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Sair do armário, jogar futebol e manter a fé: os dilemas de Colton Underwood

Até poderia ser ficção de um filme adolescente com típico enredo no qual o capitão da equipe de futebol americano se relaciona com a líder da torcida, se casa e constitui uma família, como sempre vimos em produções fílmicas estadunidenses de ditos “finais felizes”. No entanto, ao contrário do previsível, tal capitão se assume gay e todo um roteiro arquitetado a partir da cisheteronormatividade é implodido. ‘Saindo do armário com Colton Underwood’ (Coming out with Colton Underwood) é uma série da Netflix de seis episódios sobre o atleta nomeado no título, um ex-jogador de futebol americano que se assume gay.

A série é uma produção autobiográfica que traz Underwood em peregrinação por todas as instituições que o formaram, como família, igreja, mídia e futebol, com o intuito de dialogar com elas acerca da questão espinhosa de sua nova orientação sexual. O atleta sofre, inclusive, durante as filmagens, em tomadas nas quais chora ao contar que se descobriu homossexual e necessitava sair do armário para não se suicidar – algo que também havia tentado.

E por que, mais uma vez, vale a pena falar sobre a importância da saída do armário da sexualidade no meio esportivo? Ou ainda: por que o caso de um atleta no interior dos Estados Unidos serve para que repensemos nossas expectativas e prerrogativas sociais sobre atletas?

Ora, o esporte moderno nasceu no fim do século XIX e foi instaurado como modelo para que jovens em formação se tornassem “homens”. A esportividade funcionou como prerrogativa de uma masculinidade que alimentava o ethos guerreiro, valorizava a virilidade e afastava dissonâncias, como a efeminação. Homens deviam ser fortes, viris, masculinos, agressivos e heterossexuais.

Saindo do Armário com Colton Underwood

É o que acontecia com Colton. A questão em ser um jogador de futebol americano e a cisheteronormatividade do mundo social fazia com que ele pisasse em “dois lados do campo” ao mesmo tempo, tendo que, por vezes, tomar decisões por ser o capitão do time, e noutras, decidir de fato a qual orientação sexual seguia, visto que lidava com sua aceitação em ser gay. “You’ll get throught this” e “Don’t be gay” algo como “você vai ultrapassar tudo isso” e “não seja gay”, eram mantras que o jogador dizia a si mesmo constantemente, tentando se livrar de conflitos internos acerca da sexualidade e de expectativas externas sobre ela, porque era visto como stalion (garanhão) e conquistador de mulheres.

Lidar com a homossexualidade é algo que ninguém nasce querendo enfrentar, mas assim como no caso do atleta, a não aceitação e a homofobia internalizada são o primeiro episódio de muitos conflitos internos até saber encarar as questões subjetivas do desejo não heterocentrado. Embora a maturidade sexual ocorra no período conhecido como a puberdade, muito tempo antes disso já somos capazes de nos entender sexualmente, lidando com a expressão desta compreensão apenas naquele momento da vida. Colton conta que já aos 6 anos identificava “algo diferente” em si.

Se atletas são estereotipados no mundo esportivo, sobre os homens recaem demandas tanto acerca de suas performances, quanto de suas sexualidades. Em se tratando do futebol americano e da jock culture (cultura atlética) dos EUA, as expectativas sociais são muito altas a respeito de uma virilidade heterossexual e cisgênero. É a performatividade baseada na heterossexualidade e na cisgeneridade como invenções que o senso comum espera de um corpo-homem. Nos episódios da série em que se defronta com a família, igreja, público e futebol, vemos Colton se desdobrar para tentar desatar tais prerrogativas que ficaram pelo caminho.

Por mais que seja uma série encomendada pela indústria do streaming a versar sobre uma realidade esportiva, o enredo oferece elementos para outras situações dentro do esporte, mesmo quando tomamos distintas culturas e múltiplos futebóis. Tomando EUA e Brasil, por exemplo, temos países diferentes, culturas esportivas distintas, realidades que não se aproximam, mas os processos de estereotipação, discriminação e preconceitos contra expressões homossexuais no esporte são similares e postulam prerrogativas semelhantes.

O inusitado no caso de Colton é a questão da religião. Tendo crescido dentro da igreja católica, ele não quis abrir mão da fé por causa da nova orientação sexual – inclusive mostra e fala sobre a tatuagem de salmos que fez em um dos antebraços. O assunto é tratado de modo sério no quarto episódio, quando busca um grupo religioso que recebe homossexuais e, então, parece “fazer as pazes” também com o divino.

O atleta não foi o primeiro e nem será o último a se reconhecer homossexual no esporte. Aliás, como é mostrado no segundo episódio, quando seu amigo, Gus Wentworth, convida alguns conhecidos ex-atletas da NFL para conversarem e lhe oferecerem suporte. Alguns deles são David Kopay, o primeiro atleta a sair do armário no futebol estadunidense (e sobre quem esta coluna já tratou), Esera Tuaolo, ex-jogador do Atlanta Falcons na década de 1990, e Michael Sam, como sendo o primeiro atleta declaradamente gay a ser convocado pela Liga. Todos eles, de uma forma ou de outra, passaram por situações semelhantes às de Colton, porém cada um lidou a sua maneira e em seu tempo. Não obstante, todos enfrentaram seus conflitos internos, ansiedade, depressão e até tentativas de suicídio.

A série mostra a repercussão da mídia e dos fãs ao reagirem com a notícia de que uma das mais cotadas estrelas do futebol americano “saiu do armário” e como acabou obtendo apoio de outros atletas e famosos por esta decisão. Difícil mesmo foi ter que lidar com a ex-namorada Cassie Randolph, conhecida em um famoso reality show da ABC (chamado The Bachelor), e que após um relacionamento conturbado com Colton na época, pediu, inclusive, restrição judicial contra ele, acusando-o de perseguição.

Além de futebolistas americanos possuírem um tipo físico muscular definido produto de treinamentos pesados e intensos, o imaginário popular os associa a comportamentos viris também fora dos campos, imputando-lhes uma cisheteronormatividade obrigatória. Contudo, a sexualidade e suas expressões são algo que, definitivamente, não deveriam “estar em jogo” quando se avalia performances de resultados esportivos. O que fica da discussão colocada subliminarmente pela série é: a NFL estaria pronta para aceitar sexualidades dissidentes dentro de seus times e em seus campos?

Dessa forma, a produção desta série documental serve para destacar que histórias de coming out continuam acontecendo nos esportes, nos EUA e em outras partes do mundo, quer o mundo esportivo goste ou não. Além disso, o caso de Colton nos oferece a chance de revermos e repensarmos expectativas sobre atletas e seus corpos (e também sexualidades), de homens, mulheres ou outros sujeitos, dentro de esportes coletivos (mas também individuais).

Ou, ainda: a série serve simplesmente para nos alertar que vivemos em tempos extremamente conservadores, nos quais atletas ainda sofrem discriminações quando não estão alinhados com a cisheteronormatividade e não podem expressar seus desejos enquanto jogam e competem.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Luan Alves

Formado em Ciências Biológicas e entusiasta da escrita poética, é um observador da natureza e um curioso leitor sobre fatos históricos e biografias esportivas. Experimentou freesbee, capoeira e futebol americano, mas prefere mesmo é jogar video-game.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de; ALVES, Luan Lucena. Sair do armário, jogar futebol e manter a fé: os dilemas de Colton Underwood. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 27, 2022.
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