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Reflexões sobre Contos Brasileiros de Futebol

O futebol enquanto uma prática cultural é capaz de influenciar diversas manifestações artísticas, tais como a música, a dança, o teatro, a literatura, etc. No campo literário, são inúmeros os escritores que se dedicaram aos contos que possuem como temática o futebol. Neste texto serão apresentadas algumas reflexões sobre dois contos específicos da obra organizada pelo aclamado contista Cyro de Mattos, denominada Contos Brasileiros de Futebol, publicada em 2005. Para esta análise foram selecionados os contos “Copa do Mundo”, de Renard Perez, e “No Último Minuto”, de Sérgio Sant’Anna. Tratando-se de futebol e literatura entende-se que

[…] os dois campos mantêm uma relação de interação mútua tanto como formas de expressão estética combinatórias e complementares (o jogo dá texto e o texto dá jogo) quanto como fonte de inspiração intrínseca geminada (pode haver jogadas de letra e letra de jogadas). (NASCIMENTO, 2011)

Capa do Livro Contos Brasileiros de Futebol
Capa do Livro Contos Brasileiros de Futebol

“Copa do Mundo”, de Renard Perez – Entre a ressaca da derrota e o gosto da vitória

O escritor Renard Perez, nascido na cidade de Macaiba, Rio Grande do Norte, em 03 de junho de 1928, dedicou-se especialmente a contos e novelas. Em 1967, conquistou o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, com o romance Começo de Caminho: o Áspero Amor (MATTOS, 2005, p.138). Em setembro de 2003, recebeu a Medalha Antônio Houaiss, oferecida pelo Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ) em sua sede, na Casa de Cultura Lima Barreto, pelos serviços prestados à literatura brasileira (NASCIMENTO, 2014). Dirigindo-se ao tema do futebol, no conto intitulado “Copa do Mundo”, o autor Renard Perez nos apresenta um personagem que acorda com ressaca de uma festa junina da qual havia participado na Floresta da Tijuca, e ao despertar com o barulho de foguetes e o som do hino nacional, se dá conta que chegou o grande dia da final da Copa do Mundo de 1958. No entanto, amargurado com a lembrança da derrota da seleção brasileira na final da Copa de 1950, o protagonista do conto vai enfrentar o dilema de acompanhar a partida carregando o receio de presenciar mais uma derrota na final da competição. Nesse contexto, as lembranças da Copa perdida para a seleção uruguaia também continham a sensação de uma ressaca.

Ao acordar repentinamente, o personagem-narrador chega a acreditar ter perdido a locução de rádio referente ao jogo, ter perdido a locução da vitória da seleção brasileira na final da Copa de 1958, que no seu entender seria algo lamentável, afinal, tratava-se de um momento histórico. Mas logo percebe que a partida apenas havia se iniciado, eis que a angústia de acompanhar tal jogo toma conta do personagem:

O jogo apenas se iniciava. E, de repente, a angústia de ter perdido a irradiação foi substituída por uma outra muito pior: não tínhamos vencido, eu devia enfrentar ainda noventa minutos. Agora, preferia ter perdido a irradiação, mas estar diante de uma vitória garantida… E me lembrei daquele dia trágico de oito anos atrás, o silencio doloroso… Tudo ia recomeçar… […] A ressaca voltou, abandonei-me à cama, destruído. Acompanhar tal partida representava para mim doloroso patriotismo. Bebia as palavras do locutor, o coração aos solavancos, mas me dispunha a mergulhar covardemente no sono se a irradiação fosse ingrata. (PEREZ, 2005, p. 136)

Percebe-se que o conto apresenta um narrador em primeira pessoa. Trata-se de um narrador-protagonista intradiegético, de acordo com as categorias propostas por Gérard Genette (1995, p. 247), ou seja, o personagem está dentro da cena narrada. As emoções expressas pelo narrador-personagem são capazes de envolver o leitor numa atmosfera futebolística que abarca o sentimento de uma vitória inédita, o alívio de uma conquista pós uma derrota traumática (no linguajar do futebol: o grito de “campeão!” entalado na garganta), e o ufanismo instaurado por meio do esporte.

Entende-se o futebol enquanto um fenômeno sociocultural capaz de interagir com diferentes manifestações como as artes, o lazer, os meios de comunicação, o mercado, etc. Da mesma maneira, o futebol certamente também dialoga com a política. Em diferentes momentos ao longo da história do futebol, compreendendo sua dimensão enquanto um fenômeno de massa, buscou-se a exaltação do nacionalismo por meio do esporte, a construção de uma identidade nacional. No Brasil, pode ser citado o período do Estado Novo:

Sistema político ditatorial implantado no país pelo Presidente Getúlio Vargas, a partir de 1937. Através das rádios, Getúlio anunciou a implantação do Estado Novo que duraria até 29 de outubro do ano de 1945. Este período ficou marcado pela implantação da censura aos meios de comunicação – rádios, revistas e jornais. Censuraram também as artes, como o cinema, teatro e a música. Durante o Estado Novo, o futebol foi utilizado no discurso do governo, especialmente no tocante ao selecionado nacional, como símbolo de uma nova nação e como retrato de uma sociedade capaz de superar suas provações assim como aglutinar, como no caso do selecionado, as múltiplas etnias que compunham o povo brasileiro de forma harmoniosa, utilizando como expressões máximas desse discurso a presença do jogador Leônidas da Silva, negro, no chamado Scratch (termo utilizado na época para expressar time) nacional brasileiro. (ARAUJO; FILHO, 2016, p.54)

No decorrer do conto de Renard Perez, o protagonista da história vai se entusiasmando com o resultado da partida que acarreta na conquista inédita da seleção brasileira. Nesse contexto, fica evidente a relação entre o patriotismo e o futebol presentes na narrativa:

Entendo o patriotismo, patriotismo é a vitória do futebol no estrangeiro. Pátria é esse orgulho que me enche o peito, e me engrandece, dá-me vários metros de altura. De súbito, o Brasil é a mais soberana das nações, e as grandes potências de dez minutos atrás de repente se amesquinham e olham para nós lá de baixo, respeitosamente. Heróis são Belini e Pelé […] (PEREZ, 2005, p. 137)

Ao final do conto, no embalo da comemoração da conquista da seleção, o sabor amargo referente à ressaca da derrota na Copa de 1950 é substituída pelo doce gosto da vitória, encerrando, desse modo, esta obra de um entre tantos craques da literatura brasileira, o escritor Renard Perez:

Desço o elevador, e recebo, na porta, uma chuva de confete. No saguão em alvoroço, uma senhora do quarto andar que conheço apenas de vista, põe, subitamente, algo diante de mim. Recuo surpreendido, e olho o que ela me oferece. É uma bala de chupar […] (PEREZ, 2005, p. 138)

“No Último Minuto”, de Sérgio Sant’Anna – Futebol, Televisão e Literatura

Nascido no Rio de Janeiro, no dia 30 de outubro de 1941, Sérgio Sant´Anna foi outro renomado contista brasileiro (NASCIMENTO, 2013). O escritor foi agraciado com o prêmio Jabuti em quatro edições, e também recebeu o Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos Teatrais e o Prêmio Portugal Telecom (CORNELSEN, 2022). O conto “No último minuto” foi publicado pela primeira vez no livro Notas a Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer), de 1973.

Capa do livro Notas a Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer)
Capa do livro Notas a Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer)

O conto apresenta a perspectiva de um goleiro que revê em diferentes canais de televisão o fatídico lance que decretou a derrota do seu time. Assim sendo, trata-se de um futebolista que se coloca a assistir em diferentes emissoras televisivas uma partida de futebol em que foi um dos protagonistas, uma vez que, por um pequeno deslize na sua performance enquanto arqueiro, o seu time leva o gol no último minuto, culminando na trágica perda do campeonato.

Este conto apresenta um narrador em primeira pessoa. Assim como no conto analisado anteriormente, trata-se de um narrador-protagonista intradiegético, como é apontada nas categorias propostas por Gérard Genette (1995, p. 247), ou seja, o personagem-protagonista (no caso, um goleiro) assume o papel de narrador dentro do texto.

O referido conto, a partir da sua estrutura narrativa, é capaz de levar o leitor a uma sensação de estar assistindo, junto com o personagem protagonista, os lances da fatídica partida contextualizada, através da televisão:

Canal 5 – É uma rebatida de defesa deles. A bola vem alta e cai pro Breno, nosso médio-apoiador. Ele a mata no peito, põe no chão e aí perde o domínio da pelota. Mas ninguém vai se lembrar disso: que a primeira falha foi do Breno. A bola fica, então, para o meia-armador deles: o Luiz Henrique. É o momento do desespero, o último minuto. (SANT’ANNA, 2005, p. 141)

Ao longo da história, percebe-se que o personagem protagonista ao rever na TV os lances da partida que vivenciou, relembra com detalhes os sentimentos e as sensações dos momentos que presenciou dentro de campo:

É um chute rasteiro, um centro chocho… E eu grito: “deixa”. Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos braços e no meu peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo, naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza no meu peito e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem a alcançar a rede; ela fica paradinha ali, depois da linha fatal. E eu pulo desesperadamente nela, puxando a bola lá de dentro. Mas é tarde demais, todo mundo já viu que foi gol. O estádio explode e é como se minha cabeça estourasse. Eu vejo e ouço aquilo tudo: o time deles se abraçando, a zoeira da multidão, os foguetes e o nosso time que parte pra cima do juiz, numa tentativa inútil de anular o gol. Eu ouço e vejo aquilo, mas é como se tudo estivesse muito longe de mim, sem nenhuma relação comigo. (SANT’ANNA, 2005, p. 142)

Dando sequência, o conto também destaca a maneira como os programas esportivos transmitidos pela televisão exploram a repetição exacerbada da exibição de determinados lances em uma partida de futebol. No contexto do conto, a repetição contínua de determinado lance do jogo, demonstra a intencionalidade em potencializar e repercutir o que seria considerado uma falha fatal do goleiro, no caso, uma falha que veio interferir diretamente no resultado final do jogo que determinou o campeão do campeonato.

No decorrer do conto, fica evidente a frustração do personagem-narrador sendo potencializada, na medida em que ele revê o mesmo lance da partida da qual saiu derrotado, a partir de diferentes canais de televisão. A frustração do goleiro também é potencializada por meio das diferentes ferramentas que a transmissão audiovisual utiliza para repercutir e dar destaque ao lance derradeiro:

EM CÂMERA LENTA – O Canhotinho batendo de esquerda na bola, todo torto e já sem equilíbrio, para depois virar uma cambalhota no meio dos fotógrafos. A bola passando rente à linha de fundo. Eu caio, em câmera lenta, até com um certo estilo. Fazendo pose para os fotógrafos, como eles dizem nos jornais. […] Teipe parado: Eu estou com a bola segura e escondida nos braços e sob o corpo. […] Teipe rodando lentamente: A gente percebe, a princípio, apenas que a bola se deformou: ela parece um ovo, com a ponta aparecendo entre os meus braços. É como se a bola inchasse e por isso fosse se despregando do meu corpo e escorrendo mansamente pela grama. Até parar, caprichosamente, um pouco depois da linha fatal. […] POR DETRÁS DO GOL – No meio daquele inferno todo, eu me viro pra trás e estou de cabeça baixa diante dos fotógrafos e cinegrafistas. Eu tenho vontade que o mundo desapareça ao meu redor. O mundo não desaparece. Eu cubro o rosto com as mãos e é assim que aquela câmera me focaliza. Eu cubro o rosto com as mãos aqui sentado diante do televisor, que me mostra cobrindo o rosto com as mãos lá dentro do gramado. (SANT’ANNA, 2005, p. 145)

De maneira brilhante, o conto de Sérgio Sant´Anna mostra a perspectiva de um goleiro, os seus sentimentos, a maneira como ele revisita a dor da derrota, assim como a busca de alento para a sua falha, uma vez que o personagem-narrador compreende que o resultado daquela situação que determinou a derrota do seu time também foi a consequência de uma série de lances que antecederam a travessia da bola na linha fatal. Assim sendo, certamente neste conto o autor Sérgio Sant´Anna apresenta uma rica relação entre futebol, televisão e literatura.

Considerações Finais

Ambos os contos analisados abordam o futebol em variadas perspectivas (a relação do futebol com a mídia; futebol e profissão; futebol e nacionalismo, entre outros aspectos), o que demonstra a potencialidade em explorar o futebol enquanto um fenômeno que dialoga com diferentes âmbitos sociais e culturais.

É possível perceber que no conto de Renard Perez, existe uma associação mais direcionada ao âmbito do torcer como lazer. Já o segundo conto analisado, traz a prática esportiva do futebol profissional, com cobertura da imprensa e, sobretudo, da TV. Tratando-se da relação entre o futebol e os meios de comunicação, o conto “Copa do Mundo” também explora essa dimensão, a partir da transmissão radiofônica de uma partida.

Além disso, pode-se observar instâncias narrativas semelhantes entre os contos, sobretudo no que diz respeito a relação do sofrimento alinhado ao futebol (o torcer e o sofrer no conto de Renard Perez; o jogar e o sofrer por um lance capital no conto de Sérgio Sant´Anna).

Certamente o futebol é um fenômeno capaz de envolver diversos sentimentos e sensações. “O futebol é um catalisador de emoções de enorme proporção. Por causa do futebol brigamos, rimos, choramos, abraçamos quem não conhecemos, sofremos, entramos em êxtase, vivenciamos o gosto amargo da derrota e o sabor da vitória” (SILVA; CORDEIRO; CAMPOS, 2016, p. 16). Os autores Renard Perez e Sérgio Sant´Anna, através da literatura, apresentam com maestria em seus contos como o futebol provoca emoções intensas nos indivíduos e na sociedade.

Referências Bibliográficas

ARAUJO, A. S.; FILHO, C. C. R. Futebol e Cultura. In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016, p. 49-64.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Contos de Futebol no Brasil – Parte II. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 16, 17 de janeiro de 2022. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/contos-de-futebol-no-brasil-parte-ii/. Acesso em: 21 de fevereiro de 2022.

GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Vega, 1995.

MATTOS, Cyro de (org.). Contos brasileiros de futebol. Brasília, DF: LGE, 2005.

NASCIMENTO, Edônio Alves. A letra e a bola: futebol e literatura no Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 19, n. 4, 26 de janeiro de 2011. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/a-letra-e-a-bola-futebol-e-literatura-no-brasil/.  Acesso em: 21 de fevereiro de 2022.

NASCIMENTO, E. A. No último minuto? futebol e invenção. História(s) do Sport, 2013. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2013/03/19/no-ultimo-minutofutebol-e-criacao/. Acesso em: 21 de fevereiro de 2022.

NASCIMENTO, E. A. Festa, futebol, ressaca, literatura e bola. História(s) do Sport, 2014. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2014/03/02/festa-futebol-ressaca-literatura-e-bola/. Acesso em: 21 de fevereiro de 2022.

PEREZ, Renard. Copa do Mundo. In: MATTOS, Cyro de (org.). Contos brasileiros de futebol. Brasília-DF: LGE, 2005, p. 135-138.

SANT’ANNA, Sérgio. No último minuto. In: MATTOS, Cyro de (org.). Contos brasileiros de futebol. Brasília-DF: LGE, 2005, p. 141-148.

SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. Por que ensinar o futebol para além da bola rolando?. In: SILVA, S. R.; CORDEIRO, L. B.; CAMPOS, P. A. F. (Orgs.). O Ensino do Futebol: para além da bola rolando. Rio de Janeiro. Jaguatirica, 2016. p. 15-24.

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Anderton Taynan Rocha Fonseca

Licenciado em Educação Física pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (2017). Foi membro do Programa Rede de Museus e espaços de ciência e cultura da UFMG, vinculado ao Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer, no período de 2015 a 2017. Foi integrante do Programa Educativo do Museu Brasileiro do Futebol de 2017 a 2019. Atua como professor da educação básica na Rede Estadual de Educação de Minas Gerais. Integrante do grupo de pesquisa FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes. Mestrando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG.

Como citar

FONSECA, Anderton Taynan Rocha. Reflexões sobre Contos Brasileiros de Futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 32, 2022.
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