfatizar as características da democracia dos trópicos.

Entretanto, não é de hoje também que autores e pesquisadores, sobretudo os negros e negras, enfatizam a falácia dessa construção, pautada muito mais na exploração e violência corporal, sexual e simbólica, do que em suposta benevolência e intimidades entre o homem, europeu, branco e as mulheres negras e indígenas. Nesse ponto, raça passa a ser considerado um termo relacional. Seja em relação a preconceito, com autores como Oracy Nogueira e a distinção entre preconceito de marca e preconceito de origem, ou ainda Florestan Fernandes e o “preconceito de ter preconceito no país”. Para autores como Carlos Hasenbalg, raça vai ser tomada contrastivamente com classe para pensar as relações entre discriminação racial e desigualdade social.

Já para Abdias do Nascimento, o preconceito racial no país faz parte do que ele chama por “genocídio”, fazendo do negro vítima ao longo da história, sem o ato do genocídio, mas o processo, inclusive, ao promover o apagamento da identidade negra. Raça, deste modo, é trabalhada a partir da questão da identidade, de onde a obra de Kabengele Munanga é certamente a mais completa, seja para mostrar a construção histórica do conceito de mestiçagem, seja para mostrar como é essa construção a responsável pela tomada dos símbolos adscritivos das populações negras e indígenas em nome de uma identidade nacional.

Ainda, a ideia de identidade nacional, única, operando contra a ideia de identidades múltiplas, transformando os símbolos positivos como brasileiros e o que se considera negativo como “defeitos” da miscigenação. Para Munanga, numa perspectiva metodológica comparativa com os EUA, o racismo no Brasil seria diferente, exatamente por querer apagar as identidades múltiplas em nome de uma identidade única, totalizadora e não diferencialista.

É aqui que o futebol volta ao campo. O tema da identidade nacional em torno do futebol foi tratado desde, pelo menos, os trabalhos de Roberto DaMatta (ver Toledo 2009 para uma abordagem comparativa entre identidade brasileira e argentina em relação a dois de seus grandes interpretes, DaMatta e Eduardo Archetti).

E é justamente uma mulher negra a nos chamar a atenção para esse novo processo entre mestiçagem, identidade, embranquecimento, racismo. Mulher negra que, juntamente a Lélia Gonzalez, traz mais um tema relacional ao debate sobre raça no Brasil, a relação entre raça e gênero, a construção de um feminismo “afro-latino-americano”, de novas epistemologias e na desconstrução de todo esse arcabouço da intelligentsia brasileira que elaborou o papel de “mãe preta”, “mulata” e “criada” para as mulheres negras. “É necessário que a mulher negra aprofunde a reflexão”, diz Gonzalez.

Formiga
Formiga. Fonte: fotospublicas

Pois seguiremos aqui pensando nessa relação entre identidade nacional e identidade negra a partir dos processos de embranquecimento levados a cabo no país. Ao colocarmos a questão das cotas, tema que surgiu após a fala de Carneiro, percebemos como é tenso o debate e pode suscitar múltiplas perspectivas. Não por acaso, as bancas de heteroidentificação têm se tornado presença constante nos concursos públicos sob a justificativa de evitar ou, ao menos, diminuir fraudes, ainda mais no contexto atual de rediscutir politicamente o tema, apesar de seu inequívoco sucesso.

Fui olhar a última convocação da seleção masculina para os amistosos contra Coréia e Japão e feminina para o sul-americano. Difícil dizer quantos e quantas poderiam enfrentar problemas nessas bancas, tendo como exemplo o acontecido nesses dois casos mais famosos recentemente.

De todo modo, parece mesmo que negros e negras são minorias nas seleções. Retomando Abdias do Nascimento:

“o mulato, o pardo, o moreno, o pardavasco, o homem de cor … situado no meio do caminho entre a casa grande e a senzala, o mulato prestou serviços importantes à classe dominante, durante a escravidão ele foi capitão-do-mato, feitor e usado noutras tarefas de confiança dos senhores e, mais recentemente, o erigiram como um símbolo de nossa democracia racial” (Nascimento, 1978).

O ex-jogador e comentarista Grafite fez eco às questões levantadas por Sueli Carneiro ao reparar como em torneios de base ocorre uma diferença física significativa entre jogadores brancos e não-brancos. Num momento em que o país se volta às caras com a fome e miséria extrema, infelizmente, não seria novidade que essa situação de penúria atingisse primeiro e mais fortemente as camadas não brancas da população. O que, certamente, seria refletido também no futebol.

Referências

CARNEIRO, S. Mano a Mano, Entrevista com Mano Brown. 2022. 

COSTA, C. E.; TOLEDO, L. H. . Cenas e encenações: a antropologia intersticial de Simoni Guedes. In: HELAL, Ronaldo; COSTA, Leda. (Org.). ESPORTE E SOCIEDADE: A CONTRIBUIÇAO DE SIMONI GUEDES. 1ed.Curitiba: Editora Appris, 2022, v. 1, p. 201-218.

FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro, Mauad. [1947] 2003

FREYRE, G. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro, Schmidt. 1933

GONZALEZ, L.  “Racismo e sexismo na cultura brasileira”. In: SILVA, L. A. et al. Movimentos sociais urbanos, minorias e outros estudos. Ciências Sociais Hoje, Brasília, ANPOCS n. 2, p. 223-244. 1983)

HASENBALG, C. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Graal. 1979

MUNANGA, K.  Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis, Vozes. 1999

NASCIMENTO, A.  O genocídio do negro brasileiro. Processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1978

NOGUEIRA, O. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestões de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Revista Tempo Social, 19(1), São Paulo. 2006 

RIBEIRO, D. O povo brasileiro, 2a ed., São Paulo, Companhia das Letras. 1995

RODRIGUES, N. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. Salvador, Livraria Progresso Editora. 1957

ROMERO, S. História da Literatura Brasileira. 29a ed. São Paulo, Cultrix. 1975

ROSENFELD, Anatol. Negro, Macumba e Futebol. São Paulo, Perspectiva. [1954] 2007

VIANA, F. O typo brasileiro. Seus elementos formadores. In: Diccionário Histórico, Geográfico e Etnológico do Brasil – Primeiro volume. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1922

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Carlos Eduardo Costa

Corintiano, antropólogo e pescador.

Como citar

COSTA, Carlos Eduardo. Raça e preconceito no futebol brasileiro: miscigenação, identidade nacional e identidade negra. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 15, 2022.
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