141.53

Reality futebol show

Pedro Henrique Brandão 25 de março de 2021

Bastou o nome de Cartolouco surgir entre os relacionados para a partida entre Flamengo e Resende, válida pelo Campeonato Carioca, para que se instalasse a polêmica da hora: é ou não razoável ter outros Cartoloucos por aí? 

Antes desse caso, algumas vezes o futebol se viu como palco para agentes de fora do espetáculo. Fred e sua série de sucesso são um exemplo interessante, mas muito antes, em 1981, a Revista Placar inovou ao colocar um repórter no gramado entre atletas profissionais para contar com riqueza de detalhes a experiência de ser jogador de futebol por alguns momentos.

Cartolouco Resende
Carolouco no Resende. Foto: Instagram/Reprodução.

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

É inegável. Quase todo brasileiro, em algum momento da vida, quis ser jogador de futebol. Lá na infância, quando a bola era parceira inseparável da maioria dos molequinhos e molequinhas, uma única vez que seja, o amigo ou amiga leitor(a) se imaginou com a camisa do clube de coração comemorando um gol com a torcida.

Esse fugaz desejo - quando não realizado - não faz do Brasil, uma nação de frustrados. Apesar de existir uma parcela da população frustrada por motivos que fogem a esfera esportiva, não somos 210 milhões de ex-futuros jogadores.

Há quem aponte o jornalismo esportivo como segunda opção para aqueles que não conseguiram realizar o sonho de ser craque. Ingenuidade. Evidentemente o tipo existe, mas está longe de ser predominante.

A velha discussão voltou ao centro do debate recentemente, no auge das paralisações do futebol por conta da pandemia do novo coronavírus, o influencer Fred, um dos astros do canal Desimpedidos, estrelou uma série - meio em formato documental, meio reality show - , em que persegue seu antigo sonho de ser jogador profissional e se torna atleta do Magnus Futsal.

Muito alardeada como a primeira experiência do tipo no Brasil, a série é sucesso absoluto entre o imenso público fiel ao canal e simpático ao inegável carisma de Fred.

A ousadia dos indomáveis anos 1980

Porém, para qualquer coisa que digam ser pioneira na TV brasileira, acredite, alguém fez algo parecido antes. Parafraseando Chacrinha: em entretenimento, nada se cria, tudo se copia.

Pois bem, no quesito inovação em jornalismo esportivo, no Brasil, nenhum período se aproxima da revolução que a década de 1980 representou. 

Em 1982, a TV Globo “grampeou” o árbitro José Roberto Wright, no episódio que ficou conhecido como o “Watergate do futebol” e fez o Brasil conhecer os impropérios que um juiz de futebol dizia aos jogadores em campo. Nada que assuste atualmente quem teve acesso a uma tal reunião ministerial ou que saiba da imparcialidade que juízes podem ter ao apreciar alguns casos.

Inaugurando essa tendência de ousadia jornalística, em dezembro de 1981, a revista Placar conseguiu acertar com a diretoria do São Paulo, algo impensável atualmente: colocou um repórter no gramado do Morumbi com a camisa do Tricolor durante uma partida do time profissional.

A missão: contar com riqueza de detalhes jamais experimentada na imprensa esportiva brasileira, a partir da ótica de quem vive a situação na pele, a experiência de ser jogador de futebol.

Charles Marzanasco Filho foi o repórter escolhido para a reportagem especial que incluía a participação no rachão antes da partida, ida ao estádio com a delegação, preparação no mesmo vestiário, tudo no padrão atleta.

Marzanasco era considerado o “craque das horas vagas” pelo desempenho nas peladas da imprensa. Curiosamente, não era repórter da Placar, mas sim da revista Auto Esporte e tinha muito mais afinidade com a editoria de automobilismo, motivo pelo qual chegou a ser assessor de imprensa de Ayrton Senna.

Os bastidores da reportagem 

O jogo marcado para o dia 6 de dezembro de 1981 foi um amistoso entre São Paulo e um selecionado paulista com jogadores dos clubes da capital e do interior do estado.

Apesar de não ter sido uma partida oficial, havia resistência contra a participação de um jornalista num jogo de profissionais. A Federação Paulista de Futebol (FPF) e Formiga, treinador são-paulino, não queriam permitir a entrada de Charles no gramado.

No rachão, inclusive, Formiga proibiu o repórter de treinar junto aos jogadores e Marzanasco acabou participando de um treinamento com outros profissionais de imprensa e dirigentes tricolores.

Jaime Franco, então diretor e homem forte no futebol do São Paulo, foi o responsável por convencer Formiga e a FPF que a ação seria uma justa homenagem à imprensa.

O jogo-reportagem

Enfim, na data marcada, trajado com o uniforme oficial do São Paulo, mesmo contra olhares atravessados dos delegados da federação, Charles subiu os degraus que dão acesso ao gramado do Morumbi de mãos dadas com Mário Sérgio. Logo que surgiu entre os atletas, foi para o banco de reservas e por lá ficou durante quase toda a partida.

A reportagem de quatro páginas intitulada “Eu joguei na máquina Tricolor”, foi publicada na edição que chegou às bancas em 31 de dezembro de 1981 e é um relato em primeira pessoa sobre a experiência.

O repórter não escondeu seu sonho de infância de jogar no São Paulo. Além disso, comentou como durante a semana que antecedeu a partida, confundiu sua ação como jornalista e a responsabilidade de reportar os fatos com a possibilidade de entrar em campo e ter que jogar bem. Por isso, revelou o medo “de fazer um papelão” quando entrasse em campo e a “obrigação de pelo menos, tocar na bola”.

Quando o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia apitou para a bola rolar, com certa tranquilidade, o time tricolor abriu vantagem no placar e o repórter acreditou que sua entrada seria facilitada. Porém, no início do segundo tempo, a Seleção Paulista conseguiu uma reação que em poucos minutos transformou a vantagem são-paulina de 3 a 1 em derrota de virada por 4 a 3.

Assim, Formiga começou a fazer as alterações na equipe e Marzanasco foi deixado no banco de reservas. Por isso, grande parte da reportagem é feita a partir dos comentários feitos entre os suplentes sobre o que acontecia em campo.

Com o resultado praticamente garantido, os atletas apenas esperavam o apito final. Marzanasco se viu sozinho no banco com Formiga, tomou coragem e pediu para entrar. Aos 43 minutos, o treinador atendeu ao pedido e o repórter entrou com tempo apenas de retomar a bola de Éderson, volante adversário, e armar um contra-ataque com Tatu, que sofreu falta e após a cobrança, Dulcídio encerrou o amistoso.

O apito final foi um sinal de alívio para o repórter que afirmou: “finalmente, minha tensão terminava”. A entrada em campo, ainda que por apenas dois minutos, foi o suficiente para que no dia seguinte, a imprensa repercutisse o feito da revista Placar, com direito a nome de Marzanasco na escalação oficial.

As observações de Marzanasco são riquíssimas em detalhes saborosos como a confusão e desabafo do roupeiro tricolor que resistia à ideia de entregar o uniforme do clube ao jornalista ou na passagem em que escreve “no banco, eu só ouvia o Formiga xingar o juiz”.

Publicada há quase 40 anos, a reportagem preserva modernidade do ponto de vista jornalístico e é um raro relato dos bastidores do futebol daqueles tempos bem menos sintético que o atual.

CartoloucoPara além da discussão sobre a possibilidade de potencializar a imagem de um clube por meio de uma ação claramente mercadológica como a inscrição de Cartolouco no Campeonato Carioca, a história mostra casos semelhantes – ainda que com motivações distintas -, que podem servir para entender o movimento atual que tem levado nomes de destaque nas redes sociais para dentro dos times de menor orçamento. O debate acerca da sobrevivência desses clubes é bastante amplo e perpassa diversas áreas, inclusive a comunicação e a tendência de espetacularização do futebol em campo. 


Financiamento Coletivo Ludopédio

Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Reality futebol show. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 53, 2021.
Leia também:
  • 141.69

    Os Estaduais precisam continuar, mas clamam por uma mudança de mentalidade

    Wallace Graciano
  • 141.68

    João Saldanha, o João Sem Medo de ditadura

    Pedro Henrique Brandão
  • 141.67

    Incidência de COVID-19 no futebol paulista

    Karina Toledo/Agência FAPESP