108.17

Sem registro a história se perde

Luciane de Castro 17 de junho de 2018

Ao pensar o assunto que abordaria para retomar as atividades no Ludopédio, não tive como fugir do mote do último trabalho realizado para o Sesc 24 de maio.

Em 1988, a FIFA, sob o comando de Havelange, organizou um torneio experimental de seleções na China. Foi, ao contrário do que muitos dizem, a primeira vez que a seleção feminina atuou em um mundial. Nas demais situações, a equipe do Radar representava o Brasil.

Isto posto, quero relatar sobre o processo de pesquisa para a realização da exposição “60/30 – Conquistas do futebol brasileiro” e o abismo existente entre os registros da Copa de 1958 e do torneio da China em 1988.

Contamos exclusivamente com o acervo de algumas atletas cedidas ao Museu do Futebol para tentar contar um pouco da participação das primeiras convocadas no torneio. Imagens oficiais do torneio não foram encontradas, quer sejam de FIFA ou de alguma confederação participante do torneio.

A própria FIFA nos retornou informando que não possui imagens da competição e que as poucas que ilustram vídeo da série “Raising their game” não são de sua propriedade.

Como contar sobre o feito de 18 atletas sem imagens com qualidade suficiente para uma exposição? Como assimilar que, 30 anos antes deste feito, com tecnologia ultrapassada, a primeira conquista brasileira no mundial tem mais registros e não só isso, registro de melhor qualidade?

Damesvoetbal in 1917 in Portsmouth,Engeland. De ene club draagt witte truien tot over de heup en daarbij zwarte kniekousen. De ander donkere truien en ook lange kniekousen. Allen dragen een soort pet/muts. Op de achtergrond fabrieken en huizen. Women's soccer in 1917 in Portsmouth, England.
Registro de uma partida de futebol feminino em 1917 (Portsmouth, Inglaterra). Foto: Nationaal Archief.

Tiramos leite de pedra e construímos, com a ajuda de poucas atletas, a narrativa de um período do futebol feminino brasileiro que engatinhava em seus primeiros anos fora da “marginalidade” imposta pela proibição.

Nenhuma imagem da Getty com qualidade excepcional. Nenhum vídeo perdido por aí de um dos gols. Apenas recortes de jornal local e fotos tiradas e reveladas para o arquivo pessoal. Ainda assim, foi possível expor o panorama da época e fazer, ainda que de modo singelo, uma homenagem às meninas.

Claro que a exposição traz outros elementos e homenageamos também a seleção campeã de 1958 (completamos 60 anos deste feito) com uma luz mais forte sobre Didi, o homem da Copa. Destacamos o futebol como representação das conquistas de duas décadas. As mudanças significativas em diversos campos da sociedade nas décadas de 1950 e 1980, foram traduzidas e alimentadas pelo futebol ou pelo direito a ocupar os campos.

Fazer a costura de duas efemérides tão importantes foi muito interessante, especialmente para apontar a diferença abismal entre registrar uma competição masculina e feminina. Ressaltar esta questão é importante para que busquemos, de algum modo, preservar a memória do futebol praticado por mulheres, que invariavelmente passa por tentativas de apagamento, como agora, ao perdermos a transmissão dos jogos do Brasileiro Feminino.

O que fica de lição, especialmente para quem atua na produção de cultura futebolística, é a necessidade de enfatizar a importância de preservação de acervos pessoais e, mais do que isso, fazer com que as agentes compreendam que, ao fazer parte da história, suas participações e interações são fundamentais para que o apagamento não se perpetue. Visibilizar também é responsabilidade delas.

No mais, me resta um jabazinho: A exposição “60/30 – Conquistas do futebol brasileiro” está abrigada no Sesc 24 de maio, 8º andar e fica até o dia 29 de julho.

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Lu Castro

Jornalista especializada em futebol feminino. É colaboradora do Portal Vermelho e é parceira do Sesc na produção de cultura esportiva.

Como citar

CASTRO, Luciane de. Sem registro a história se perde. Ludopédio, São Paulo, v. 108, n. 17, 2018.
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