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Sobre a militância torcedora (II): estudo de casos palmeirenses

Fabio Perina 2 de dezembro de 2021

Para desenvolver mais o desencontro entre militância torcedora e massa torcedora já mencionado, em meados de 2015, logo na primeira rodada do Campeonato Brasileiro, na partida Palmeiras x Atlético-MG, foi sintomático que a Mancha Verde organizou protestos contra a elitização dos ingressos fora do estádio e dentro dele ficando em silêncio. O que tem um potencial simbólico de inversão e contestação, pois rompe a ordem de silêncio na rua e também rompe a ordem de festa dentro do estádio. É então que foi vaiada e xingada pelo “povão” que se viu na profunda contradição de “dar like” da torcida organizada apenas quando ela faz a sua festa tão marcante, porém sequer foi capaz de puxar o próprio canto e se acomodou com um claro “façam tal coisa por mim…”. (Obs 1: desde então nos últimos anos e principalmente nos últimos meses a situação que melhor representa a desunião entre palmeirenses das torcidas organizadas e do “povão” é diante de protestos cobrando melhor desempenho de jogadores e principalmente de treinadores). (Obs 2: anos depois finalmente a Mancha Verde conseguiu negociar com o clube uma pauta também a favor do “povão” que é uma cota fixa de cerca de 500 ingressos em bilheteria física por 50 reais buscando atender àqueles torcedores com maiores dificuldades de comprarem pelo sistema Avanti e pela via eletrônica).

Palmeiras
Foto: Mariana Mandelli

Por falar em estudo de caso, foi um desastre para a militância torcedora palmeirense que os dois primeiros anos (2015 e 2016) do novo Palestra Itália reformado em arena (me recuso a falar seu “naming rights”) coincidiram com o segundo mandato do presidente Paulo Nobre (muitas vezes chamado ironicamente por “nobre agiota”). Desde 2013, a dinâmica de sua gestão foi a da profunda fragmentação que ele buscou operar diante da massa torcedora palmeirense. Portanto, dificultando demais a militância torcedora. Tendo como principal instrumento a elitização dos ingressos e a intensa publicidade da nova arena. Um novo “brinquedo” para um velho playboy mimado extorquir ainda mais o torcedor pobre. O que se manifesta na prática com a segmentação do “bom” palmeirense que tem um cartão de sócio-torcedor Avanti para frequentá-la (e supostamente consumir mais nela) e um “mal” palmeirense que ao não ter o cartão sequer tem o direito de frequentar seu entorno no espaço público. Principalmente diante do maldito “cerco” contra a tradicional aglomeração festiva na Rua Turiassu, em frente à entrada principal do estádio, como uma das últimas medidas (a partir de fins de 2016) de seu último mandato e implementada em cooperação com Ministério Público, Polícia Militar e Federação Paulista. Assim como era de se esperar foi se consolidando uma fragmentação dentro da massa torcedora palmeirense entre o torcedor que que demanda conforto e vai apenas na nova arena e o torcedor que somente pode ir ou no Pacaembu ou em outros estádios como visitante. (Obs: uma fragmentação que não é total, pois ainda há o torcedor que vai em todas as partidas; e para ele é curioso que o limiar de sacrifício não é mais de disposição de dormir na fila da bilheteria mas da capacidade financeira).

Logo nos primeiros meses do primeiro mandato, Nobre investiu no nível prático no fim do repasse de ingressos para a torcida organizada (vide antes da arena sobravam ingressos para partidas menos procuradas) e junto no nível simbólico com o discurso que “a torcida organizada não representa todos os milhões de torcedores de um clube”. O que era ao mesmo tempo uma tentativa de marginalização da organizada diante do próprio clube e uma aposta em turbinar a arrecadação com o Avanti. Por ser uma tentativa de criar no torcedor que mora distante de São Paulo o compromisso que ele devesse ajudar o clube diante de profunda dificuldade financeira. (Obs: como se isso isentasse as péssimas gestões, o que aliás é uma cilada ideológica neoliberal bem cotidiana: a hiper-responsabilização individual e a des-responsabilização institucional) A réplica da Mancha Verde naquele momento é que ela não encontraria dificuldades na nova situação, bastando apenas atravessar a rua da sede para a bilheteria do estádio para adquirir os ingressos. Evidente que a declaração do dirigente reverberou muito mais na grande mídia e na massa torcedora forjando a impressão de discurso único e, portanto, de verdade.

Assim como outra “réplica” (entre aspas por ser mais praticada do que declarada) das torcidas organizadas diante dessas acusações tão infundadas de não representar os milhões é que não se pode aderir a uma falsa simetria entre um torcedor distante (que através do Avanti no máximo consome) e um torcedor próximo com um poder coletivo de incentivo ou cobrança muito maior no dia-a-dia do elenco e do clube. E é curioso ressaltar que uma grande torcida organizada como a TUP e sobretudo a Mancha Verde conseguem através de suas diversas sub-sedes por todo o Brasil oferecer uma proposta alternativa de aproximar a massa torcedora do clube através da auto-organização (e portanto entende o clube como um pertencimento coletivo e não apenas sua comunicação oficial padronizada). Com um vínculo muito mais profundo (por envolver uma ampla sociabilidade) do que se apenas pagasse em dia a mensalidade do Avanti.

Ora, aproximando esse caso das ferramentas marxistas de reflexão tratadas na primeira parte, podemos dizer que o chavão de Paulo Nobre que “a torcida organizada não representa todos os milhões de torcedores de um clube” expressa o assim chamado de “fetiche do autonomismo”. Ou seja, super-dimensionar a ação individual (portanto potencialmente como consumidor) para subdimensionar a ação coletiva organizada. (O que aliás já sabemos é típico do neoliberalismo esse jogo duplo de esvaziar o coletivo e turbinar o individual). Ora, se a torcida organizada incomoda tanto, a tática dessa esfera discursiva se descola da realidade enquanto não consegue construir nenhuma nova organização de base que a substituísse, sendo conveniente aos dirigentes que o máximo de “organização” que haja seja um banco de dados de cadastrados do Avanti e uma ouvidoria de marketing! (Obs: falando em marketing, me parece muito clara a forma que os grandes clubes investem ideologicamente na hegemonia do identitarismo sobre o classismo. Pois para eles vem sendo muito cômodo em anos recentes se engajarem em campanhas por inúmeros grupos minoritários em datas comemorativas, porém isso age como uma certa compensação pela profunda elitização contra as classes populares).

Por falar nessa segmentação de torcedores, esboço até mesmo que na condição do torcedor mandante que vai apenas na própria arena é muito cômodo o autoengano individualista de dizer que não precisa da torcida organizada. Porém poucos notam que surge uma espécie de contra-narrativa diante de outra realidade de um “jogo de guerra” fora de casa. Por ser a hora que o “povão” que viaja na condição de visitante se vê mais vulnerável a ser defendido pela organizada diante das adversidades. Diante de condições concretas imediatas de um incidente, de nada adiantaria posar de pacifista e “esperar” boas intenções do policiamento ou do torcedor rival. Mas sim admitir com pragmatismo que ao menos por algumas horas existe uma unidade tática com a torcida organizada como a postura mais preventiva por estarem no mesmo espaço.

Palmeiras
Foto: Mariana Mandelli

Felizmente havendo a alternância de partidas como mandante e visitante é possível no futebol se esboçar esse reencontro (ainda que temporário) entre militância torcedora e massa torcedora. Um caso muito evidente no início de 2017 foi o épico Peñarol x Palmeiras pela Libertadores, tão bem reconstituído no livro “Forasteiros” de Barneschi. No qual o incidente em território inimigo ficou tão fora de controle que caso os torcedores uruguaios conseguissem invadir o setor palmeirense eles não distinguiriam em agredir apenas o torcedor organizado e poupasse o torcedor comum. Porém foram impedidos pela Mancha Verde que evitou um massacre ao bloquear um portão aberto na grade de contenção entre os dois setores (diante também da vergonhosa omissão dos seguranças privados).

A esse importante estudo de caso também acrescento que uma visão marxista da correlação de forças de uma situação (ainda mais tão emergencial como essa) ensina que não se escolhe os termos em que se dá uma disputa, tampouco se escolhe quais as ações do inimigo, mas sim contar com a própria união e com a prontidão de enfrenta-lo no que for preciso. Por isso o pacificismo nas ruas e nas arquibancadas é uma “conversa pra boi dormir”. (Vide em temas como a divisão dos torcedores nos setores dos estádios diante do qual a rivalidade é um dado da realidade que não pode ser apagado por campanhas ingênuas pela paz ou alguma medida concreta de amplos setores mistos e sem divisões de infraestrutura. Pois sabem que o estádio tem que ser para todos, embora cada torcida em seu espaço defendendo suas cores. O que faz lembrar a ambivalência entre ruptura e continuidade na Parte I, em que há “territórios” na arquibancada construídos historicamente e que devem ser respeitados). E por falar em escolha, também acrescento em um sentido profundo que a narrativa pelos meios de comunicação diante de conflitos entre torcedores exacerbou tanto a marginalização das torcidas organizadas que coloca o “povão” em uma ilusória zona de conforto de acreditar que “só briga quem quer” (portanto bastaria como prevenção não ser parte da torcida organizada). Porém esse liberalismo implícito é impregnado de subjetivismo (essa banalização da “escolha” individual), e com isso desconsidera que as condições objetivas concretas imprevisíveis na condição de torcedor visitante se tornam mais acentuadas.

Palmeiras Peñarol
Foto: REPRODUÇÃO/OVACIÓN/URUGUAI

O próximo estudo de caso a ser mencionado é sobre o contexto do final de 2018 com a eleição de Bolsonaro e seu impacto no futebol. Sobretudo pelo seu impacto mais duradouro buscando associar sua imagem à do Palmeiras através da cumplicidade do presidente Maurício Galliote de permiti-lo entra em campo e erguer a taça do Campeonato Brasileiro. Em cerca de 3 anos essa foi a ação política no futebol mais eficiente de Bolsonaro por ter tido o resultado mais duradouro de “colar sua imagem” à do Palmeiras (embora mais recente passou a fazer isso ainda mais promiscuamente com a diretoria do Flamengo). O bolsonarismo busca adesão aleatória a dezenas de camisas de clubes trocadas a cada semana. Isso é parte das muitas agitações rotineiras de gerar confusões, o que aplica para a maioria dos temas. (Vide as frequentes confusões que incita ao disfarçar seu discurso de ódio como “liberdade de expressão” e seu projeto fascista como “democracia”, embora na prática seja uma ditadura da maioria sobre minorias).

Mas no futebol isso tem uma estratégia específica, pois visa criar pequenos núcleos bolsonaristas dentro de cada massa torcedora, inviabilizando tanto a militância torcedora diante da formação política de sua própria massa, quanto a coesão transversal das organizações dessa militância torcedora que pudessem contestar essa aberração. Em outras palavras, o líder fascista busca subverter a lógica torcedora para criar sua própria “torcida” ideológica tendo como objetivo enfraquecer todas as militâncias torcedoras clubistas! Há um sectarismo bolsonarista e uma “ditadura da unidade” contra os coletivos que sentencia “a torcida é uma só” sem que pudesse haver qualquer outra identidade complementar. O recurso tático mais imediato desse movimento para alcançar sua estratégia de profunda despolitização é ressuscitar o chavão “futebol e política não se misturam”. Embora recentemente o campo ideológico da direita tradicional também recorreu explicitamente a ele, vide a “leifertização”, ou seja, uma das mais profundas expressões de igualar o torcedor a um consumidor e deslegitimar seus movimentos políticos.(Obs: uma formação política anti-bolsonarista diante da massa torcedora como “trabalho de base” pode começar escancarando contradições vergonhosas: para o torcedor comum, questionar porque ele apoia que um político troque tanto de camisetas de clubes se ele próprio não acha isso certo para si; e para o torcedor organizado, questionar porque ele apoia que um político faça tanta apologia a armas se ele próprio supostamente deslegitima isso como tática de conflito com os rivais).

A partir disso, é preciso refutar o significado do “esquerdismo clubista”, outro fundamental esboço conceitual, do historiador João Malaia. Essa categoria ideológica opera a favor da hiper-fragmentação da identidade clubista. Ora, o clubismo já contém inerente alguma fragmentação por não se poder ter uma pretensão de unidade absoluta (tipo o maldito “Ame-o ou Deixe-o” de Médici). E dessa forma defendo que é positiva a rivalidade como uma forma de diversidade dentro da unidade. Porém a pior posição de torcidas organizadas e sobretudo coletivos torcedores (que por serem grupos bem menores são bem mais suscetíveis a sectarismos) é se acomodarem a uma polarização moralista como se na própria organização tudo estivesse “puro” e como se o rival fosse a fonte de todo o “mal”. O papel dessa acomodação é um afastamento ainda maior do trabalho de base de melhorar a própria organização interna e até mesmo disputar posições na massa torcedora do próprio clube. Afinal, seja no senso comum (massa em geral) ou até em ambientes bem específicos como coletivos antifascistas de outros clubes (militância torcedora) há um absurdo que foi naturalizado de associar o Palmeiras com o fascismo desde sua fundação e agora encontra sua suposta renovação diária através do bolsonarismo.

Já do ponto de vista dos torcedores organizados, os riscos diante do “esquerdismo clubista” também são significativos, pois se viram em um grande impasse ao terem que escolher entre a defesa da própria organização e o voto em um candidato com discurso de sua extinção. (Impasse pois, como defendido no final da Parte I, o segredo da massificação de torcidas organizadas ao longo de décadas foi a diluição de diferenças sociais e políticas em seu interior, portanto um recorrente não-posicionamento político, em contraste com os coletivos torcedores). Uma materialização desse impasse foi a eleição em 2018 como senador do Major Olímpio “surfando na onda” do bolsonarismo que tinha como uma das principais pautas eleitorais a extinção das torcidas organizadas (sendo que por ironia ele próprio se aproximou da Mancha Verde na eleição de 2014, mas a traiu). Nessa última eleição de 2018, alguns diretores da Mancha Verde manifestaram seu voto pessoal pelo PT no segundo turno, embora não tenham declarado uma posição institucional de voto anti-bolsonarista. Mas mesmo assim a confusão já foi significativa, pois pelo contrário essa posição institucional foi declarada pela maior torcida organizada rival: a Gaviões da Fiel. O que reflete na massa torcedora, mesmo dentre os torcedores organizados, perigosos discursos de polarização de “colar uma imagem” pessoal a um clube: Lula e PT/Corinthians de um lado e Bolsonaro/Palmeiras de outro. O que também teve uma amostra de menor dimensão na eleição municipal de 2020: Boulos/Corinthians e Covas/Palmeiras. (Embora santista, o ex-prefeito Bruno Covas aparecia em montagens “memeficadas” com a camisa da Mancha Verde para explorar esse contraste clubístico, na intenção de assim decidir o voto no segundo turno).

(Obs: É curioso notar que tanto para organizações da militância geral quanto da militância torcedora é muito difícil se proporem a objetivos distintos daqueles estabelecidos em suas fundações. Como claramente Gaviões da Fiel e Mancha Verde tiveram esse descompasso original e portanto suas diferentes posições políticas não podem ser justificadas apenas como clubismo).

Em suma, há um duplo papel muito negativo no “esquerdismo clubista”: tanto de palmeirenses supostamente de esquerda que, tomados por pessimismo, se negaram a se organizar por conta de terem assumido o rótulo do Palmeiras como um clube fascista; quanto um sectarismo do ponto de vista dos coletivos antifascistas de torcedores rivais ao deslegitimarem a luta dos palmeirenses no mesmo tipo de grupo.

Bolsonaro Palmeiras
Presidente da República, Jair Bolsonaro, assiste à partida de futebol entre Palmeiras x Vasco da Gama, válida pelo campeonato brasileiro 2019. (São Paulo – SP, 27/07/2019) Foto: Marcos Corrêa/PR (Fonte: Wikipédia)

O último estudo de caso fundamental (com vários desdobramentos do anterior) a ser tratado remete a algumas polarizações que estiveram mais explosivas do que nunca: palmeirenses x corintianos, fascismo x antifascismo e posicionamento x não-posicionamento. O contexto foi entre maio e junho de 2020 quando a maior parte da esquerda institucional esteve em uma posição não somente mais defensiva do que nunca como até mesmo de desmobilização de seus pares. (Obs: um caso concreto que mais uma vez confirma minha afirmação abstrata que o “torcer” é um energia incontrolável mesmo sem que houvessem partidas naquele momento). Diante do impasse da crise sanitária da pandemia cada vez mais agravada enquanto a base fascista do bolsonarismo ameaçava crescer de pouco em pouco nas ruas tendo como pauta medidas anti-isolamento. É então que setores de uma ampla “esquerda não institucional”, podemos assim dizer, ocuparam as ruas em número significativo pelo Fora Bolsonaro. Pois sabiam da necessidade que por pior que estivesse a pandemia, com as ruas permanecendo desocupadas isso teria um efeito de elevar a moral dos fascistas de que não encontrariam enfrentamento popular para seguirem saindo às ruas em número crescente. Daí surgiu uma palavra de ordem crucial: “se o povo tá na rua em plena pandemia é porque o fascista é mais perigoso que o vírus”.

Nesses atos foram protagonistas alguns movimentos negros, periféricos e anarquistas em geral, assim como uma temporária mas relevante unidade tática de coletivos torcedores e torcedores organizados (que até então conheciam mais distanciamento e competição do que cooperação). Relevante pois foram temporariamente deixadas de lado a condição dos anos anteriores da disputa política (posicionamento x não-posicionamento) assim como da disputa torcedora quanto a tamanho do grupo, vibração dos cantos, materiais nos estádios, etc., quanto a dia-a-dia da arquibancada). Assim como deixaram de lado uma hierarquia de qual determinação de pertencimento seria mais importante: se como parte da esquerda ou se como parte da torcida. Como um breve comentário quanto a esboçar qual o alcance espacial e temporal desse ciclo de atos é preciso dizer que as considerações a seguir remetem à capital paulista, embora também tiveram destaque em outras grandes cidades. Assim como um ano depois, a partir de maio de 2021, quando os atos pelo Fora Bolsonaro foram maiores e mais frequentes (em média uma vez por mês) a militância torcedora continuou se mobilizando nas ruas ao lado de outros militantes de esquerda. Quando agora sim a maior parte da esquerda institucional voltou a ocupar as ruas, embora com ainda pouca mobilização da massa geral para que os atos subissem de patamar de centenas de milhares para milhões de pessoas.

Palestra Sinistro
Foto: reprodução Facebook

Essa unidade tática entre os dois tipos de grupos foi ainda mais singular no caso palmeirense. A começar por uma instigante hipótese na qual supostamente palmeirenses fascistas saíram pelas ruas à procura de briga com corintianos antifascistas. Foi então que rapidamente o campo antifascista (com corintianos, palmeirenses e demais) notaram que não era mais possível esperar para ir em peso às ruas. Embora sem que o confronto físico chegasse às vias de fato, foi o momento que clubismo e a luta de classes fascismo x antifascismo mais se cruzaram, pois cada lado esteve de prontidão nas ruas. Embora sem um posicionamento da diretoria da Mancha Verde de que participaria dos atos, vários membros se juntaram ao já existente coletivo Palmeiras Antifascista através do novo movimento Palestra Sinistro (ou seja, um duplo sentido para o termo “esquerda” em italiano e para uma gíria popular que mostre disposição). A Mancha Verde não se posicionou a favor dos atos assim como a maioria das outras grandes torcidas organizadas. Embora alguns desavisados poderiam criticar, desconhecem a correta tática preventiva de contornar a vigilância burocrática permanente das autoridades contra as entidades e com isso evitar ainda mais punições que tentam enfraquecer suas organizações. Já como os demais movimentos não estão regulamentados pelo Estatuto do Torcedor e outras normativas então não poderiam ser punidos esportivamente—embora também não se possa menosprezar o risco de serem enquadrados na Lei Antiterrorismo. Essa criminalização dos antifascistas (não somente coletivos torcedores) foi aparentemente ao mesmo tempo a principal medida discursiva de Bolsonaro e a principal medida institucional da Polícia Civil de São Paulo com a abertura de inquéritos para buscarem sufocar o movimento antifascista naquele momento. Algo que aqui não tenho condições de ser mais preciso.

Outro grupo nesse perfil de militância torcedora que também obteve ainda mais visibilidade foi a Democracia Corintiana, inclusive lançando dois vereadores na eleição municipal no final do ano. Falando em rival, é importante considerar que unidade tática não significa que palmeirenses antifascistas e corintianos antifascistas supostamente estivessem lado a lado misturados nos atos. Mas apenas sabiam que estavam cada um em seu espaço pela mesma causa. Em suma, a tendência positiva desse embaralhamento é que torcedores organizados fiquem mais politizados e os coletivos antifascistas fiquem experientes na fundamental autodefesa que toda militância popular exige nas ruas. O que também é interessante por mostrar como essa manobra tática das entidades agindo na prática como movimentos é uma evidência concreta que mostra a força da afirmação abstrata que já mencionei que o ato de torcer é de difícil fixação e com isso de frequente potencial de contestação. (Obs: quem tem dificuldade de notar essa não-fixação quanto a estilo de torcer e dinâmica de grupos pode ter uma evidência ainda mais clara quanto ao espacial: ao aumentar o controle sobre a festa torcedora em um estádio ela se desborda para seu entorno). Assim como também acrescento que as torcidas organizadas com seu auto sacrifício e disposição à ação deixam (mais uma vez) uma profunda lição para a luta política não institucional: a de que de nada resolve “textão” e “nota de repúdio” na internet, mas sim ir para a rua (ou na maioria das vezes para o estádio) e defender as ideias que se acredita e para isso assumir o risco que for preciso. Vide um importante fragmento a seguir:

“Jamais podemos tratar as organizadas como uma espécie de “tropa de choque” antifascista, ainda que devido ao seu contexto de construção lidem com o confronto físico muito mais frequentemente que outros tipos de organizações, uma vez que a repressão policial nos estádios e entornos é gigante e tem como objetivo, em conjunto com a grande mídia, estigmatizar os torcedores como violentos e agressivos. As grandes operações policiais que repreendem os atos da militância durante as agendas de lutas é experimentada todos os domingos por torcedores organizados”. 

Por fim, é preciso algumas considerações sobre a repercussão imediata da militância torcedora pelo Fora Bolsonaro. Uma luta que implica negar constantemente o maldito chavão “futebol e política não se misturam”, mas também seguir negando o outro maldito chavão do “ópio do povo”. Pois grande parte da esquerda institucional, seja por ainda acreditar implicitamente no chavão do “ópio do povo” ou não, ficou surpreendida com as torcidas organizadas estando nesse posicionamento corajoso. Assim como compreender que por um momento nem que se fosse por alguns dias (em contraste com décadas de estigmatização) o Fora Bolsonaro foi uma “unidade tática” entre jornalistas e formadores de opinião em geral e a militância torcedora. A lição final que fica para o restante da militância em geral é de não esperar uma nova avaliação positiva da imprensa para desenvolver relações mais orgânicas com as torcidas organizadas e coletivos antifascistas. (Obs: o que é quase impossível, vide que com o retorno das partidas em agosto de 2020 e com o retorno de público nos estádios em outubro de 2021 também retornaram os protestos dos torcedores e com isso retornou a estigmatização pela imprensa que já estão acostumados)

Afinal a imprensa é a voz dos sujeitos dominantes do futebol contra os dominados. Vide que a conjuntura de meados de 2020 levantou muitas discussões no senso comum sobre o que é fascismo e antifascismo, e cabe à militância geral assumir a liderança de um antifascismo marxista ao invés de deixar ele ser capturado por um antifascismo “liberal”. Pois não podem aceitar uma tentativa liberal de manobra ideológica, com o intuito de desmobilizar a militância torcedora da militância geral, criando um terceiro chavão mentiroso que “clubismo é fascismo” , como se colocasse em um mesmo balaio conflitos pontuais entre torcedores e esse fenômeno de impacto social muito mais profundo e violento. A réplica da militância torcedora é com duas palavras-de-ordem: “as arquibancadas pedem liberdade” diante do sistema e “as arquibancadas possuem códigos” diante da massa torcedora. Por exemplo, em nome de uma vaga defesa da “tolerância”, há o absurdo de que alguém simplesmente por pagar um ingresso tenha “direito” a entrar infiltrado em uma torcida adversária. ou pior, há quem veja a arquibancada de forma tão individualizada e refuta o comportamento de grupo que acha aceitável ficar no setor popular próximo da organizada e ainda querer ficar parado e esperar não ser incomodado por isso! Em suma, certamente a militância torcedora tem muito a ensinar a militância geral quanto a preservação das organizações, pois as torcidas organizadas são usadas como bode expiatório para as autoridades desviarem o foco de tantas outras formas de violência banalizadas no cotidiano. O que afinal é o grande problema da visão liberal e/ou pós-moderna ao insistir tanto que “o fascismo está em todos os lugares”, porém com isso banaliza o termo e desresponsabiliza seus lugares mais estratégicos como nas elites e nos aparelhos de Estado. Vide outro importante fragmento a seguir:

“Alimentar contra esses indivíduos a violência simbólica que vemos quase que rotineiramente nos jornais, disfarçada de imparcialidade, não vai ajudar. Ao contrário. Assim reproduziremos todo o preconceito de classe e raça que se esconde nas “imparciais” manchetes dos jornais. Não nos esqueçamos que, quando parecia não haver enfrentamento ao bolsonarismo por parte dos setores progressistas, foram eles que ousaram enfrentar e puxaram para si o protagonismo na luta contra os inimigos da democracia. Eles mesmos, os indesejáveis.” 

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Sobre a militância torcedora (II): estudo de casos palmeirenses. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 3, 2021.
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