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Sem vacinas, sem Pan e sem o pulo de João

Pedro Henrique Brandão 18 de março de 2021
México 75
Fonte: Wikipédia

Em 1975, a capital paulista sediaria o Pan-Americano, porém, uma epidemia de meningite fez o governo militar desistir da organização do evento e a competição em que João do Pulo bateu o recorde mundial foi disputada na Cidade do México.

Às vésperas da edição de 1975, um imbróglio surgiu a respeito da sede dos Jogos Pan-Americanos, quando o Chile sofreu o golpe militar em setembro de 1973. Santiago sediaria a competição, mas a crise política instaurada com a tomada do poder pelo general Augusto Pinochet acarretou a desistência da cidade em receber os Jogos.

San Juan, capital de Porto Rico, que estava confirmada como sede de 1979, foi consultada, mas não topou antecipar a recepção alegando falta de tempo hábil para disponibilizar as estruturas necessárias.

O Pan paulistano

Jogos Pan-Americanos de 1963. Fonte: Wikipédia

A cidade de São Paulo já havia sediado o Pan-Americano de 1963, com jogos de futebol no Pacaembu e o basquete vencedor de Kanela dando alegrias no Ibirapuera. A metrópole havia provado sua capacidade para abrigar grandes eventos ao sediar um Pan que foi avaliado como exemplo de organização, mas que deixou como legado para a cidade apenas a Vila Pan-Americana, instalação em uso até hoje como residência universitária da USP.

Com as recusas, as atenções se voltaram para sedes anteriores. Em 1973 completava apenas 10 anos que São Paulo fora sede da competição, por isso, foi escolhida e aceitou o convite para receber o Pan-Americano de 75.

A primeira experiência, em 1963, não havia rendido grande legado, mesmo às pressas, o Pan de 75 deixou mais estruturas para a cidade com a construção de um novo ginásio no Ibirapuera e a reforma da pista de atletismo do complexo esportivo. Com quase tudo pronto, o governo militar teve que desistir da competição por conta de um mal invisível e mortífero.

Cidade Universitária
Conjunto residencial da Cidade Universitária da USP em São Paulo. Foto: Wikipédia

A epidemia de meningite

Desde abril de 1971, porém, um mal tão invisível quanto letal se alastrava pela cidade e deixava um rastro de morte apagado pela ditadura. Um surto de meningite meningocócica iniciado, provavelmente, na Zona Sul, era negado pelas autoridades militares e, por falta de ações de contenção, virou uma epidemia.

O que poderia ter sido controlado se houvesse alguma ação sanitária, com a política de abafa do governo militar, se tornou a maior epidemia de meningite pela qual passou o Brasil.
Anteriormente, aconteceram dois surtos da doença no país, em 1923 e 1945, mas nenhum com tantos casos e nem tão letal quanto o dos anos 1970. Muito em função de que a partir de maio de 1974, além da meningite tipo C, passou a circular também o subtipo A da doença.

A incidência oficial da doença chegou a ser de 200 casos por 100 mil habitantes. Era comum que os moradores das áreas mais pobres se queixassem dos sintomas — febre alta, dor de cabeça e rigidez na nuca — , mas por falta de atendimento acabavam por morrer em casa sem diagnóstico e não entravam para a contagem oficial — a clássica, nefasta e perigosíssima subnotificação que vivemos em tempos de Covid-19.

O Instituto de Infectologia Emílio Ribas era o hospital referência no tratamento à doença e até julho de 1974, foi o único socorro dos paulistanos em meio ao surto. Com cerca de 300 leitos, o Emílio Ribas chegou a ter 1200 pacientes internados.

A epidemia de desinformação da ditadura

Havia censura expressa ao tema nos jornais, a ditadura se negava a admitir no auge do “Milagre Econômico”, uma epidemia com números comparáveis somente aos surtos do chamado “Cinturão Africano da Meningite”.

Porém, a onda contagiosa atingiu sete estados e contabilizou cerca de 67 mil casos. Era impossível, mesmo para um regime militar, abafar uma epidemia dessa dimensão.

Quando a verdade foi posta nos jornais, o pânico tomou conta de São Paulo, onde registravam-se 40 mil casos. A população passou a conviver com o medo e era comum que as pessoas evitassem as proximidades do Emílio Ribas por receio de se infectar.

Com o caos em vigor, o governo suspendeu as aulas — no interior do estado, algumas escolas foram transformadas em hospitais de campanha — , cancelou eventos esportivos e anunciou a desistência de São Paulo, epicentro da epidemia, em sediar os Jogos Pan-Americanos.

Hospital Emílio Ribas
O doutor Carlos de Oliveira Bastos (1910-2003), então diretor do Hospital Emílio Ribas (à direita) acompanhando o governador Laudo Natel durante visita ao Hospital Emílio Ribas em 1973. Fonte: Wikipédia

O Pan e o pulo do João no México

A Cidade do México acabara de receber os Jogos Olímpicos de 1968 e a Copa do Mundo de 1970, portanto, dispunha de estrutura mais do que suficiente e foi a escolha óbvia para sediar o desalojado Pan.

Em preparação para os Jogos Olímpicos de Montreal, a delegação brasileira ignorou a epidemia em solo tupiniquim, foi ao México e acabou a competição no quinto lugar totalizando 44 medalhas, oito de ouro, 13 de prata e 23 de bronze.

Uma das medalhas de ouro surgiu do curioso fato de Brasil e México terem dividido o título no futebol, depois que as luzes do estádio Azteca se apagaram com o jogo empatado em 1 a 1. A decisão foi dividir a medalha dourada, mas como não havia medalhas para todos, cada seleção levou apenas a metade da premiação, ou seja, cada equipe saiu com metade de seus jogadores com medalhas de ouro e outra metade com prata.

Porém, é imprescindível recordar outra medalha, esta importantíssima, que é a de João do Pulo. O paulista de Pindamonhangaba conquistou não somente o topo do pódio como também o recorde mundial no salto triplo.

A marca de 17,89 metros conquistada em 15 de outubro de 1975, quando João tinha apenas 21 anos, perdurou mais de 10 anos como recorde mundial e até hoje, mais de 45 anos depois, figura na 12ª colocação das marcas mundiais na modalidade.

João do Pulo
Reportagem da “Folha de S. Paulo” de 16 de outubro de 1975, um dia após o recorde mundial de João do Pulo. Fonte: Reprodução

Para além da grandiosidade do feito de João do Pulo, ao pensar que aquele Pan poderia ter acontecido no Brasil, é impossível não imaginar que o recorde mundial que pulverizou marcas mundo afora, poderia ter acontecido em solo brasileiro e ser o primeiro recorde nascido sob a bandeira verde e amarela.

Sem a marca de João do Pulo, o Brasil esperou mais seis anos até que, em 1981, no Célio de Barros, Joaquim Cruz registrou o único recorde mundial em solo brasileiro na história. Poderia ter sido João com seus Pulos, em São Paulo, no Pan 1975, mas a epidemia e a desinformação da ditadura não permitiram.

O surto só foi controlado em 1977, após uma massiva campanha de vacinação. Em apenas uma semana cerca de 90% da população foi imunizada.

Além das incontáveis e valorosas vidas, a epidemia dos anos 1970 também roubou dos brasileiros a possibilidade de ver um gênio do atletismo, no auge da forma física, conquistar um ouro depois de bater um recorde mundial, que seria único em nossa história.

Perdeu o povo, perderam as famílias e perdeu o esporte brasileiro, que precisou ver um dos mais valiosos capítulos de sua história ser escrito no México, em meio a mais uma das tantas tragédias brasileiras.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Sem vacinas, sem Pan e sem o pulo de João. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 37, 2021.
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