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Resiste uma Libertadores Feminina

Que História! 24 de março de 2021

Acreditamos que não, mas caso você seja um leitor desavisado, saiba que existe uma Libertadores Feminina. Mais do que isso, ela resiste a todo o tipo de intempérie e contratempo, mas acima de tudo, resiste ao preconceito. Neste texto, vamos contar um pouco da breve história da maior competição de clubes da América do Sul, que em sua versão feminina, está longe de ser efetivamente grande.

Mas qual o motivo de falar de uma competição tão recente? Necessidade, ora essa. Certo dia, num post em que os camaradas do blog Start Sports citaram a competição em um episódio de seu podcast, pintou um torcedor surpreso em saber que existia tal competição. Não impressiona, num país em que diversas pessoas descobriram (e tomara que não tenham esquecido) que a Copa do Mundo tinha uma versão para mulheres apenas em 2019.

Além de quem não gosta, tem quem despreze e ridicularize o esporte, em muito por causa do machismo e do incômodo de ver uma mulher ocupando um espaço que se julga masculino. Você já deve ter ouvido alguém dizer que “futebol feminino não presta” ou que “prefere ver um jogo do dente-de-leite masculino, pois é muito mais disputado que essas peladas de mulheres”… Bom, se você nunca ouviu, sorte sua, pois essas duas expressões foram tiradas de discussões reais.

Para superar o machismo ou vencer a falta de visibilidade, faz-se importante que histórias de competições como essa sejam contadas, pois são elas que permitem que o esporte se mantenha vivo, mesmo com tantos querendo matá-lo.

As competições internacionais de futebol para mulheres

A gente queria falar aqui que existiram diversas competições que serviram de inspiração para a Libertadores Feminina, mas isso não aconteceu. Para começo de conversa, quando a versão masculina do torneio foi criada, a prática de futebol por mulheres era proibida em diversos países, dentre eles o Brasil.

Competição de mulheres à nível internacional se restringiam a torneios de seleções. E mesmo assim escassos. Houve um momento de efervescência nos anos 70, com a realização de uma Copa do Mundo de futebol feminino no México, que parecia apontar para um novo momento no esporte. Mas o pouco apoio fez com que a ideia fosse descontinuada. Ela só voltaria com a chancela da FIFA, nos anos 90. 

Achar registros do futebol feminino nos anos 70 e 80 é algo muito difícil, ainda mais no que diz respeito às competições de clubes. As primeiras experiências de jogos internacionais de que se tem notícia no Brasil, por exemplo, foram nos anos 80, com a equipe do Radar. Dominante nas incipientes competições locais, a forte equipe jogou campeonatos amistosos no exterior, somando 71 jogos (66 vitórias, três empates e apenas duas derrotas) fora do Brasil.

Nos anos 90 o futebol de mulheres começou a ter mais torneios em âmbito nacional, mas para o nível continental ainda se limitava a confrontos de seleções, que passaram finalmente a ter competições regulares, como a Copa América, a Copa do Mundo e o Torneio Olímpico.  

Houve um período de retomada do cenários de clubes, no fim dos anos 2000, puxado pelos resultados de seleções, como se pode identificar no caso do Brasil, por exemplo. Houve um avanço minúsculo, mas importante, no que se refere a situação praticamente marginal em que o futebol feminino esteve na década de 90 e começo dos anos 2000 – quando em muitas ocasiões nem haviam competições acontecendo. 

Com um contexto de muita luta pela valorização do esporte, na virada para os anos 2010, passou a ser urgente ter uma competição continental de futebol de mulheres. E coube a um time brasileiro um papel importante para que isso acontecesse.

O Santos e o pontapé para a Libertadores

O ano de 2009 foi um marco. O Brasil já tinha uma seleção que dominava o futebol feminino na América do Sul e, a nível de clubes, possuía um time espetacular que precisava alçar vôos maiores. O Santos havia montado a primeira e mais famosa versão das “Sereias da Vila”, reunindo Marta, Cristiane, Érika, Maurine, Aline Pelegrino e outras craques. A competição nacional que existia na época era a Copa Brasil, que o Santos venceu com sobras em 2008 e 2009. 

Sem adversários em seu país, o Santos resolveu conquistar a América do Sul e, para tanto, pressionou a CBF, que por sua vez pressionou a Conmebol para organizar uma competição continental. Para persuadir a Confederação Sul-Americana, o Santos usou a presença de Marta, que já tinha três prêmios de melhor do mundo da FIFA. Funcionou.

A Conmebol resolveu criar a Libertadores, chancelou o torneio mas, na prática, o Santos fez praticamente tudo. Organizou o torneio em quatro estádios – o Ulrico Mursa e a Vila Belmiro em Santos, o Pacaembu em São Paulo e Antônio Fernandes no Guarujá – e contou com o apoio da TV Bandeirantes (com história no fomento ao futebol feminino), que transmitiu aquela Libertadores disputada entre 3 e 14 de outubro, em TV aberta e no seu canal por assinatura.

Cada país da América do Sul mandou seu representante e o Santos atropelou todo mundo. O título veio na Vila Belmiro, diante de mais 14 mil pessoas, numa goleada de 9×0 sobre a Universidad Autônoma do Paraguai.

Sereis da Vila campeãs de 2009.
Sereis da Vila campeãs de 2009. Foto: Divulgação Santos FC

A segunda edição, disputada em Barueri, seguiu mais ou menos o mesmo modelo e, sem Marta, foi um pouquinho mais equilibrada. Deu Santos de novo, dessa vez, vencendo o Everton do Chile por 1×0.

Aquele projeto de futebol feminino do Santos seria descontinuado em 2012, para voltar mais tarde, porém sem o mesmo brilho. Sua importância para a sobrevivência do futebol de mulheres, sem falar no papel de elevá-lo a um patamar de disputa internacional, nunca será esquecida. 

A supremacia do São José

Para 2011, a Conmebol se empolgou um pouco e resolveu aumentar para 12 o número de participantes. Além dos dez campeões nacionais, ia dar uma vaga para as atuais campeãs e convidar as campeãs japonesas (não vem me falar, que você já não se acostumou com esses convites da Conmebol!). As japonesas não vieram e a vaga acabou com a equipe que sediaria a competição: o São José, de São José dos Campos, que tinha a lendária Formiga no elenco. Foi justamente o clube do interior paulista que desbancou o Santos e venceu o Colo-Colo na final para ficar com o título inédito.

O São José era tão forte na época que poderia ter garantido um tetracampeonato se não fosse pela equipe do Foz Cataratas. A equipe do sul do país eliminou as paulistas (que contavam com Cristiane) nas semifinais da edição de 2012, realizada em Pernambuco – nas cidades de Recife, Caruaru e Vitória de Santo Antão. O caminho ficou aberto para o Colo-Colo, que dessa vez superou o Vitória das Tabocas nas semifinais e, nos pênaltis, conquistou o título sobre o Foz, tornando-se a primeira equipe de fora do Brasil a levantar a taça.

As edições de 2013 e 2014 voltaram a ser dominadas pelo São José. Na primeira, disputada em Foz do Iguaçú (reflexo da boa participação do Foz Cataratas em 2012), o São José destronou o Colo-Colo nas semifinais e foi campeão sobre o Forças Íntimas, da Colômbia. Na segunda, jogando em casa, passeou até a final, quando goleou o Caracas da Venezuela. 

Equipe do São José celebrando o tricampeonato da Libertadores.
Equipe do São José celebrando o tricampeonato da Libertadores. Foto: Divulgação do São José / Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

A Libertadores finalmente ganha a América

Depois de um começo inteiramente disputado no Brasil, a Libertadores Feminina foi disputada na Colômbia em 2015. Foi o fim da supremacia do São José, que foi superado pela Ferroviária de Araraquara, que conquistaria o título sobre o Colo-Colo.

Em 2016, o Uruguai recebeu a competição e tivemos finalmente uma final sem equipes brasileiras. O Sportivo Limpeño do Paraguai superou o Estudiantes de Guárico da Venezuela e levou a taça.

O título motivou o Paraguai a receber a disputa de 2017. E algo bizarro aconteceu: o Audax, dono da vaga, disputou a competição em parceria com o Corinthians e levou a taça sobre o Colo-Colo na decisão (mais um vice para as caciques). Essa prática se tornaria comum no Brasil, com a obrigatoriedade dos clubes profissionais terem um time feminino. Tempos depois, o Corinthians constituiria seu próprio departamento de futebol feminino.

A volta do Santos e o todo poderoso Timão

Em 2018 a Libertas para mulheres voltou ao Brasil e foi jogada em Manaus. O Santos voltou a ter um time forte e chegou como favorito, mas viu uma equipe da Colômbia ficar com a taça. O Atlético Hulia superou as donas da casa do Iranduba e o próprio Santos na final, em ambas as ocasiões na marca da cal.

Naquele momento, um novo super time surgiu: o Corinthians. Como dissemos, o clube de Parque São Jorge estruturou um departamento de futebol, usou a base que contratou junto ao Audax e montou um time quase imbatível. Venceu a edição de 2019, disputada no Equador, com sobras. O título, conquistado frente à Ferroviária, foi uma revanche do Brasileirão daquele ano e veio em meio a uma invencibilidade histórica.

 

 

O bi parecia certo na edição de 2020, disputada na Argentina… mas em 2021 (maldita Covid-19). Mas o Corinthians parou nos pênaltis contra o América de Cali nas semifinais – depois de quatro vitórias, 34 gols pró e nenhum sofrido! O gol sofrido no último lance contra as colombianas custou muito caro e fez a promissora campanha terminar em terceiro lugar. A grande história ficou por conta da Ferroviária, que se classificou na última rodada da fase de grupos, com uma combinação improvável de resultados e, de forma extremamente heroica, foi parar na decisão para superar as colombianas e ficar com o bicampeonato.

Assim, a tábua de campeãs ficou assim:

Tumultos e percalços

Tudo que é coisa ruim acontece com o futebol feminino. Impressionante! Depois de relatar as glórias das mulheres que venceram a competição, precisamos pontuar algumas aberrações administrativas das organizações do torneio, as crises que ameaçaram a competição e exemplos de descaso que ela sofreu. Nada que a modalidade já não conheça…

Como já dissemos, a Conmebol chancelou a competição, mas boa parte da realização dela até hoje dependeu de iniciativas de clubes, federações regionais, cidades e patrocinadores. A Confederação Sul-Americana não disfarça a falta de proporção no cuidado com as competições masculina e feminina. Não é exagero pensar que, não fosse a obrigação de manter as competições femininas, talvez a Libertadores continuasse apenas para homens

O modelo de tiro curto do torneio já demonstra uma falha estrutural grave. Equipes sem investimento e uma Confederação sem vontade, resultam num torneio espremido em duas semanas e propenso a situações que, se já aconteceram na versão masculina, ficaram lá nos primórdios.

Na edição de 2015, o São José lidou com falta de luz no estádio em sua estreia na competição e as delegações tiveram restrição na quantidade de comida (!) que teriam. A edição colombiana do torneio ainda teve sérios problemas de transporte. O São José sofreu com isso no desembarque e em um dos jogos, em que o ônibus que deveria levar às atletas para o hotel depois da partida simplesmente não apareceu. Elas voltaram em táxis…

Na edição de 2017, no Paraguai, a competição chegou a ser interrompida por uma intoxicação alimentar que afetou atletas e membros das comissões. O Sportivo Limpeño chegou a ter 16 atletas afetadas.

Na edição disputada em Manaus, 2018, houve um imbróglio na emissão das passagens para as equipes participantes que só foi resolvido dois dias antes da competição começar, por intermédio do Governo do Amazonas.

Em 2019, a Conmebol manteve a disputa do torneio para o Equador em meio a uma onda de protestos que colocava o país em chamas. A negligência durou pouco e o torneio precisou ser adiado logo nas primeiras rodadas, retornando depois que as autoridades garantiram a segurança das atletas.

Essa história nós citamos numa das listas do nosso canal

Por fim, a pandemia comprometeu a realização da competição de 2020, que ficou para 2021, em meio a datas que sobravam e sem protocolos eficientes (coisa que não é demérito apenas da versão feminina).

Tudo isso permite que se levante uma questão: o que impede que uma competição importante como essa seja tratada com o mínimo de cuidado e respeito pela Conmebol? 

Bom, a história está contada até este ponto e continuará sendo escrita daqui pra frente. A Libertadores e o futebol feminino seguirão resistindo não se sabe até quando. A esperança e a vontade fazem crer que por muito tempo. Tomara que no futuro, quando a versão feminina da Libertadores chegar aos 30, 40 anos de história, as mulheres não sofram tanto perrengue para conseguir jogar futebol.


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Como citar

HISTóRIA!, Que. Resiste uma Libertadores Feminina. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 50, 2021.
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