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“se juega como se vive”: ensaio sobre futebol, migração, vida e morte na América Latina

Fabio Perina 17 de junho de 2021

Exemplos não faltam de uma relação transcendental entre futebol, vida e morte em nosso continente. Nos últimos meses um comovente vídeo rodou a internet: um jovem mexicano homenageado por seus amigos ao poder comemorar seu último gol após ser assassinado. O que faz lembrar que relacionar um ‘ataud’ (caixão) com o futebol é uma forma de provocação bastante comum nas rivalidades argentinas (mas também em outros países) como uma forma de menosprezar o adversário. Ao menos dois casos parecidos em anos anteriores me recordo que são ilustrados pelas imagens abaixo. Como quando a barra do Cucuta-COL conseguiu entrar no estádio com o caixão de um barrista morto para homenageá-lo. Ou outro caso da rivalidade ferrenha entre os maiores clubes peruanos, Alianza Lima e Universitario, quando a barra Comando Sur conseguiu roubar os ‘bombos’ da Trinchera Norte e, claro, usou a memória desse fato como um troféu de guerra.Da Argentina também se elaborou uma recente adaptação (e também bastante copiada em outros países inclusive já se popularizou no Brasil) nos últimos anos de torcedores se fantasiarem de ‘fantasma de la B’ quando um rival corre risco de rebaixamento. Uma forma de driblar as autoridades que começaram a proibir caixões sob alegação disso significar a sempre vaga “apologia à violência”.

Colômbia
Foto: Reprodução
Peru
Foto: Reprodução

Apresentei acima três casos bastante extraordinários (percepção potencializada pela presença da morte real ou simbólica), mas que brotam de um mesmo solo fértil que em nosso continente é a regra e não a exceção. É muito comum a historiografia atribuir bastante importância ao início não somente do futebol, mas do esporte moderno como um todo, à imigração de europeus no final do século XIX, contemporânea da rápida urbanização de zonas portuárias. Principalmente Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires, e em menor medida Santiago, Lima e Barranquilla. Mas também é preciso lembrar que o futebol tinha um papel estratégico no povoamento de largas zonas desérticas, como o norte do Chile (durante o ciclo do cobre), em que ao mesmo tempo que se acreditava que levar escolas levaria à educação da mente, levar clubes esportivos levaria à educação do corpo.
Pela razão evidente de um imigrante ser alguém com laços sociais rompidos com a terra de origem e com isso precisar reconstruí-las na nova terra. Dificuldades que se amenizavam através da auto organização em associações civis com seus semelhantes, como eram os clubes de futebol. Os quais rapidamente passariam por grande pertencimento e massificação até hoje. O Chile foi um caso singular de um futebol atrelado à imigração pela importância de clubes de italianos, espanhóis e até palestinos que permanecem profissionais até os dias atuais: Audax Italiano, Unión Española e Palestino. O caminho de volta também foi necessário, pois com a ditadura militar um grande número de chilenos emigraram para a Suécia e lá fundaram clubes sociais ativos até hoje.

Em anos mais recentes a migração interna no continente também guarda essa importância de novos fluxos. Pois a grande imigração de colombianos e peruanos para Chile, Argentina e Brasil (e até mesmo Europa e Estados Unidos) os fez rapidamente se reorganizarem nos novos países através de filiais de suas ‘barras’. (Sem entrar em muita profundidade histórica de conjunturas específicas, o que já explorei em outros textos, isso fortalece a hipótese que por Colômbia e Peru terem passado por conflitos internos violentos em décadas recentes leva muitos jovens a canalizarem para o futebol toda a identificação com os clubes. Distinto da identificação que cidadãos europeus e principalmente estadunidenses têm com seus símbolos nacionais). Ainda sobre tempos atuais, para as torcidas organizadas brasileiras ocorre algo similar com a migração de torcedores do Norte-Nordeste para o Centro-Sul.
A formação dos clubes como reflexo de uma intensa vida associativa um século atrás em países como Brasil, Uruguai, Chile e principalmente Argentina, teve um elo entre passado e presente pois foi um importante espaço de organização popular para se defender do recente projeto de mercantilização e venda dos clubes para empresas pelo ex-presidente-empresário Mauricio Macri. Em suma, a migração (e por consequência a formação de clubes e a mais recente formação de barras) é um importante tema de entrada para a popularização do futebol e seu mecanismo “compensatório”: pois ao se perder alguma coisa rapidamente se improvisa outra no lugar. Um certo batismo de fogo permanente no futebol latino-americano com efeitos duradouros sobre torcedores e jogadores.

Por falar em migração, uma inusitada interpretação trata de caminhos cruzados para a construção da brasilidade entre samba e futebol (SIMAS,2020). Se o samba veio da África com toda sua ginga em improvisar/expressar os corpos, futebol veio da Inglaterra com gestos metódicos e a pretensão de disciplinar os corpos em seu início. A invenção do drible (ou “gambeta” para argentinos e uruguaios) não poderia deixar de ter a ver com a construção da latinidade, como forma de improvisar e surpreender um jogo, quebrando seu ritmo e até sua lógica. Diante do risco dele se tornar mecânico demais com chuveirinhos e toques de lado infinitos. Poderíamos dizer, “garrinchar” o jogo e a vida.

Nesse sentido, o importante livro analítico de Giulianotti (2002) também teve uma inusitada licença poética: ao tratar que antes mesmo do futebol as touradas já ocupavam uma função simbólica importante em sociedades latinas, sobretudo seu surgimento na Espanha e depois sua ida para o México. Em contraste a outros europeus anglo-saxões se limitavam a ver a tourada como crueldade com o animal ao invés da construção de um ritual de encenação entre honra, vida e morte e até com alguns toques de fintas e dribles de um toureiro como um artista. Forças anímicas que séculos depois foram transpostas e germinaram para o futebol onde na América Latina ele melhor encontrou sua expressão criativa. Dessa forma, o imaginário do jovem pobre sul-americano se inspira em ‘pibes’ e malandros como Maradona, Valderrama ou Romário, de origens igualmente pobres, que driblam os zagueiros com a mesma astucia e vivacidade que driblam os obstáculos da vida diária. Acrescento que a partir dessa geração de craques dos anos 80/90 (não sendo coincidência que a autenticidade de suas vidas esportivas permaneceram após encerrarem a carreira em suas vidas pessoais e políticas) que a imigração dos ‘pés-de-obra’ se inverte com um fluxo mais intenso da América Latina (e demais regiões do Terceiro Mundo) para a Europa. E o futebol europeu ‘venderia sua alma’ para poder expropriar o talento que tanto venera e que dificilmente produz!

Maradona
Diego Maradona. Foto: Diego Torres Silvestre/Wikipédia.

Leituras de Apoio

SIMAS, et al. Arruaças: filosofia popular brasileira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. Nova Alexandria, 2002.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. “se juega como se vive”: ensaio sobre futebol, migração, vida e morte na América Latina. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 30, 2021.
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