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Retrospectiva da “nova-velha” crise na política peruana e o futebol como sua chave de leitura

Fabio Perina 16 de março de 2023

No final de 2020, escrevi esse texto tendo como mote uma profunda crise daquelas semanas saindo dos gabinetes com trocas presidenciais e chegando às ruas: a “vacância” (impeachment) de Martin Vizcarra e a breve semana de Manuel Merino com intensos protestos populares. Dando destaque inclusive à participação de torcedores barristas antifascistas dos clubes limenhos neles. Faço menção a uma fonte complementar que reconstitui aqueles dias de intensa ebulição entre cancha e calle. Ao mostrar não somente que a partida Peru x Argentina em Lima, em 17 de novembro de 2020, no início das Eliminatórias estava ameaçado de não ocorrer pelo risco de desordens. Sobretudo, mais surpreendente ainda, diversos sujeitos como jogadores da seleção e os clubes peruanos declararam em redes sociais repúdio à repressão policial.

Torcedor peruano
Torcedor peruano se lamentando. Foto: ChinaImages/br.depositphotos.com

Agora nesse novo texto usarei esse jogo de palavras de “velho” e “novo” para tratar da mistura de elementos de crise anteriores que se acumulam e se somam a outros cada vez mais inusitados. (Obs: como breve nota de conjuntura esse texto é escrito nos dias de uma terceira crise que se soma às duas destacadas: enchentes e inundações gerando inúmeras mortes em áreas vulneráveis de Lima e outras cidades costeiras). De lá para cá nesses cerca de dois anos uma trégua para a crise política veio finalmente com alguns meses do mandato-tampão de Francisco Sagasti apenas visando estabilizar a convocação das eleições presidenciais do início de 2021. A breve sucessão de fatores foi no final do primeiro semestre de 2021 a apertada disputa eleitoral entre esquerda e direita com vitória dramática de Pedro Castillo sobre Keiko Fujimori. À partir de então os cerca de um ano e meio de mandato de Castillo foram de permanente instabilidade. E por fim os últimos meses vem sendo marcados pela prisão de Castillo (após uma polêmica tentativa de suposto “auto-golpe” para evitar seu terceiro pedido de “vacancia”) e a dupla impopularidade de sua vice empossada, Dina Boluarte: seja para obter um desfecho parlamentar de quando haverão novas eleições e sobretudo cessar a brutal repressão policial sobre as manifestações populares cada vez mais regionalizadas e cada vez mais intensas.

Ora, para pensar na conexão calles-canchas, é preciso ser justo e evitar super-dimensionar a relação entre a dupla crise político-futebolística ser mais de coincidência e ao invés de determinação direta. Em outros termos, a imaginação sociológica implica aproximar essas duas dimensões mas não colá-las. Mas em alguns eventos específicos as coincidências se cruzaram e foram mais pontuais, tendo em comum as manifestações virtuais de jogadores e principalmente a possível desordem nas vias públicas em manifestações diversas.

Após o evento inaugural citado de novembro de 2020, a polarização eleitoral no início de 2021 foi tão profunda e disseminada que os principais futebolistas da seleção peruana fizeram sua própria “jogada” de marketing político: não declararam apoio a nenhum candidato, porém declararam ser “contra o comunismo” e usaram o mote de campanha de Keiko #PonteLaCamisetaPerú. Os quais foram rapidamente respondidos por internautas críticos que: “la camiseta no se mancha” (tema que retomarei no final do texto).

Em 28 de março de 2022, esteve no auge o segundo pedido de “vacância” contra Pedro Castillo e a tensão que as ruas de Lima pudessem ser tomadas de protestos. Enquanto no dia seguinte o Peru venceu o Paraguai jogando em casa pelas Eliminatórias e obteve uma sobrevida para a repescagem. Dias depois, em 6 de abril, o encontro Cristal x Flamengo pela Libertadores, também no estádio Nacional na zona central de Lima, esteve prestes a ser adiado devido a uma greve geral de combustíveis.

Antes de entrar no futebol propriamente, essa menção a quando a dupla crise mais coincidiu em março/abril de 2022 serve como breve retrospectiva de alento às jornadas populares em que, diante da crise na super-estrutura política que tanto exclui a esquerda, ainda assim ela com seus movimentos populares não renuncia de sua tarefa histórica de não deixar as ruas serem conquistadas pela direita, tal qual foi na conjuntura de novembro de 2020 (relatada no desfecho do meu texto anterior) e tal qual agora na brutal virada de conjuntura de dezembro de 2022 com o já comentado “auto-golpe” ou “contra-golpe” (discussão que apenas menciono sem aprofundar).

Paro Nacional 19 de janeiro na cidade de Lima. Fonte: Wikipédia
Paro Nacional 19 de janeiro na cidade de Lima. Fonte: Wikipédia

Em meados de janeiro de 2023 na política houve a jornada heroica da “toma de Lima” com caravanas populares de todo o país, justamente das províncias mais afetadas pela repressão policial para protestarem contra Dina Boluarte. Dessa vez o cenário no futebol foi distinto pois não haviam partidas internacionais a serem interrompidas. (Obs: Inclusive nessa hora certamente passou pelos mais doces sonhos elitistas que um retorno imediato do futebol com a liga local pudesse servir como “distração” para tirar o povo das ruas…) Pelo contrário, a liga local peruana contou com seguidos adiamentos do reinício do torneio por conta de um grupo de 8 clubes se unirem (contrários a outros 12 que permaneceram leais à federação) e ameaçarem não jogar diante de uma disputa pelos direitos de transmissão. Sendo o primeiro grupo a favor da empresa GolPeru e o segundo a favor da Federação Peruana de Futebol através de seu presidente Agustín Lozano (Obs: inclusive o judiciário peruano é tão pouco confiável que meses atrás nos primeiros atritos, mesmo ainda sem interrupção de partidas, foram escolhidos tribunais chilenos para resolver a questão!).

O que levou a um cenário atual sem precedentes (simbolicamente se assemelhando a uma re-amadorização) e ameaças de rebaixamento automático aos clubes que insistissem em um segundo W.O. Insólito que a federação agora joga duro para não perder seu monopólio dos direitos de transmissão, porém um rígido legalismo de aplicar o W.O. generalizado enxugaria sua liga a poucos clubes e com isso despencaria o interesse econômico. Mais insólito ainda que a maioria dos clubes “rebeldes” pouco aplicam a unidade tática entre si na qual poderiam usar o argumento óbvio de se recusar a jogar pela falta de condições de segurança. E ao invés disso usando o argumento questionável de já terem contratos prévios com outra empresa de transmissão ao invés da federação.

Outro paralelo mais recente é no início de fevereiro com disputas de gabinetes sem consensos e de difíceis desfechos. Na política, seguidos projetos parlamentares de regular a transição política de quando e como haver novas eleições (e sobretudo permanecendo excluindo a pauta popular de Assembleia Constituinte) e aproximações entre Dina Boluarte e os parlamentares fujimoristas para isolar os anti-fujimoristas. Assim como investigações internacionais de violações de direitos humanos pela repressão policial-militar. Além da notícia da extradição do ex-presidente Alejandro Toledo (o primeiro pós-Fujimori nos anos 2000), não sendo coincidência as frequentes acusações, julgamentos e até deposições de ex-presidentes da república e ex-dirigentes da federação envolvidos em corrupção. Já no futebol, um vexame da insistência da federação de realizar as partidas até então adiadas levou a metade delas sem serem jogadas por W.O. Inclusive com os protestos mais intensos de torcedores ter sido os do Alianza Lima, pois ter sido o clube que mais desafiou o sistema e acabou se vendo isolado pelos demais com o agravamento da disputa. Dessa forma, o clube estreou no torneio em 12 de fevereiro com vitória sobre o Sport Boys. Logo depois, em 19 de fevereiro, confirmou seu favoritismo vencendo o clássico contra o Universitario em pleno estádio do rival. Porém o ato seguinte foi a suspensão da partida contra o Cesar Vallejo na véspera por impedir a entrada de câmeras de televisão dentro de seu estádio. O que levou a prejuízos imediatos a jogadores adversários já em viagem para a partida e a torcedores locais que esgotaram os ingressos. Porém, longe de querer sugerir que os dirigentes do Alianza enfrentam a federação para defender os clubes em geral, mas sim para defender os massivos investimentos próprios e, portanto, precisam jogar e ganhar para terem retorno.

Já para o início de março novamente a judicialização da política e do futebol parecem coincidir. Sobre o ex-presidente da república, Pedro Castillo, diante de sua prisão preventiva por 18 meses por suposto crime de rebelião (no episódio de dezembro), se travam intensas disputas. Os partidos de esquerda querem sua liberdade condicional, enquanto por outro lado o Ministério Público quer nova condenação a 36 meses por organização criminosa. Enquanto o presidente da federação peruana, Agustin Lozano, no front contra os clubes vinha obtendo um alívio provisório, porém no front contra a “Fiscalia” (Ministério Público) se viu “emparedado” com visita de busca e apreensão de documentos que a entidade se negava a entregar para destravar uma investigação sobre organização criminosa. Nessa complexa trama Lozano “juega su proprio partido” tentando manejar os prazos e as medidas, violando com frequência o regulamento que ele próprio impôs aos clubes e usando de adiamentos emergenciais de rodadas (mesmo com o torneio parcialmente iniciado) para ganhar tempo e mover suas peças para sua “sobre-vida” no cargo!

Ou seja, em disputas intra-dirigentes as “cartas marcadas” costumam ser por um lado o manejo de calendários e regulamentos pela federação, enquanto a narrativa de “contra tudo e contra todos” dos clubes por outro lado. Além de outro paradoxo dos clubes serem “rebeldes” apenas até o ponto de temerem os regulamentos da federação com o respaldo da Conmebol e até do TAS da FIFA, porém a federação teme no outro front as frequentes acusações de corrupção levadas à justiça comum. O que fomenta metáforas férteis de “curto-circuito” ou até “apagão” diante da instabilidade a cada rodada impedir garantir sequer uma reprodução comercial mínima do futebol.

Vide menção a um contexto de várias ligas nacionais sul-americanas discutindo como captar recursos e desenvolver negociações conjuntas para aumentar a competitividade financeira e esportiva, recordando o Brasil dos últimos anos de vários elementos articulados: “MP do Mandante” sobre direitos de transmissão logo regulamentado em PL, SAFs e negociações em andamento em dois blocos Superliga e Forte Futebol (embora sem prejudicar ainda o andamento das partidas por dizer respeito a contratos futuros). Em suma, o cenário peruano parece emergir como todo o oposto de seus vizinhos diante do risco de remanejamento do tema de direitos de transmissão levar a uma profunda insegurança jurídica tendo como efeito colateral imediato a insegurança esportiva um dia após o outro com partidas podendo ser adiadas ou suspensas “na calada da noite” ao bel-prazer da federação como represália contra os clubes minando suas últimas resistências. O vídeo no final do texto ilustra esse cenário de calamidade no futebol peruano.

Por fim, busco esboçar um balanço desses 2 anos dos posicionamentos públicos que articulam política e futebol. A pesquisa que fiz nos últimos dias não permite afirmar que jogadores e clubes convergiram tanto dos discursos políticos agora no final de 2022 tal qual no final de 2020 (conforme citei no início do texto). O que permite especular ocorrer uma indiferença recente por duas hipóteses: por um lado, o caráter excepcional de 2020 abrindo um novo ciclo de lutas “desde baixo”; enquanto por outro lado, o caráter regionalizado e até “esquerdizado” de 2022 em que um repúdio à repressão policial (embora agora muito mais grave com várias dezenas de mortes a mais) poderia ser interpretado como posicionamento a favor de Castillo. Ao não quererem assumir esse risco de ambivalências, tal qual nas eleições de 2021 lhes parece mais fácil uma visão binário de “cidadão de bem” x “terrorista” tão convergente com a narrativa midiática fujimorista. Dessa forma, os principais jogadores agem como massa de manobra apenas reproduzindo a ofensiva midiática da direita e da extrema direita contra os movimentos populares de esquerda. O que talvez com alguma imaginação permita ampliar essa hipótese, pois em diversos países a “boleiragem” tende a uma indiferença política diante desse tipo de crise política profunda. E mesmo quando se posiciona costuma ser no máximo escondida atrás de um patriotismo abstrato, conforme os exemplos já levantados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Retrospectiva da “nova-velha” crise na política peruana e o futebol como sua chave de leitura. Ludopédio, São Paulo, v. 165, n. 16, 2023.
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