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Liberdade, Igualdade e Fraternidade: a Revolução Anti-Monopólio Flamenguista

Marco Lourenço 6 de julho de 2020

Mesmo após décadas na primeira prateleira da Rede Globo, recebendo, inclusive, a maior parte do bolo dos direitos de transmissão, o Flamengo se une ao olavo-bolsonarismo e se torna rival da maior emissora do país.

Ao usar a expressão “Revolução”, essa grande ala flamenguista levanta a bandeira anti-monopólio, emprestando a simpatia de parte da opinião pública – e, claro, da plutocracia – ao defender o mítico liberalismo.

Convido o leitor a pensar junto sobre esse enredo, trazendo de forma análoga outros dois pilares simbólicos da era revolucionária burguesa, formando aquele lema conhecido de suas aulas de História: liberdade, igualdade e fraternidade.

LIBERDADE

A disputa pela distribuição de cotas foi um assunto debatido com exaustão na última década, e claro, não falta insumo para reflexão no @ludopedio. O número de partidas transmitidas, o tamanho das torcidas e as fatias para cada clube nortearam esse debate.

Sem uma negociação coletiva que pudesse trazer benefício mais amplo aos clubes sempre foi lamentada por quem busca um campeonato mais isonômico economicamente. Mesmo assim, o Flamengo sempre foi o mais beneficiado, seguido de Corinthians e São Paulo, respectivamente.

Então, o que fez o Flamengo assumir a liderança dessa ruptura com a detentora dos direitos? Evidente, a busca por mais arrecadação. Ah, essa tal liberdade. E em quarentena, a ansiedade e a pressa da diretoria do clube para o retorno precoce do futebol e a arrecadação subsequente ficaram explícitas. Aliás, que fique registrado o repúdio à flexibilização da quarentena no país que no dia da publicação deste texto, 6 de julho de 2020, chega perto de 60 mil vidas perdidas pela pandemia.

Mas esse não é o assunto central do texto. Voltemos a essa tal liberdade. Até aí, alguns dirão que o presidente rubro-negro Rodolfo Landim faz o que outros não fazem: brigar pelos interesses do seu clube custe o que custar. O importante é ter um time rico e campeão. Mas é só isso mesmo que se trata?

O projeto de hegemonia esportiva rubro-negra tem sido comentado como uma “bayernização”. E dominar o futebol passa também por dominar a comunicação sobre o futebol. Recomendo a leitura do @maurocezar sobre o assunto. A seguir, alguns números expressivos da hegemonia no futebol europeu na última década:

Alemanha (2010-2020) – Bayern Munique (9), Borussia (2)
Espanha* (2009-2019) – Barcelona (8), Real Madrid (2), Atlético Madrid (1)
França (2010-2020) – PSG (7), Monaco (1), Lille (1), Montpellier (1)

Lembremos: os democratas e progressistas do Brasil sempre se posicionaram de forma crítica ao papel da Rede Globo na política e também no futebol. O monopólio da TV sempre foi um ponto chave. Mas ao restringir a transmissão para um canal do próprio clube (FLA TV), o conteúdo muda drasticamente.

A prática do jornalismo esportivo, tão discutida pelos seus limites de imparcialidade, se encerra na transmissão deliberadamente torcedora. O conteúdo jornalístico dá lugar a um conteúdo de torcedores, afastando a divergência, o debate e a pluralidade possível em uma cobertura de imprensa.

Tal constatação é sintomática de um país polarizado em que a alteridade se tornou belicosa. Mais um indício do nosso fracasso civilizatório como nação?

Separemos as coisas aqui e que fique claro: ninguém é ingênuo em ignorar os interesses e usos de quem detinha os antigos monopólios. Mas sejamos francos: o que será da transmissão esportiva se cada clube transmitir seus próprios jogos?

Uma nova experiência para quem assiste, no mínimo. Já existem webrádios de torcedores. Nichos de conteúdo sem as preocupações jornalísticas. Mas há quem defende, por motivos razoáveis. O historiador e psicanalista Ariam Castilho Cury, grande amigo e interlocutor dos debates mais variados, é um deles. Como palmeirense, Ariam sustenta essa tese como uma forma mais justa de dividir as receitas das transmissões, afinal, a discrepância da arrecadação das cotas na última década de Flamengo e Corinthians para os demais também distorce a competitividade do campeonato brasileiro.

Mas volto a dizer: o que será das transmissões se os mandantes forem os únicos responsáveis pelas transmissões? Ao invés da dúvida, teremos a certeza da imparcialidade na narração, comentários e entrevistas à beira do gramado. Podemos imaginar com alguma razão. O grito de gol do seu time será chocho no canal do seu adversário, talvez sem muitos replays. Segundo os comentaristas, a arbitragem sempre estará prejudicando o seu time, pelo menos se ele for mandante e transmissor da partida. E assim por diante.

O espaço para a discussão pós-jogo terá um clubismo ainda mais explícito. Já deu pra entender um pouco da preocupação deste que escreve, mas pergunto genuinamente a dúvida: é assim que queremos assistir aos jogos no Brasil?

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, fala à imprensa sobre o incêndio no centro de treinamento do clube, na zona oeste da cidade. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

Antecipo uma possível réplica a esta argumentação. Poderia ser uma etapa transitória para transmissões independentes com credibilidade? Será que com o passar do tempo – supondo uma disputa por reputação entre os canais – poderíamos ter coberturas compromissadas com uma certa honestidade jornalística e intelectual? Com o passar do tempo, a competição por transmitir o melhor canal de futebol, como extensão da rivalidade e da própria lógica liberal de livre-concorrência faria com que os conteúdos pudessem ganhar atributos jornalísticos, como tentativa de isenção e distanciamento do objeto?

É apenas uma suposição. Seria esse o resultado dessa “revolução”? Volto à analogia inicial do texto. As revoluções liberais da virada do século XVII-XVIII que, dentre muitos outros temas, defendiam o combate ao monopólio presente na estrutura de poder do Antigo Regime.

A ruptura deu origem ao liberalismo econômico que rompe com o exclusivismo aristocrático, entregando à classe detentora dos meios de produção todo o aparato de controle do Estado. Essa plutocracia se beneficia de constituição, rituais políticos e expressões civis (arte e meios de comunicação) que preservam seus interesses.

Mas isso é assunto que eu deixo para minhas aulas de História. Esse aposto serve pra lembrar que a maior parte da população está à margem dessa disputa. O que nos leva ao segundo tópico deste texto: essa tal liberdade que a revolução anti-monopólio invoca é boa pra quem? Haveria igualdade nessa revolução?

IGUALDADE

É preciso compreender que a cidadania brasileira continua sendo para poucos. O rádio e a TV aberta derivadas das concessões públicas estão longe de alcançar sua potencialidade democrática, pelos motivos que todos estamos cansados de saber. Mas são meios abrangentes e consolidados que alcançam até mesmo quem não tem rede de esgoto em sua rua. Milhões de brasileiros podem ver a rodada de domingo do Brasileirão, emendar com o Faustão e ainda o Fantástico, sem ter saneamento básico.

As pesquisas sobre acesso à internet no Brasil divergem um pouco entre si, mas é inegável o seu crescimento. No entanto, esse acesso é precário, ao menos para 70 milhões de pessoas. Confunde-se o acesso à internet à aquisição de dispositivos móveis. Hoje são mais de 220 milhões de linhas de telefone celular. 58% dos brasileiros acessam a rede exclusivamente pelo telefone móvel, proporção que chega a 85% na classe DE.

E confunde-se acesso à internet com acesso ao limitado pacote de dados que permite o uso de redes sociais, e em sua maioria, ao Whatsapp. Para milhões de brasileiros que foram incluídos digitalmente nos últimos anos, o acesso à internet se resume aos “grupos do zap” de família, escola, amigos. Conteúdos de importantes veículos de imprensa escrita que têm restrição de visitas, como Folha, Estadão ou mesmo os mais novos, como o Nexo, não chegam a essas pessoas.

A consulta por informações é, portanto, restrita. Sequer é uma possibilidade. Se a “extrema imprensa” é mentirosa, cheia de comunistas globalistas financiados pela ONU e quer derrubar o presidente, é melhor confiar no grupo do WhatsApp de sua seita. O famoso cinismo “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Essa realidade permitiu uma engrenagem de disparos de mensagens e uso de robôs que está sendo investigada pela CPI da Fake News – já falo mais a respeito. Diante desse quadro tão desigual de acesso à internet, o clube com maior torcida do país, visceralmente identificada às pessoas mais pobres e que canta “Festa na Favela” transmitirá os jogos pelo seu canal do Youtube. A Festa na Favela poderá ser assistida na Favela? Com os pacotes de dados mais comuns, será possível pra poucos.

Ah, essa tal liberdade. Ah, essa tal igualdade. Essa “revolução flamenguista” também revela uma grande fraternidade que não mora na passado da Geral do Maracanã ou no presente das favelas tomadas pelas milícias.

FRATERNIDADE

O atual desgovernante do Brasil já vestiu mais de 44 camisas. Pra quem quiser acompanhar essa escalada promíscua messiânica por times de futebol, acompanhe o levantamento do meu amigo historiador Victor Figols, também companheiro de trabalho no Ludopédio.

Mas o manto rubro-negro de Leônidas, Zico e do super time de Jorge Jesus caiu na preferência do presidente. Vencer custe o que custar ou estar ao lado de quem vence é também expediente da base olavo-bolsonarista. E nada melhor do que tirar muitas selfies ao lado do melhor time da América do Sul e mundialmente conhecido como o “time do povo”.

Essa aproximação toda não demorou a se tornar uma relação de fraternidade, como bons amigos. E hoje, aliados numa guerra entre o obscurantismo e a democracia. Nada de novo no front da história, em que diversas vezes liberais usaram o fascismo para fazer o serviço sujo que atende seus interesses. Contar com uma base flamenguista no momento mais escatológico da Nova República vem a calhar, sobretudo para quem perde a popularidade um dia após o outro.

Já o presidente Rodolfo Landim segue com seu projeto de poder. E começa a demandar as contrapartidas do governo. Começando por exigir o retorno do futebol. Assunto que já foi discutido bastante no Ludopédio e por muitos outros parceiros. Mais recentemente, o Flamengo passou a exigir ressarcimento do governo brasileiro referente a 5 anos de cobrança de meia-entrada.

Não pretendo me aprofundar tecnicamente nesse ponto, no entanto, é inegável notar que a “Festa na Favela” parece ficar em segundo plano na revolução flamenguista. A lei da meia-entrada é um mecanismo de correção da desigualdade socioeconômica brasileira. Um time popular deveria ao menos se engajar em defender os interesses de seus torcedores, em sua maioria, pobres e periféricos.

E o movimento central estratégico da “revolução flamenguista” anti-monopólio encontra o fraterno apoio da base desgovernista ao romper com a Rede Globo. Ao invés do novo partido que o presidente tentou criar, talvez seja essa a Aliança Pelo Brasil que se tornou efetiva. O elo tem se revelado ainda mais profundo que parece. O mesmo mecanismo criminoso do Gabinete do Ódio usado para atacar opositores e críticos, com fake news, injúrias e difamações começa a ser replicado por torcedores do flamengo.

Ataques a jornalistas críticos à administração do Flamengo não são novidade. Em especial, desde o trágico e criminoso incêndio que tirou a vida de meninos da base do Flamengo. O turning point desses ataques é que agora tem a expertise de quem domina a arte do ódio.

O jornalista Flávio Gomes que já foi entrevistado pela nossa equipe e participou de um dos últimos #LudopédioemCasa se tornou um dos grandes alvos. Ao denunciar a milícia digital flamenguista, Flávio recebeu provocações até de Rodolfo Landim. A resposta pronta e simplista nas redes não é surpreendente. Acusam o jornalista de hipocrisia ao usar o argumento… da tal liberdade. De expressão e de imprensa, no caso.

No mais, a discussão acaba sendo achatada, como de praxe, por quem tem pouco apreço à democracia, ao conhecimento, e claro, aos fatos. Invalidam as opiniões e notícias que degradam ou atrapalham seus objetivos, ao mesmo tempo em que dão voz e legitimidade aos apoiadores da esfera olavo-bolsonarista. Outro traço comum das agressões e ameaças digitais é acusar o outro de fazer aquilo que o próprio acusador faz. Coisa típica do fascismo, sabemos. Coisa típica que a base olavo-bolsonarista faz, também sabemos. E agora, típica da fraterna aliança flamengo-olavo-bolsonarista, o que precisamos entender.

Há muitas considerações faltantes nesse texto. Muitas lacunas e aprofundamentos necessários. É preciso deixar também registrado algumas vacinas anti-cornetas rasos: (1) não é apenas o Flamengo que se aproximou da base desgovernista, mas é seu #BFF, sem dúvida; (2) não é apenas o Flamengo que viola suas próprias tradições populares, a diretoria do Corinthians, time do coração deste que escreve, sangra dia após dia sua tradição; (3) e não são todos os flamenguistas que apoiam Landim, tampouco são todos os que apoiam o presidente. Longe disso. Ainda bem.

Ao chamar de “revolução”, esse movimento da direção flamenguista rotulado como anti-monopólio – direta ou indiretamente – nos permite resgatar seja como metáfora ou como simetria a tríade francesa liberdade, igualdade e fraternidade. À plutocracia que derrota um velho inimigo da democracia, toda a liberdade. Aos mais de 40 milhões rubro-negros, a igualdade é ficto. Aos laços profundos do comando do Flamengo e a parte da torcida mais rica com a base olavo-bolsonarista, a fraternidade é fato.

O time mais nacional do país e que tem a maior torcida conviveu muitos anos somente com o cheirinho da vitória. Na virada de 2019-2020, o Flamengo se tornou o clube mais forte financeiramente. O time mais vitorioso e talentoso esportivamente. E o time mais poderoso politicamente.

Nos tempos do cheirinho, problemas existiam, claro. Convido o leitor a refletir, dialogar e aprofundar, em especial o rubro-negro democrata. O cheirinho de outrora era amargo, o anticlímax da glória e do grito de campeão engasgado. Certamente, você, rubro-negro democrata, prefere o cheiro amargo da derrota do que o cheiro putrefato da vitória ao lado de quem abandona sua própria torcida, suas próprias tradições populares.

O cheiro da prosperidade econômica a todo custo atravessa tanto a diretoria do Flamengo quanto o próprio governo brasileiro. Ela também tem o cheiro dos corpos queimados do Ninho do Urubu. Ela também tem o cheiro das centenas de covas abertas pelo país das vítimas da Covid-19.

A mentira faz parte do mundo da política, como Hannah Arendt trata em Entre o Passado e o Futuro. Repetir mentiras e distorcer os fatos são práticas comuns. Servem também para mascarar intenções e interesses. Como por exemplo, chamar de Revolução aquilo que sabemos que é um Golpe.

Não tem máscara que nos impeça de sentir esse cheiro. A “revolução flamenguista” fede Bolsonaro.

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Marco Lourenço

Professor, Mestre em História (USP), Divulgador Científico (Ludopédio) e Produtor de Conteúdo (@gema.io). Desde 2011, um dos editores e criadores de conteúdo do Ludopédio. Atualmente, trabalha na comunicação dos canais digitais, ativando campanhas da Editora Ludopédio e do Ludopédio EDUCA, e produzindo conteúdos para as diferentes plataformas do Ludo.

Como citar

LOURENçO, Marco. Liberdade, Igualdade e Fraternidade: a Revolução Anti-Monopólio Flamenguista. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 15, 2020.
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