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Senegal, novo campeão da 33ª Copa Africana de Nações 2022!

César Teixeira Castilho 21 de fevereiro de 2022

Os Leões de Teranga vencem os Faraós e seus sete títulos

Em sua primeira edição, em 1957, a Copa Africana de Nações (CAN) teve a participação de três seleções: Egito, Sudão e Etiópia. Atualmente, passados algumas décadas, um torneio de qualificação faz-se necessário no qual 24 nações se classificam para a fase final. Após quatro semanas, determina-se o vencedor, o campeão continental! Na última edição da CAN, sua 33ª edição, tivemos um novo campeão, inédito, sua majestade, o Senegal!

Em solo camaronês, na capital Yaoundé, um personagem se destaca no desfecho apoteótico. Logo após o apito final, ele se distancia dos seus companheiros de equipe, isola-se reflexivo. A medida que seus colegas de equipe festejam no círculo central do campo, de mãos dadas, Sadio Mané caminha sozinho, distante uns 20 metros, canalizado nos seus pensamentos. Após a defesa do sublime goleiro senegalês, Édouard Mendy, a sorte seria depositada na sua cobrança, nos seus pés.

Ele carrega consigo o peso de um país e avança serenamente em direção ao gol protegido pelo excelente guardião Gabski, mundialmente conhecido pelas suas “defesas reflexas”. O que passa na cabeça de Mané neste exato momento? Certamente, trata-se de seu sonho de infância, o sonho do título continental, ele que tem como ídolo os feitos históricos de El Hadji Diouf, bem como os dribles de Ronaldinho. Contraditoriamente, o fantasma do pênalti perdido permanecera vivo na sua memória, aos 7 minutos daquele mesmo jogo, Mané desperdiçara um tiro direto defendido pelo arqueiro egípcio.

Momentos antes de se colocar na marca penal, Mané é abraçado pelos companheiros, o amparo forja-se. Mané caminha enfim e afigura-se ao seu destino: bola na mão, não titubeia, bate forte, secamente, sem chances para o desmedido do Cairo. Um estádio, adormecido até então, como que tetanizado pela pressão, irrompe como um só homem, Mané.

Senegal
Foto: Divulgação/CAF

A vibração é contagiante, os gritos ensurdecedores, a tribuna de imprensa, abarrotada de jornalistas senegaleses, se deixa levar, expressa-se pelo coração! Nesse ínterim, Mané encontra-se soterrado pelos seus companheiros em uma atmosfera indescritível, nada menor do que o ensejado. O Senegal vence sua primeira CAN! O conto de fadas desenrola-se em Camarões, no gramado do imponente estádio de Olendé[1] e, como cereja do bolo, o adversário, nada menos do que a equipe do Egito, sete vezes campeão continental, cujo capitão é ninguém menos do que o faraó, Mohammed Salah. Antes mesmo do início da disputa de pênaltis, os Senegaleses começavam a perder a esperança, apegados no que poderíamos chamar de destino maldito.

A partir da fase eliminatória, um axioma se impôs aos faraós: o futebol é um esporte que se joga à onze, que dura duas horas e, comme grand finale, o Egito vence! Mas não dessa vez! Porém, os egípcios sobrepujaram efetivamente na construção do jogo, na desconstrução do adversário, suprimindo os oponentes e arrebatando o placar favoravelmente. Com um Salah nitidamente combalido, apesar de um remate certeiro de Mendy, os faraós poderiam ter embolsado o Graal por meio de duas ou três oportunidades reais nos minutos derradeiros. Tudo isso, sem que a equipe externasse cansaço após três prorrogações em jogos anteriores. Por outro lado, o Senegal apetecia a Copa, almejava se desvencilhar da premonição egípcia. Se Mané, eleito o MVP, merece as honras, Aliou Cissé não deve ser esquecido. (PENOT, 2022).

O ex-capitão dos Leões, derrotado nas penalidades por Camarões em 2002, longamente criticado, foi peça fulcral nesta proeza. Nada menos que duas qualificações para as finais da Copa do Mundo (2018 e 2022) e duas finais da CAN (2002 e 2019), feitos que estão incrustrados no seu auto-sacrifício e na sua consistência como atleta comprometido pelo seu país. Cissé foi capaz de se questionar, se metamorfosear, ouvir e voltar a lutar. Não é aceitável separar os heróis dessa conquista, Mané e Cissé formam uma equipe, uma dupla prodigiosa. O ex-jogador do PSG impôs sua assinatura, fez valer suas palavras e, acompanhá-las ao longo das quatros semanas de competição, nos revela a ideia de “família”, expressão salientada pelo próprio comandante.

Senegal Egito
Foto: reprodução Youtube

Mas, não esqueçamos dos outros tantos heróis, Édouard Mendy, guardião da pequena área fabuloso, Kalidou Koulibaly[2], o capitão que chegou no apagar das luzes, tal qual Diallo[3] ou Bouna Sarr[4], que certamente não se arrependeram da decisão tomada, feita pelo coração. O que falar de Idrissa Gueye, Kouyaté ou dos noviços, como Dieng, peça central na dinâmica do jogo frente ao Egito. A equipe merece as honrarias. Eles as receberam das mãos de Macky Sall, atual presidente do Senegal, no poder desde 2012. Ao vê-los comemorando em frente ao pódio ao som de Youssou Ndour, em perfeita coreografia, compreende-se que a noite estaria por começar. Dakar, cidade emblemática, capital onde se deu a recepção formal dos heróis, se incendiou com a chegada dos campeões africanos. É certo que, para os senegaleses, dormir não estava nos planos…

Notas

[1] O estádio de Olembé, situado na periferia de Yaoundé, capital camaronesa, foi construído inicialmente pela empresa italiana Piccini, enquanto que a parte final, os acabamentos, foram realizados pela empresa canadense Magil. Após 5 anos, o estádio finalmente ficou pronto, com um custo estimado em 249 milhões de euros. (KOUAGHE, 2021).

[2] Kalidou Koulibaly nasceu em Saint-Dié-des-Vosges, na França. Atualmente, Koulibaly joga na Itália, no Nápoles. Com dupla nacionalidade, e tendo atuado nas categorias de base da seleção nacional francesa, Koulibaly dcide atuar em 2015 pela equipe principal do Senegal. Como atleta da seleção senegalesa, Koulibaly joga as CAN de 2017 e 2019. Em 2022, no posto de capitão, Koulibaly levanta finalmente o troféu de campeão do continente.

[3] Abdou Diallo nasceu em Tous, na França. Atualmente jogador do PSG, Diallo teve passagem expressiva nas categorias de base da equipe nacional francesa. No entanto, em março de 2021, Diallo decide se juntar ao elenco da Seleção de Senegal, dirigida pelo ex-jogador Elliou Cissé, e atua como titular no jogo válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 contra o Congo.

[4] Bouna Sarr nasceu em Lyon, na França. De origem senegalesa, país de origem do seu avô paterno, Sarr, em um primeiro momento, demonstra interesse em servir a Seleção Francesa, mas não é selecionado no restrito grupo de 23 jogadores para a Copa do Mundo de 2018. Em setembro de 2021, alvo de desejo antigo do técnico Aliou Cissé, Sarr é convocado e aceita o convite para se juntar à Seleção do Senegal.

Referências

KOUAGHE, Josiane. Au Cameroun, le “stade phare » de la CAN 2022 n’est toujours pas terminé. Le Monde (Afrique), 2021. Disponível em: https://www.lemonde.fr/afrique/article/2021/11/12/au-cameroun-le-stade-phare-de-la-can-2022-n-est-toujours-pas-termine_6101892_3212.html Acesso em: 14 de fevereiro de 2021.

PENOT, Hervé. Le Sénégal se régale : les lions de Teranga ont remporté pour la première fois la CAN en battant l’Égypte au bout de la séance de tirs au but. L’équipe, 76º ano, nº 24660 2022, pp. 28-29. Disponível em: https://www.lequipe.fr/Football/Actualites/Le-senegal-fait-chuter-l-egypte-aux-tirs-au-but-et-remporte-la-premiere-can-de-son-histoire/1315621 Acesso em: 14 de fevereiro de 2022.

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César Teixeira Castilho

Pós-Doutorando em Estudos do Lazer (UFMG) Doutor em "Sciences du Sport et du Mouvement Humain" (Paris-Sud - Paris 11) Mestre em Estudos do Lazer (UFMG) Membro do GEFuT - Professor de Educação Física (UFMG)  

Como citar

CASTILHO, César Teixeira. Senegal, novo campeão da 33ª Copa Africana de Nações 2022!. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 24, 2022.
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