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Samba, ixejá e frevo: o futebol em Moraes Moreira

André Uzêda 13 de maio de 2020

Desde lá, quando lhe furaram a primeira bola, Antônio Carlos Moreira nasceu para o futebol. Em Ituaçu, destruiu vidraças, correu entre carros, gritos e apitos.

Foi também na pequena cidade, encravada no sudoeste baiano, que despertou a paixão pelo Clube de Regatas do Flamengo. As ondas curtas das rádios Globo e Tupi transmitiam as partidas do “rolo-compressor rubro-negro”, tricampeão carioca entre 1953 a 1955, na era pós-Zizinho. Era a vez de jogadores da estirpe de Joel, Evaristo, Dida e Zagallo.

Quando veio a ter em Salvador, Moraes já tocava violão. Ficou amigo de Tom Zé, agregou Moreira ao nome artístico e foi apesentado o poeta juazeirense Luiz Galvão. Era o estalo para formar a banda de samba, rock, choro e ixejá ‘Novos Baianos’.

Cartaz do Esporte Clube Bahia homenageando Moraes Moreira no dia de sua morte. Foto: Reprodução.

O futebol sempre foi presença marcante e orgânica no espírito do grupo. Juntaram-se Pepeu e seu irmão Jorginho Gomes; viriam também Paulinho Boca, Baby e Dadi. Depois de disputarem um festival de música na Record, foram todos morar juntos no Rio de Janeiro, num apartamento com poucos móveis, no bairro do Botafogo. Para desespero da vizinhança, nas horas vagas, jogavam golzinho entre os cômodos vazios.

O grupo cresceu e despontou para o sucesso com a gravação do primeiro LP, Ferro na Boneca. Viria, na sequência, o antológico Acabou Chorare. Ainda no início da década de 1970, mudaram-se para um sítio em Jacarepaguá, onde foram viver o sonho hippie de liberdade, em meio aos mais duros anos de repressão da Ditadura Militar.

O cachê dos shows e o adianto da gravadora serviam para comprar uniformes, chuteiras e equipar o time permanente de futebol. “A gente era tão obcecado em jogar bola, que às vezes a gente até esquecia que éramos de uma banda”, disse Moraes, em entrevista a Fátima Bernardes, no programa Encontro, da TV Globo. Paulo Cézar Caju, Jairzinho (craques da Copa de 1970) e Afonsinho (famoso por ser um jogador questionador e subversivo) eram presenças constantes nos babas organizados no sítio do conjunto.

Zico, Bobô e Osmar

O futebol sempre foi parte viva e estruturante na vida Moraes Moreira. No último dia 13 de abril deste ano, o cantor e compositor morreu de infarto em sua casa no Rio de Janeiro. Antes de se aventurar em carreira-solo, ainda gravou mais dois discos com seus antigos parceiros. Um deles, o terceiro, Novos Baianos Futebol Clube, traz a música Só se não for brasileiro nesta hora, inspiração para abrir este texto.

Já solo, em 1979, Moraes compôs Vitorioso Flamengo. Na letra fala de Ari Barroso e enaltece o time comandando por Cláudio Coutinho, ainda um embrião daquele que viria a conquistar tudo na década de 1980.

Em um dos versos, Moraes compara a nova formação ao time da infância:

Esse Flamengo de agora

Faz lembrar aquele do tri

Quem conhece a sua história diz:

Assim eu nunca vi

Sua paixão especial era o camisa 10 da Gávea. O jovem craque Zico. Antes da Copa de 1982, disputada na Espanha, Moraes compôs Sangue, Swing e Cintura. Na letra, enaltece Pelé, Garrincha, Zico, Sócrates e Telê Santana.

No final de 1983, com Zico já tricampeão brasileiro, da Libertadores e do Mundial, o camisa 10 anuncia sua partida para a Itália. Iria jogar na Udinese. Moraes compõe a súplica: “Saudade do Galinho”.

E agora como é que eu fico

Nas tardes de domingo

Sem Zico no Maracanã

Agora como é que eu me vingo

De toda derrota da vida

Se a cada gol do Flamengo

Eu me sentia um vencedor

A música é do LP Pintando o 8. Na capa, Moraes surge com a camisa rubro-negra de número 8, em alusão ao nome do disco (também usada por Adílio). A 10 tinha guardado para o retorno de Zico, conforme declarou/previu num outro trecho da mesma canção.

Volta Galinho

Que aqui tem mais

Carinho e dengo

Vai e volta em paz que o Flamengo

Já sabe como esperar

Capa do LP Pintando o 8, de 1983. Foto: Divulgação.

Homem de tanta versatilidade musical, embora nunca escondesse seu amor pelo Flamengo, Moraes fez juras também a outros clubes brasileiros. Em 1975, em cima do trio de Armandinho Dodô & Osmar, no Jubileu de Prata, cantou o hino do Bahia. Ali inaugurava uma tradição, repetida por um sem-número de artistas baianos dali em diante.

Em 1988, na campanha que levaria o Bahia ao bicampeonato brasileiro, compôs a música Trio-Color Bahia. A inspiração veio no estádio, quando o tricolor bateu o Internacional por 2 a 1, na Fonte Nova, no primeiro jogo da final.

Moraes estava nas arquibancadas ao lado do amigo e poeta Béu Machado. Começaram a escrever. Na letra, fazem um trocadilho substituindo Dodô e Osmar (criadores do trio) pela dupla Bobô e Osmar, que atuava no time comandado por Evaristo de Macedo (o mesmo Evaristo da sua infância em Ituaçu).

Mais um que um é pouco

Pro nosso tricolor

Quem vacilou vai dançar no trio elétrico

De Bobô e Osmar

E agita a bandeira

E grita para toda nação

Torcida brasileira

Bahia, Bahia, Bahia Campeão

Ixejá, samba e frevo

Paulinho Boca e Moraes Moreira, este usando uma camisa do Sport. Foto: Reprodução.

No dia da morte de Moraes, ergueram-se homenagens nas mais diversas partes do país. Uma delas foi do antigo companheiro Paulinho Boca. Ele postou uma foto na qual Moraes usa uma camisa do clube pernambucano Sport.

Para qualquer flamenguista, é praticamente inconciliável o convívio destes dois rubro-negros, por conta do controverso campeonato de 1987. Moraes dava de ombros para a rixa. Aos pernambucanos, devotada paixão e prestava reverência ao frevo, ritmo que adotou no seu cabedal de ritmos essencialmente brasileiros.

No seu corpanzil pareciam existir tantos corações. E tantos outros amores. Moraes Moreira amou o clube do povo de três cidades musicalmente negras: Salvador (Bahia), Rio (Flamengo) e Recife (Sport). E, em essência, sua música foi também isso. Povo, ixejá, samba e frevo.

 

 

 

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André Uzêda

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Como citar

UZêDA, André. Samba, ixejá e frevo: o futebol em Moraes Moreira. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 29, 2020.
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