02.12

São Paulo, o time do povo

Melina Nóbrega Miranda Pardini 24 de agosto de 2009

Apontado pela maioria dos jornalistas esportivos como o principal time da atualidade no Brasil, o mais organizado dentro e fora de campo, o mais competitivo dos últimos anos e o virtual campeão do Campeonato Brasileiro desse ano, o São Paulo Futebol Clube cumpre a sua missão primeira: de representar o Estado de São Paulo e todo o seu significado no conjunto da Federação, demarcando valores como modernidade, pioneirismo, desenvolvimento e elitismo.

A história de formação do São Paulo Futebol Clube, seu início pobre, a ajuda e o interesse da população da cidade (e dos grandes clubes da época, como Palestra Itália e Corinthians Paulista) em constituir um clube com o nome da cidade para firmar a identidade paulistana, merecem estudos mais aprofundados e desmistificadores da imagem de um clube, a priori, elitista, como foi construído em torno desse.

Lenda ou não, a história do epíteto “mais querido”, delegado ao São Paulo Futebol Clube, bem demonstra essa necessidade do povo paulistano de frente ao Estado Novo, reforçar a identidade de São Paulo em contraposição ao poder exercido pelo Rio de Janeiro na Federação, enquanto sede do poder.

Após a chamada “Revolução de 1932”, quando a cidade de São Paulo encabeçou e, praticamente lutou sozinha, contra o centro governista (sediado no Rio de Janeiro e representado pela figura de Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório), na ocasião de uma visita de Vargas àquela cidade houve uma passeata de clubes para prestigiar o chefe governista.

Ao passar o São Paulo Futebol Clube, o povo paulistano ovacionou tal clube, por ter o mesmo nome e cores do Estado que, tempos anteriores, tinha perdido a luta armada. Para diminuir as seqüelas daquela cisão ocorrida na “Revolução de 1932”, Vargas comentou: Pelo visto, esse é o time mais querido!

Essa história sobrevivente em nosso imaginário reflete dois elementos de vital importância na história brasileira: o regionalismo entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo (o primeiro, centro governista, e o segundo, pretendente a ser pólo de poder econômico e político do país) e a pretensão governista de unificar identitária e territorialmente o país nas décadas de 30-40, do século XX.

Os outros dois clubes mais antigos e com maior números de adeptos, o Palestra Itália e o Corinthians Paulista apoiaram tal iniciativa popular de criar um novo clube na cidade, para representar o Estado de São Paulo com mais afinidade. Mesmo porque, esses clubes foram criados por membros das colônias de imigrantes existentes em São Paulo no início do século XX; ou seja, sem nenhuma identificação, inicialmente, com a população pobre paulistana (fato demonstrado pelos nomes desses clubes e seus hinos, idolatrando a herança elitista proveniente do futebol inglês).

Conforme tais clubes ficaram famosos na várzea, conquistaram adeptos populares, e quando organizaram um campeonato oficial na cidade, já tinham uma enorme quantidade de torcedores provenientes das classes pobres de São Paulo. Porém, o São Paulo Futebol Clube foi o único clube do chamado Trio de Ferro Paulista criado por populares, que guardavam o pouco dinheiro ganho no final do mês para ajudar na construção de uma sede própria para o clube amado e a manter o seu departamento de futebol (único departamento do clube, em seu início), além de pedirem para amigos e desconhecidos contribuições financeiras em prol desse.

Inicialmente formado, na década de 1930, pelos integrantes da ala pró-profissionalização do clube mais elitista de São Paulo, o Clube Atlético Paulistano, mais os integrantes do clube futebolístico Associação Atlética das Palmeiras, nasceu com a mistura de cores alvirrubras, do primeiro, e alvinegras, do segundo e com o nome de São Paulo Futebol Clube da Floresta a primeira versão do SPFC. Ao se complicar financeiramente, o São Paulo da Floresta fundiu-se com o Tietê Futebol Clube, acabando com o seu departamento de futebol em 14 de maio de 1935. Porém, um grupo de amantes do clube e do futebol do São Paulo da Floresta começou a trabalhar para fazê-lo renascer[1].

Em entrevista, o ex-jogador são-paulino Nestor de Almeida comentou sobre a formação do São Paulo Futebol Clube:

“O São Paulo se fundou lá [no escritório Tobias de Barros, que ele trabalhava], estando presente o Luis Oliveira de Barros, o Zuzu Cunha Bueno, o Gastão Rachu (…) e João de Barros, pai do Luiz de Barros [1º secretário do clube]. E ele foi fundado justamente ali, na agência Tobias de Barros. Então, nesse mesmo dia da fundação do São Paulo, em que ficou combinada a fusão da Associação Atlética das Palmeiras com os elementos do Paulistano – não o Clube Atlético Paulistano, mas os elementos que fariam parte do time de futebol do São Paulo Futebol Clube. Foi nesse dia mesmo que foi desenhado o emblema, o escudo do São Paulo Futebol Clube, que é o mesmo de hoje – foi o nosso escudo, as três cores. Foi desenhado na minha frente o escudo dessas três cores. Embora o próprio São Paulo Futebol Clube hoje só considera que eles tinham sido fundados em 1935, depois do profissionalismo. Porque quando o São Paulo Futebol Clube da Floresta foi interrompido (…) alguns jogadores já não queriam jogar mais pelo São Paulo – houve qualquer coisa em relação ao profissionalismo, de nós não estarmos de acordo, muitos dos jogadores não estarem de acordo, outros estavam. Então, uma da dissidente desses jogadores fundou os Estudantes. O Estudantes ficou pouco tempo e o São Paulo Futebol Clube da Floresta ficou até 1933 (…) Aí veio o segundo São Paulo (…) Então, foi fundado por Porfírio da Paz, pelo Monsenhor Bastos, pelo Enza, Cícero Pompeu de Toledo. Então, eles fundaram o São Paulo Futebol Clube em 1935 (…) Eles nessa ocasião tiveram a boa idéia de trazer as cores do primeiro São Paulo da Floresta e trazer a tradição do Paulistano”.

Sobre o início do São Paulo Futebol Clube um de seus grandes goleiros, Hélio Geraldo Caxambú comentou[2]:

“Quando cheguei no São Paulo [1937], o São Paulo tinha dois jogos de camisa, duas ou três bolas, e olhe lá! Quando chovia durante a semana o velho Serroni tinha que secar as camisas com ferro de carvão para poder jogar no domingo, porque era camisa de lista vertical e camisa de lista horizontal. (…) Quantos meses de ordenado atrasado! Chegamos a fazer uma greve no São Paulo – três meses de ordenado atrasado! Palestra e Corinthians fizeram um jogo beneficente com renda para o São Paulo, aonde nos colocaram em dias os salários. (…) Deu dezoito contos de renda o jogo com o Palestra, na época, e eles nos pagaram dois meses e meio do salário, para nós todos, que estava atrasado. Logo na quinta-feira a noite o Corinthians também jogou com renda para o São Paulo! Claro que interessava a eles também ter um concorrente a altura deles! E o São Paulo é essa beleza, essa força, que está aí hoje! Que quando sento da minha cadeira cativa me sinto no paraíso! Para quem vem daquela época, para hoje, esse fastídio [sic] do São Paulo de hoje, tem que se sentir no céu, tem que se sentir no paraíso!”.

A formação e concretização da identidade elitista do São Paulo Futebol Clube ficou caracterizada quando sua sede passou a ser no bairro nobre de São Paulo, o Morumbi. Porém, o motivo dessa passagem identitária de clube do povo para o clube da elite paulista ainda merece mais atenção por parte dos estudiosos do futebol.

Uma hipótese por nós levantada para desvendar essa mudança de identidade seria concomitância entre os processos de concretização do Estado de São Paulo como pólo hegemônico de poder na Federação e a sua identificação como sendo o local da elite e da modernização no país, e a consignação do São Paulo Futebol Clube entre os grandes clubes paulistas e a afirmação de sua imagem elitista e moderna, cada dia mais acentuada e exaltada.

Poy, jogador e técnico vitorioso do São Paulo Futebol Clube falou sobre a mudança da sede do clube, do Canindé para o Morumbi, quando os jogadores ajudaram o clube vendendo as 12 mil cadeiras cativas do novo estádio[3]:
 
 
“Nós saímos de lá porque o campo do Canindé foi vendido para a Portuguesa. Nós estamos lá treinando cedido o campo pela Portuguesa até o Morumbi tivesse mais ou menos condições de poder ter treinamento. Mas, o pessoal da Portuguesa, a torcida da Portuguesa começou a freqüentar (…). Eles iam no treinamento, começaram a provocar (…) criaram um atrito e criou um pau daqueles. Daí para a frente a Portuguesa não deixou o São Paulo treinar lá e viemos de qualquer jeito treinar no Morumbi”.
 

 

Um clube criado sob a ambição de firmar uma identificação regionalista paulista, em um processo histórico onde se tentava unificar as identidades e territorialidades do país, não poderia ter vingado sem superar extremas dificuldades. Conhecer sua história de fundação consiste em um dos elementos vitais para analisar não somente a história do futebol no Brasil, como também, a própria história da sociedade brasileira.

Assim, o jogo de futebol realiza sua função heurística, tão cativante aos pesquisadores e curiosos do tema, pois demarca o seu papel de fenômeno social amplo, enquanto uma das manifestações da cultura popular brasileira, e por assim se constituir, torna-se elemento de análise e compreensão de determinados contextos históricos e realidades sociais.

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Como citar

PARDINI, Melina Nóbrega Miranda. São Paulo, o time do povo. Ludopédio, São Paulo, v. 02, n. 12, 2009.
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