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Sobre a violência de ser homem (futebol e sociedade)

O Clube de Regatas do Flamengo alcançou em 29 de novembro passado sua terceira Copa Libertadores da América, ao vencer o Clube Athletico Paranaense. A partida foi no Equador, na tentativa da Confederação Sul-americana de Futebol de imitar a UEFA, já que a final das copas europeias é realizada em partida única, com sede definida antes do início da competição. O triunfo de um rubro-negro sobre o outro não foi comemorado de imediato com sua enorme torcida, uma vez que no regresso para o Rio de Janeiro evitou-se a aglomeração por que era dia de eleições presidenciais em segundo turno.

A festa ficou para outro momento, que foi no domingo passado, quando elenco e comissão técnica desfilaram em carro aberto para celebrar o feito, reunindo, segundo estimativas otimistas, dois milhões de pessoas. Sucesso, aliás que se alia ao na Copa do Brasil, em que o Fla igualmente chegou ao primeiro lugar. Em meio aos festejos, destacaram-se as homenagens a Gabriel Barbosa, o Gabigol, saudado como o maior ídolo dessa geração vencedora, campeã de praticamente tudo do que poderia ter sido. A torcida entoou em coro um insulto ao treinador da seleção brasileira de futebol, que não o incluiu entre os atacantes convocados para a Copa que está começando no Catar. Foram nove os homens de frente, mas o flamenguista, apesar de todos os gols que marcou nos últimos anos, ficou fora da relação final.

Como vários disseram, Gabriel tem o direito de reclamar de sua não convocação. Ademais, o clima era de festa. Sim, de acordo, mas chama a atenção que o tipo de ofensa destinada ao treinador que o recusou – “ei Titevai se f…, Gabigol não precisa de você” – remeta a que o ofendido seja sodomizado, o que sugere, verbalmente, a intenção de estupro. Que o homenageado tenha respondido, depois de deleitar-se com o coro, que não precisaria do selecionado nacional, uma vez que já joga numa “seleção do c.”, só reafirma o caráter fálico de toda a cena. É provável que ninguém ali, pelo menos assim se espera, estivesse, de fato, sugerindo que alguém fosse estuprado. No entanto, a linguagem cristaliza um impulso que tem lá suas origens na guerra, fenômeno que o esporte, mal ou bem, mimetiza.

Gabigol beija a taça da Libertadores da América. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

O gesto de Gabriel lembra o de outro senhor, ele que se manteve próximo à atual diretoria do Flamengo (ou ela a ele): Jair Messias Bolsonaro, cujo mandato de presidente da República vai terminando de forma melancólica. Em meio às recentes comemorações de Sete de Setembro, quando a Independência do Brasil completava seu bicentenário, o mandatário e então candidato à reeleição se regozijou com o coro que o acompanhava em uma atividade na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. “Imbrochável”, repetia em alto volume a turba ensandecida, tentando convencer a si mesma, e ao destinatário, de que nada seria capaz de deslocar o poder falocêntrico entronizado no Planalto.

Se são semelhantes, as coisas não são o mesmo. Enquanto chega a ser inacreditável que a liturgia do cargo de presidente da República tenha sido rebaixada a esse ponto, Gabriel Barbosa comemorava o grande desempenho que tem mostrado. Sua ausência na lista final que foi à Copa pode ser justa, já que é incomparável o nível do futebol jogado no Brasil e na América do Sul com aquele praticado nas principais ligas europeias, em especial na inglesa e na Champions League. Mas, ao marcar gols, dar passes decisivos e fazer a festa com a torcida, está realizando o que dele se espera. Jair, por sua vez, nunca chegou a cumprir o mínimo que se supõe que um governante deva, limitando-se a esbravejar e manter sua claque em constante mobilização, além de fazer o país regredir em muitos dos avanços que havia alcançado, a tão duras penas, nas décadas passadas.

Se não são o mesmo, as coisas são semelhantes. No filme de Fernando Grostein e Fernando Siqueira, Quebrando mitos[1] (2022), a masculinidade que Jair representa é chamada de “catastrófica”, ou seja, alguns degraus acima do que comumente se nomeia como “tóxica”. Não é tão diferente do que acontece no futebol, ainda que em grau mais baixo. Neste 2022 que vai chegando ao fim, os ex-jogadores Richarlyson e Emerson, tornaram públicas suas orientações sexuais, ambas destoantes em relação à heteronormatividade. Dois entre quantos? Foram anos em ação nos campos, sem que essa condição pudesse ser vivida com tranquilidade.

Goleiro formado no Rio Grande do Sul, Emerson não teve vida fácil, apesar do bom desempenho sob as traves:

A minha vida pessoal, a cada defesa que eu fazia, cada vez que eu me destacava mais dentro de campo, o buraco vazio aumentava também inversamente proporcional. Quanto mais famoso eu ficava, mais difícil se tornava ser gay dentro desse ambiente (…) O ambiente do futebol é muito hostil para um gay, muito mesmo. Eu fico imaginando quantos garotos desistiram de se tornar jogador de futebol por conta disso, por perceberem essa situação. Eu segui com tudo isso, mas sofri com as consequências de seguir. Eu queria ser goleiro do Grêmio. Eu queria ser um jogador de futebol. E eu conquistei isso, só tive que que enfrentar um outro lado que é muito difícil (…)[2]

Goleiro Emerson – Divulgação Grêmio FBPA

Cresci ouvindo que futebol é coisa de homem, de macho. Expressão de tremenda fragilidade, tal masculinidade tóxica ou catastrófica tem como resposta a violência destinada a si e ao Outro. Por sorte, já não é assim, pelo menos não em todos os lugares. Richarlyson, ao declarar-se bissexual, recebeu imediato apoio de colegas de ofício, assim como de São Paulo, Vasco e Atlético Mineiro, clubes em que atuara como profissional, e do Corinthians. Como tudo que é da cultura e nos constrói como humanidade, o esporte deve ajudar a dirimir o sofrimento e não louvar, em coro, o machismo e outras formas de opressão. Chega de bestialidade.

Coqueiros, Florianópolis, novembro de 2022.

 

Notas

[1] Documentário – Quebrando Mitos (2022)

[2]  Ex-goleiro de Flamengo e Grêmio assume ser gay: ‘Quanto mais famoso eu ficava, mais difícil se tornava’

 

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Sobre a violência de ser homem (futebol e sociedade). Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 19, 2022.
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