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Sobre a experiência de rever jogos

Nada irrita mais um fã do futebol do que a possibilidade de saber o resultado de um jogo que assiste. O que hoje habituou-se chamar de spoiler, há muito já é uma experiência deteriorante para o fã do futebol. Quando tive a oportunidade de morar por um tempo na região metropolitana de Belo Horizonte sofria, por exemplo, com vizinhos de condomínio que ouviam aos jogos no rádio. A ideia de que os lances que eu assistia na televisão já haviam sido narrados aos ouvintes do rádio, e de que se algo importante como um gol acontecesse, eu saberia de antemão por seus gritos deixava extremamente pobre minha experiência.

A ideia de imprevisibilidade é essencial aos esportes, e isso não é diferente no futebol. Embora tentemos muitas vezes, como aficionados pelo esporte, analisar as formações táticas, as estatísticas para tentar sempre prever os resultados possíveis, sabemos que isso é impossível. E isso nos encanta ao assistir o futebol: a entrega a algo inesperado. Talvez isso explique também, a irritação e a revolta que sentem os envolvidos no futebol quando se revelam escândalos de manipulação de resultados: é como se coletivamente tivéssemos sido enganados.

Contudo, em épocas de pandemia, se faz necessário ao fã do futebol preencher seu tempo em casa, que é obviamente onde devemos  estar, com alternativas a falta de jogos. Algumas opções aparecem. A primeira delas seria assistir a campeonatos que ainda não paralisaram. O Bielorrusso é um exemplo. No entanto, assistir a um campeonato que desconhecemos os times, e com uma qualidade técnico-tática questionável, não me parece ser a melhor opção. Outra opção viável é debruçar em leituras de obras que tem o futebol como tema central. Boa pedida, mas não suficiente. Assim como séries que tratam desse esporte. Embora séries como “The English Game” nos permitam mergulhar um pouco na história do futebol, elas não são suficientes para sanar a falta de jogos.

Surge então uma possibilidade que outrora me parecia inviável: assistir a reprises de jogos passados. Essa experiência, aparentemente insólita considerando o argumento do início deste texto, aparece agora como uma alternativa não só viável como recorrente. Os canais esportivos já perceberam isso, e não à toa o SporTV, na falta de programas para preencher sua grade, tem inundado sua programação com partidas antigas. Até a rede Globo se rendeu. A programação do domingo de páscoa a tarde foi a reexibição da final da Copa do Mundo de 2002.

Todos esses jogos já vêm de antemão com spoiler. Em todos eles, já sabemos o resultado, quem marcará os gols etc. O que explica então essa adesão? Confesso, que em um primeiro momento me mantive reticente quanto a assistir essas partidas. Contudo, no tédio da pandemia, entre leituras, reuniões remotas e outra atividades, me rendi e comecei a rever alguns jogos. Me surpreendi. Embora já soubesse de antemão os resultados dos jogos escolhidos, a experiência de rever aos jogos me levava ao florescimento de algumas emoções.

Jogadores do Atlético Mineiro erguem a taça da Copa Libertadores da América de 2013. Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG.

O primeiro dos jogos que escolhi, como bom atleticano que sou, foi a final da Libertadores de 2013, na qual o Galo se sagrou campeão em um dos jogos mais emocionantes da história do torneio. Mesmo sabendo o resultado final, pude reviver algumas emoções daquela final. Palpitações e taquicardia nos momentos mais tensos, alegria e euforia nos gols e pênaltis defendidos. Após essa experiência permiti-me vivenciar outras. Não só em jogos do Atlético e não somente em jogos de finais, contudo selecionava, mesmo que inconscientemente apenas jogos que de alguma maneira me traziam alguma lembrança marcante: ter visto o jogo no estádio, ter tido uma grande frustração com o resultado, ter ficado encantado com o duelo tático do jogo etc. Em todos esses jogos, a falta que a imprevisibilidade do resultado fazia foi preenchida pela rememoração dos momentos e emoções vividos na primeira vez que assisti às partidas.

Depois de rever alguns desses jogos, e refletindo sobre essas emoções pude perceber algo que até então me fugia à compreensão: a possibilidade que a fruição do futebol tem de nos permitir viver uma experiência. Walter Benjamim, no início do século passado em seu brilhante ensaio “Experiência e pobreza” já nos questionava “[…] qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?” (BENJAMIN, 1987, p. 115). Benjamin não era um fã do futebol e não pode viver a grandiosidade do esporte nos últimos anos, contudo sua pergunta coloca uma questão importante: Qual a possibilidade de na modernidade termos experiências coletivas que nos permitam sensações particulares? Talvez o futebol seja um dessas possibilidades. FIQUEM EM CASA.

Referências

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo, 1985.

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Carlos Augusto Magalhães Júnior

Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Lavras, mestre em Educação pela mesma Universidade. Atualmente é professor do CEFET-MG Campus Timóteo.

Como citar

MAGALHãES JúNIOR, Carlos Augusto. Sobre a experiência de rever jogos. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 23, 2020.
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