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Sobre escudos e histórias

Matheus Donay da Costa 20 de dezembro de 2021

Na Europa Medieval, a Heráldica destacou-se como uma disciplina que formulou bases para a criação de brasões. Embora o fenômeno da representação iconográfica não fosse uma novidade, é a partir da Heráldica que são organizados alguns padrões que se repetem em brasões de armas, de reinos, de famílias e sociedades civis.

Muitas vezes associados a grupos aristocráticos, as rebuscadas representações sobreviveram ao passar dos séculos e, se olharmos com atenção ao nosso redor, veremos que elas se manifestam nos espaços mais populares do cotidiano, como no mundo do futebol.

brasões
Diferentes tipos de brasões de armas conforme a heráldica. Muitos deles utilizados por clubes de futebol ao redor do mundo. Fonte: Wikipédia.

Com alguma naturalidade e indiferença, vivemos alheios às teorias e conceitos que sustentam símbolos que para nós, torcedores apaixonados, são sagrados e intocáveis. Por outro lado, em papéis engavetados e geralmente digitalizados em algum tímido canto de seus websites, clubes documentam em seus estatutos com generosa rigorosidade cada detalhe de suas representações.

Alguns chamam de brasão, outros de escudo, distintivo, emblema. Atentar para esses nomes parece coisa de menor importância, mas a verdade é que esses detalhes contam muitas histórias sobre os clubes brasileiros – histórias que muitas vezes são ignoradas pelas próprias instituições esportivas.

Há um ano, quando li o texto “Para sempre entrelaçadas – um inquérito sobre o logo do Sport Club Internacional”, assinado por Guilherme Mallet, fiquei inquieto e refletindo sobre como era possível que um clube não tivesse domínio sobre a história de um elemento tão forte como o escudo, o que levava ao compartilhamento de informações inexatas no próprio site e até mesmo a um impreciso marketing de caráter retro.

Tão logo, percebi que essa não era uma exclusividade do Internacional, mas dos clubes brasileiros em geral. Torcedores de todas as agremiações costumam confundir distintivos oficiais com distintivos bordados em uniformes, normalmente irregulares e que ao longo da história variaram de acordo com a fornecedora de material esportivo.

Ao visitar os websites dos principais clubes do Brasil, o que se encontra são descrições pobres, vazias em histórias, em significados, que pouco informam ao torcedor interessado. Se a heráldica auxiliou historiadores a compreender melhor aspectos sociais, culturais e artísticos de outros tempos, o estudo dos escudos de futebol poderia servir com mesmo propósito. Através da análise de cores, formatos, nomenclaturas e modificações ao longo da história, podemos compreender melhor o futebol, a globalização, as tradições e a cultura sui generis de cada instituição.

Um caso que chama a atenção pelo rigor descritivo dos seus símbolos no estatuto é o Palmeiras, com notórias referências aos conceitos heráldicos. Trata-se do único clube entre os grandes a definir a separação entre brasão e escudo, do tipo suíço. No site do Palmeiras ainda constam informações ausentes no estatuto: o escudo de tipo suíço é na realidade uma referência à Cruz de Savoia, símbolo da Casa Real Italiana. O texto do site ainda afirma que a atual identidade visual vem desde 1942, quando o clube mudou de nome.

Sem dúvidas, o Palmeiras até hoje é fortemente associado e identificado com a sua origem italiana. Seus símbolos, por consequência, carregam também essa característica. Mas o que sabemos sobre isso? Que debates tiveram os criadores do brasão palmeirense para escolher a Cruz de Savóia e não outro símbolo italiano? Seriam os fundadores pessoas admiradoras da Casa Real? Além disso, por quais razões o Palmeiras mudou de nome e brasão em 1942? São histórias que pertencem ao clube e sua torcida, onde brasão e escudo foram vítimas e testemunhos.

Palmeiras
Descrição detalhada dos símbolos palmeirenses no estatuto. No site, há a informação adicional sobre a Cruz de Savóia, ausente no documento. Fonte: Estatuto Social da Sociedade Esportiva Palmeiras. Reprodução.

Um exemplo interessante de abordagem da história do escudo ocorre no site do Grêmio, embora da ausência de ilustrações. O símbolo gremista, cujos as linhas remontam às antigas costuras das bolas de futebol, foi alvo de debates entre seus dirigentes em determinados momentos de sua história. Após a realização de duas excursões pela Europa nos anos de 1961 e 1962, percebeu-se a demanda de um escudo que identificasse o clube à primeira vista, uma vez que o distintivo era composto da sigla “G. Football P.A.”, passando a ser representado pela identificação “1903 Grêmio FBPA”. Essa mudança revela, sobretudo, o momento pelo qual o Grêmio passava, buscando reconhecimento internacional.

Aliás, a última mudança no escudo do Internacional ocorre pelo mesmo motivo. Desde sempre com as iniciais “SCI” entrelaçadas, o colorado, visando internacionalizar a marca em 2009, adicionou seu nome por extenso em uma borda. O estatuto do clube, no entanto, não considera a borda parte do escudo oficial, mas um adereço que deve passar pelo crivo do conselho deliberativo. Algo como adicionar uma estrela ou uma coroa, por exemplo.

O site do clube, no entanto, registra cada adição de estrela como um novo escudo, numa linha cronológica. Ou seja, há um desencontro entre a história pública do Internacional e o que revelam os documentos. Essa linha do tempo, que remonta desde a década de 1920, apresenta os escudos com as iniciais sobrepostas, diferentemente dos escudos demonstrados pelo Guilherme Mallet no seu texto já mencionado.

Em setembro, no dia do aniversário do Grêmio, o clube divulgou um vídeo nas redes sociais sobre a evolução do escudo e suas causas. Desta vez com ilustrações, o clube gaúcho menciona que as alterações mais recentes, embora tímidas, ocorreram a partir da computação gráfica visando padronização da identidade visual. Clubes como o Cruzeiro, por exemplo, possuem materiais disponíveis como “guia de identidade visual”, mostrando certa preocupação com o uso dos seus símbolos em diversas esferas, como produtos licenciados e divulgação na imprensa.

O mesmo ocorreu com o Vasco da Gama, através de uma reformulação no escudo cujo as justificativas apontam para debates pertinentes. No vídeo de divulgação nas redes do clube, a narradora afirma que “o clube precisa estar sempre em movimento, se renovar e olhar pra frente.  Um clube pioneiro como o Vasco precisa acompanhar as tendências e inovações do mercado, que vive hoje um movimento de modernização de marca e identidade. Estamos falando de atualizar e modernizar sem perder as raízes”.

O vídeo ainda salienta que muitas variações do escudo do clube circulam pelas redes e a nova identidade visual busca corrigir essas imprecisões – utilizando critérios técnicos de alinhamento, angulação, espessura. Aqui, podemos notar dois aspectos interessantes que marcam o futebol atual. Primeiro, a necessidade mercadológica de padronizar e modernizar o escudo, uma tendência vista não somente no Brasil mas também no exterior, como fizeram recentemente Atlético de Madrid, Manchester City e Juventus. Por outro lado, há a notória preocupação em manter elementos tradicionais do escudo vascaíno. “Respeitando o nosso passado, construindo um futuro gigante”, assim encerra o vídeo.

Vasco da Gama
Divulgação da nova identidade visual vascaína, alinhando demandas mercadológicas e tradição. Fonte: Twitter/Reprodução.

Quem optou por outro caminho recentemente foi o Athlético Paranaense, que adotou a grafia de seu nome utilizada nos primórdios, mas rompeu drasticamente com o escudo que ostentava há décadas. De acordo com o estatuto do clube, “O distintivo oficial é constituído por quatro faixas diagonais (…) cuja configuração representa um escudo e os “4 ventos”, que significam ambição, entusiasmo, inovação e rebeldia. Estes “4 ventos” em conjunto formam o Furacão.”

Olhar para frente e atentar-se para as demandas do mercado é sempre importante, afinal, clubes precisam de recursos. Mas olhar para o passado também pode ser fundamental estrategicamente. Torcedores se interessam pela história de seus clubes, compram camisas históricas, compartilham conteúdos nas redes sociais. O caso do Coritiba chama a atenção e penso que ilustra bem este vazio de histórias por parte dos clubes.

Em seu estatuto consta de que o emblema representa um globo de calotas polares. No site, há a foto de um escudo utilizado nos anos 10, seguido da informação de que pesquisadores o descobriram quase um século depois. Mas afinal, em que momento os diretores do Coxa optaram por essa mudança? Sob que circunstâncias foi escolhido um globo com calotas polares para representar o clube?

COritiba
Escudo descoberto por pesquisadores, de acordo com as informações publicadas pelo clube. Fonte: Site do Coritiba/Reprodução.

Mesmo da ausência de histórias, percebamos: pesquisadores descobriram um escudo antigo. Mas onde estão os e as pesquisadores e pesquisadoras nos longevos clubes de futebol? Há espaço para essa categoria de trabalhadores nas instituições esportivas? Para mim, que trabalho com história, parece uma resposta simples – mas notoriamente destoante do que pensam diretores de clubes.

Clubes de futebol populares no Brasil costumam ser instituições centenárias – ou quase lá. São décadas de transformações de pensamento, de técnicas, de ideias e conjunturas. Pessoalmente, me identifico com o passado do meu clube à medida que sei mais sobre ele. Não somente dos grandes feitos em campo – esses são fáceis de explorar – mas também da cultura do clube, da iconografia, das canções populares e dos torcedores históricos. Ninguém perde com o resgate de histórias, pelo contrário, é conteúdo legítimo e que pode ser convertido a favor da relação clube-torcida. Olhar para trás e dar um passinho para frente.

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Matheus Donay

Graduando em História na Universidade Federal de Santa Maria. Pesquiso futebol e alguns esportes radicais do sul da América, como truco, carreiras e jogo de tava.

Como citar

COSTA, Matheus Donay da. Sobre escudos e histórias. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 30, 2021.
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