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Ronaldo “Anjo-Lim”: o abençoado de Padre Cícero

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 15 de março de 2021

“Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó
A maleta era um saco e o cadeado era um nó
Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau de arara

Eu penei
Mas aqui cheguei […]”

O trecho da letra da música “Pau de Arara”, do rei do baião Luiz Gonzaga, ecoa na história de um sem-fim de nordestinos, que saíam e saem de suas terras para tentar a vida no Sudeste brasileiro.  Ressoa também com a trajetória do zagueiro Ronaldo Angelim, que saiu da cidade de Porteiras, no Ceará, para fazer história no Rio de Janeiro com a camisa do Flamengo. Angelim nasceu em Juazeiro do Norte, mas passou sua infância e adolescência na cidade de Porteiras. E de “porteiras” ele entendia bem: como zagueiro soube fechar as do rubro-negro carioca de 2006 a 2011, nos 284 jogos que fez com a camisa do clube. Foram quatro títulos estaduais (2007-2008-2009-2011) e dois títulos nacionais (Copa do Brasil de 2006 e Campeonato Brasileiro de 2009).

No Flamengo, Ronaldo foi uma mescla de zagueiro aguerrido com torcedor apaixonado. Rubro-negro desde criança – como milhares de outros nordestinos – veio para o Rio de Janeiro ganhar muito mais do que a vida; veio ser ídolo de uma Nação. É dele a frase: “Minha única vaidade é ver o Flamengo vencer”. Porém, para entender a história de Angelim no Flamengo é preciso nos remeter ao milagre de seu nascimento – milagre este proferido por Padre Cícero.

Diz a lenda, que a mãe de Angelim, quando grávida do mesmo, foi acometida por um mal e quase perdeu o filho que trazia no ventre. Contudo, o milagreiro Padre Cícero, no momento em que o feto/menino já se dirigia ao “feixe de luz branca”[1], pegou-o pela mão e disse: “Daqui você não passa!”. Padre Ciço, como é popularmente conhecido, então se ajoelhou e, colocando a mão na testa de Ronaldo, o abençoou. E assim, o pequeno deu a volta e retornou a vida no ventre de sua mãe, de onde saiu meses depois (para sermos mais precisos, em 26 de novembro de 1975). Até hoje se acredita que as palavras proferidas pelo padroeiro do Nordeste fizeram de Ronaldo Angelim um zagueiro – “Daqui você não passa!”.

Ronaldo Angelim Padre Cícero
Ronaldo Angelim e Padre Cícero. Foto: Reprodução Facebook

Além de Padre Cícero e Ronaldo Angelim, o Ceará é rico em celebridades da resistência e da arte. Por exemplo, o jangadeiro, prático de embarcações marítimas[2] e abolicionista da escravidão “Dragão do mar”; a farmacêutica Maria da Penha que, por sua luta em defesa dos direitos das mulheres, teve uma lei sancionada com seu nome, em 2006; o cantor e compositor Belchior que, com suas músicas, contestou os problemas sociais e políticos do Brasil e foi perseguido na época da ditadura, exilando-se em seguida; e ainda, o gênio literato, poeta e músico Patativa do Assaré, por sua capacidade de dessacralizar a arte e trazê-la para perto do povo sertanejo. De todos esses, Angelim herdou a capacidade de resistir e lutar com arte.

Ah, mas o Ceará também é conhecido pela sua ruma de humoristas: Chico Anísio, Renato Aragão e Tom Cavalcanti. Desses, Angelim representa o contrário. Afinal, ali atrás – na zaga do Flamengo – nunca brincou e nem fez piadas; sua maior diversão era a magia de tirar a bola dos adversários.  Era sisudo, “tolerância zero” como outro humorista da terra do sol. Sim! Estamos falando do folclórico “Seu Lunga”, com esse, sim, o Ronaldo Angelim parecia enquanto zagueiro. Seu Lunga, além de piadista e poeta, tornou-se personagem recorrente da literatura de cordel, sendo a ele atribuídas inúmeras anedotas sobre seu temperamento mal-humorado e ranzinza. Diz-se que o filho de Seu Lunga jogou bola com Angelim, e só não seguiu carreira porque uma vez, jogando na várzea, levou uma pedrada no joelho da qual nunca se recuperou. Tal evento, inclusive, está registrado nos diversos livretos de cordel, com as piadas clássicas de Seu Lunga, espalhados todos pelo Nordeste. Vamos ao caso desse dia fatídico:

“O filho do Seu Lunga jogava futebol em um clube local. Um dia Seu Lunga foi assistir a um jogo de sua cria no estádio, quando o sujeito sentado a seu lado lhe pergunta:

– Seu Lunga, qual dos jogadores ali é o seu filho?

Seu Lunga aponta e diz:

– É aquele ali…

– Aquele qual?

– Aquele ali!!!!

– Não tô vendo…

Então, Seu Lunga “P” da vida pega uma pedra e a joga em seu filho e diz:

– É aquele ali que começou a chorar!!!”

Por sorte, naquela trágica tarde aquele sujeito não pediu a Seu Lunga pelo filho de Antônio e dona Francisca, pois a pedra então iria na direção de Ronaldo Angelim. Depois de sua passagem vitoriosa pelo Flamengo, Angelim também se consagrou como personagem folclórico do Nordeste – a exemplo de Seu Lunga. Sim, o Flamengo tem igualmente essa capacidade de transformar jogadores em lendas regionais, em ídolos nacionais.

Se esta região brasileira é, como vimos, um território farto de produção de seres, que nos diversos campos da arte são sinônimos de resistência, Angelim é um personagem que corporifica toda a potência da arte nordestina pela via do futebol. Ronaldo Angelim foi artista do esporte mais popular do Brasil, num clube de massa – o Flamengo é o time de maior torcida. No Mengão teve um papel significativo, haja vista que o zagueiro foi protagonista fundamental na conquista de um título nacional (Campeonato Brasileiro) que o clube, na época, não alcançava há dezessete anos.

Ronaldo Angelim
Foto: Reprodução Facebook

Se, para os filósofos Deleuze e Guattari (2010), o papel da arte é tornar perceptível afectos, “dando corpo” a um povo porvir, foi com a potência de seu corpo que Ronaldo Angelim possibilitou à Nação Rubro-Negra expressar novamente suas alegrias. Se a torcida flamenguista é a maioria em número, a maior parte dele é composta de minorias, isto é, pessoas que são excluídas de direitos e oportunidades na vida. A Nação Rubro-Negra é a torcida que possui a maior quantidade de “ninguéns”[3] do Brasil. Ao vir do Nordeste com todo um repertório de arte misturado com resistência, Angelim é representante nato dessa Nação, pois ele é um desses “ninguéns” para os quais o verbo viver significa resistir, e a vida é sinônimo de luta e resistência, tal como sua trajetória no “mais querido do Brasil”.

Não sabemos se a história do zagueiro já foi tema da literatura de cordel, mas o gol do título Brasileiro de 2009, anotado de cabeça por Angelim, virou estrofe de uma música de torcida intitulada “Lembrar você: sou campeão mundial”. O trecho da música que retrata o gol do camisa 4 diz assim: “Bonita foi a festa do Hexa com o Imperador, o gol do Angelim no escanteio que o Pet cobrou …”.

A letra narra a memória do dia 06 de dezembro de 2009. Era a última rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano e o Flamengo estava dois pontos à frente do Internacional (de Porto Alegre) e precisava vencer para se garantir campeão, sem depender dos adversários.  O antagonista daquela tarde era o Grêmio – arquirrival do colorado – que já não tinha pretensões no torneio.  No entanto, aos 20 minutos do primeiro tempo, quem abria o placar era o time gaúcho com o gol do camisa 9, Roberson. O Maracanã se calou, até que nove minutos depois, David Braz empatou para o Flamengo, dando cifras finais ao placar do primeiro tempo: 1 gol para cada lado.

A segunda etapa inicia tensa, a torcida cantava tímida na tentativa de empurrar o time, e o Flamengo, muito ansioso, não conseguia levar perigo à meta do Grêmio. O cronômetro marcava 24 minutos, escanteio para o Mengão. Petković vai para a cobrança do corner. Angelim sai do campo de defesa para tentar o gol na bola aérea. No entanto, no meio do caminho pausa para dar uma bronca no companheiro de equipe Airton, que queria deixar o gramado por causa das fortes câimbras. Essa suposta parada fez com que o zagueiro retardasse sua chegada na área do time adversário. Pelo atraso, ninguém marcou o zagueiro, que veio detrás e subiu livre para virar o jogo: Flamengo 2 x 1 Grêmio.

Ronaldo Angelim
Gol de Angelim contra o Grêmio. Foto: Reprodução Facebook

Lembra da mão de Padre Ciço na cabeça de Angelim para abençoá-lo e trazê-lo de volta à vida? Exatamente… Foi bem com essa parte do corpo que o zagueiro golpeou a bola para virar o “anjo-lim” de uma Nação e trazer o Flamengo de volta ao topo do Brasil, depois de quase duas décadas.

No Vaticano, o gol de Angelim foi acrescido como parte do dossiê para justificar a santificação de Padre Cícero. Porém, no Brasil – e principalmente no Nordeste – Padre Ciço já é considerado santo e padroeiro. Por sua vez, Ronaldo Angelim é muito mais que isso: “É ídolo do Mengão!”, santo milagreiro de uma Nação.

 

Notas

[1] O “feixe de luz branca”, “um túnel de luz” … Essas são metáforas comuns atribuídas ao elo de passagem da vida terrena à dimensão da morte. No imaginário coletivo, o caminho em direção ao Além é uma via de luz.

[2]  A profissão de prático de embarcações marítimas lida de forma direta com as tripulações das embarcações durante o trânsito nas chamadas “Zonas de Praticagem” em locais próximos dos portos, onde ocorrem as manobras de atracação e desatracação. São guias que conhecem as condições naturais e os riscos da área aquática em que atuam.

[3] Aqui a palavra ninguém faz alusão aos sujeitos invisibilizados pelo sistema econômico e pela história do direito. Corpos abjetos que vivem à margem do acesso mínimo à dignidade.

Referências

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.


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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Ronaldo “Anjo-Lim”: o abençoado de Padre Cícero. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 31, 2021.
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