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Roger Milla – a “excelência” de um leão indomável

Com a bola nos pés surpreendia a todos com sua habilidade e agilidade em entrar na área e colocar a bola na rede, no arranque, era fatal. A comemoração mostrava sua irreverência. Um samba na frente da bandeirinha de escanteio. A maioria das pessoas deve achar que estou descrevendo algum jogador brasileiro, mas só a sua inspiração vinha do país tupiniquim. A origem do jogador era distante, na África Central, em Camarões. E o seu nome é Roger Milla.

O atleta marcou época e história em duas Copas do Mundo – 1990, na Itália, e 1994, nos Estados Unidos – muito pela campanha marcante de Camarões no país da bota e pelo recorde quebrado quatro anos depois: o jogador mais velho a assinalar um gol pela competição mais importante da FIFA, 42 anos e 39 dias. Até hoje, essa marca continua intacta.

Carreira nos Clubes

O grande sucesso na seleção não foi proporcional ao que viveu em clubes no futebol europeu. O atleta começou sua carreira em Camarões, onde se destacou principalmente no Tonnerre Yaoundé, sendo campeão da Copa de Camarões – uma espécie de Copa do Brasil -, em 1975, a qual lhe rendeu o título de melhor jogador do continente no ano seguinte. Com o prêmio individual no currículo, sua ida ao velho continente era questão de tempo.

Roger Milla foi atuar no campeonato francês, um dos torneios que mais aproveita os jogadores africanos na Europa, mas lá não se firmou em nenhum clube. Passou por Valenciennes, Mônaco, Bastia, Saint-Etiénne, Montpellier e Saint-Pierroise. Nesses, teve momentos marcantes no Mônaco, como a conquista da Copa da França, em 1980, e no Bastia, equipe em que fez o gol do título da Copa da França, em 1981, contra o Saint-Etiénne, de Michel Platini.

Porém, quando vestia a camisa verde de Camarões, era um leão indomável – como a seleção foi apelidada na Copa de 1990. Aliás, Copa do Mundo e Roger Milla é uma união que gerou frutos até hoje. O início dessa boa relação aconteceu em 1982, na Espanha, onde o país africano debutava em mundiais. O grupo não foi dos melhores, já que teria de bater de frente com Itália – que viria ser a campeã -, Polônia – na época da geração de ouro, com Lato, Boniek e Smolarek -, e Peru, de Téofilo Cubillas.

No entanto, o time não fez feio, pelo contrário, surpreendeu e conquistou a terceira colocação, com o mesmo número de pontos da Itália, que ficou à frente por conta dos gols pró. E o curioso é que o Camarões quase ia eliminando a futura campeã daquele torneio. No jogo da fase de grupos contra o Peru, o qual terminou em 0 a 0, o próprio Roger Milla marcou o que poderia ser o primeiro tento do país africano em mundiais, mas o juiz anulou de forma equivocada. Caso vencesse aquela partida, a Itália seria eliminada.

Já “aprontando” na sua primeira participação, a sua segunda seria marcada para sempre na história dos mundiais, e Roger Milla seria a cara desse triunfo.

Fazendo História na Itália

A Copa de 1990 foi surpreendente, muito pelas seleções limitadas, os jogos chatos, e uma das piores médias de gols da história: 2,21. Porém, o lado positivo de tantas adversidades foi a campanha histórica de Camarões que – até então – foi a primeira melhor campanha de uma seleção africana na história, e Roger Milla foi essencial.

Lembrando que o craque camaronês estava jogando no futebol amador – nas Ilhas Reunion – e já estava com seus 38 anos de idade. Como era ídolo no país e poderia ser uma peça importante na Copa, o presidente Paul Biya o convenceu a jogar e exigiu do técnico soviético Valery Nepomnyashchy a utilização nas partidas. Mas nem precisou escalar no grito, Roger se dedicava bastante nos treinos preparatórios para estar apto a ajudar a equipe na estreia.

E o primeiro jogo da Copa de 1990 seria o de abertura, eles teriam pela frente a bicampeã Argentina, de Diego Armando Maradona. A expectativa era de uma vitória fácil da seleção albiceleste, mas o que viram foi um show de pancadaria de ambas as equipes, o futebol ficou de lado. Mesmo com um jogo violento e com um a menos, Camarões já começava a surpreender, vencendo pelo placar mínimo de 1 a 0 – com uma falha grotesca do goleiro Nery Pumpido, na cabeçada de Omam-Biyiki. A primeira zebra aconteceu.

O segundo jogo pelo grupo B foi contra a Romênia, como de praxe, Roger Milla começava no banco e entrava no segundo tempo para usar a sua experiência e seu oportunismo para ajudar os leões. Por conta desse fato, o já experiente atacante de 38 anos não sentiu a idade e anotou dois gols importantes que deram a vitória sobre a Romênia e a inédita classificação do país para as oitavas.

Roger Milla
Roger Milla comemorando um gol.

O mundo do futebol já estava perplexo com a agradável surpresa africana na segunda fase da competição e do seu maestro, que entrava para ser o pilar técnico e veloz. Nas oitavas, o adversário seria a Colômbia, do histórico goleiro Rene Higuita, que ficou conhecido pela defesa do escorpião, e muito antes de Manuel Neuer já participava do jogo com os pés.

A qualidade de Higuita era tamanha com a bola nos pés, o problema foi seu excesso de confiança. No tempo normal, o jogo ficou no zero, as duas equipes tiveram chances bem claras criadas. Como nas partidas anteriores, o experiente atacante entrou na fase final.

Em dois lances de puro oportunismo e vacilo defensivo adversário, Roger Milla aproveitou e marcou para os leões, que, a partir daquele momento, já eram indomáveis. A vitória histórica fez os jogadores entrarem para a história dos mundiais. Nunca o continente africano tinha ido tão longe no torneio mais importante do futebol. Feito que se repetiu em 2002, com Senegal; e em 2010, na África do Sul, com Gana.

O oponente das quartas seriam os ingleses, que faziam ótima campanha na terra da bota, e tinham os craques Peter Shilton, Platt e Gary Lineker. Para as pretensões camaronesas, a história estava mais que feita, depois de perder todos os amistosos antes da estreia contra a Argentina, chegar às quartas era algo surreal. Então por que não sonhar mais longe?

E não é que quase conseguiram, em pleno Estádio de San Paolo, casa do Napoli, Camarões e Inglaterra fizeram um certame digno de Copa do Mundo. O English Team abriu o placar no início, com Platt. Parecia que os africanos cederiam à pressão europeia. No segundo tempo, tudo mudou, Milla entrou e logo eles foram para a frente, e, mais uma vez, o camisa nove foi decisivo. Primeiro foi derrubado na área, pênalti que Kundé cobrou com perfeição para empatar. O segundo foi um passe milimétrico para o gol da virada de Ekéké.

O sonho estava indo muito longe, só que os assopradores de apito resolveram frear a alegria camaronesa, foram assinalados dois pênaltis inexistentes em cima dos jogadores ingleses. O artilheiro Lineker anotou os dois e mandou Camarões de volta para casa. Apesar da eliminação, o mundo já havia se encantado com os “leões indomáveis” e com seu principal líder, Roger Milla. A famosa cena dos jogadores dando a volta olímpica no Estádio San Paolo ficou guardada.

O recorde imbatível até hoje

Depois de fazerem história na Itália, quatro anos depois nos Estados Unidos, os leões indomáveis criaram altas expectativas antes do torneio, principalmente para nós brasileiros que iríamos enfrentá-los na primeira fase da competição.

Só que a queda nas expectativas foi grande para a seleção africana, que somou apenas um ponto em três jogos e amargou uma saída para casa mais cedo do que imaginávamos. O time conseguiu apenas um empate contra a Suécia e duas derrotas acachapantes para o Brasil e Rússia. Ao todo, na primeira fase, foram 11 gols sofridos em três jogos.

Relatos informam que os jogadores estavam mais preocupados com o prêmio em dinheiro – o famoso “bicho” – do que com a bola nos pés. É tanto que antes da partida contra a Rússia, quando tomaram de seis – em que só um jogador marcou cinco (Salenko) -, os atletas tinha recebido o agrado horas antes e aproveitaram noite adentro. A falta de concentração foi determinante em 1994.

No entanto, Roger Milla não acompanhou a farra dos seus companheiros e entrou para a história das Copas. O experientíssimo jogador estava com seus 42 anos. A idade avançada não foi problema quando ele entrou na área russa e assinalou o gol de honra dos leões.

Dessa vez era especial, Roger Milla tornou-se o jogador mais velho 42 anos e 39 dias a anotar um gol em Copas. Um feito e tanto.

Na época, ele ainda tinha o recorde de participante mais velho da história do torneio, porém, acabou sendo quebrado pelo arqueiro colombiano, Mondrángon – com 43 anos, na Copa de 2014. Só que em 2018, o também goleiro egípcio Essam El-Hadary, com 45 anos, detém esta marca.

Aos 45 anos, o velho leão camaronês se despediu dos gramados pelo time indonésio Putra Samarinda, em 1997. É considerado o mais proeminente ícone do futebol africano. E muitos o chamam de “Excelência”.


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Pedro Henrique Andrade Dias

Estudante de jornalismo, cinéfilo e amante de esportes

Como citar

DIAS, Pedro Henrique Andrade. Roger Milla – a “excelência” de um leão indomável. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 31, 2021.
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