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Sobre o descompasso entre nomes e posições no esporte

“Goleiro-líbero”, “volante-passador”, “falso 9” ou os “externos desequilibrantes” de Tite. Quem acompanha notícias e comentários veiculados no entorno do futebol já deve ter ouvido essas designações. O mundo esportivo sempre teve que lidar com modas e invencionismos que, ao menos momentaneamente, parecem quebrar paradigmas antes firmemente estabelecidos. Isso ocorre a partir da criação de novas funções táticas desempenhadas em campo, não necessariamente atreladas a uma posição específica pré-existente, e nem sempre acompanhadas de termos precisos que as caracterizem, que deem conta de sua complexidade. Seriam estas novas posições à espera de definições? Ao mesmo tempo, posições podem “morrer”, tais como o líbero e o ponta-de-lança. Há ainda aquelas que eventualmente “renascem”, como os laterais invertidos (o canhoto jogando pela direita e o destro pela esquerda).

É preciso adiantar que não se trata tão somente de uma questão semântica. Mas, em que pese a limitação dos termos, pergunta-se: é possível ainda falarmos de modo tão elementar que um time de futebol é composto por goleiro, laterais, zagueiros, volantes, meias e atacantes? Evidente que essa simplificação cumpre uma função prática de comunicação, afinal, existem características que são muito particulares e seria tarefa um tanto complicada transmitir descrições tão minuciosas. Há jogadores que, por si só, de tão únicos, mereceriam uma categoria só para eles. Pode-se dizer que as possibilidades combinatórias tendem ao infinito. E a ideia que parece predominar atualmente no mundo esportivo é mesmo a variabilidade. É preciso ter “cartas na manga” para adaptar-se a cada adversário e circunstância de jogo.

No basquete, por exemplo, há cinco posições (que, na verdade, são três que derivam em cinco; isso quando se está referindo aos seus nomes em língua portuguesa). São elas: armador, ala-armador, ala, ala-pivô e pivô. Note-se que, se desconsiderarmos as combinações, o que resta são apenas três posições: armador, ala e pivô.

Já no basquete estadunidense, cada uma das cinco posições recebe um nome específico. Na prática, são as mesmas posições mencionadas anteriormente, mas pode-se dizer que os nomes correspondem melhor às funções desempenhadas por cada ocupante delas em quadra. E as posições são, respectivamente: point guard, shooting guard, small forward, power forward e center.

Há ainda uma maneira simplificada, porém funcional, de se referir às posições no basquete, a partir de números. Nesse caso, o armador/point guard ocupa a posição 1, o ala-armador/shooting guard, a posição 2, o ala/small forward, a posição 3, o ala-pivô/power forward, a posição 4, e o pivô/center, a posição 5.

LayupBR
Fonte: Reprodução LayupBR

Note-se que o point guard e o shooting guard são referenciados por suas características de primeira linha defensiva, pois são, em geral, jogadores mais ágeis, responsáveis por dar o primeiro combate ao ataque adversário; entretanto, no ataque, o primeiro se volta mais à construção de jogadas, enquanto o segundo deve ter como característica um bom arremesso. Já o small forward e o power forward são, por definição, jogadores ofensivos e, por isso, devem ser altos: o primeiro, mais ágil, ataca pelas laterais, enquanto o segundo, mais forte, joga mais próximo à cesta. E, por fim, o center, em geral o mais alto e forte do time, atua centralizado no garrafão. E, claro, defensivamente, jogadores destas últimas posições tem como função proteger a própria cesta, bloqueando a passagem e os arremessos dos adversários e apanhando rebotes.

Essas seriam, de modo resumido, as posições padrão do basquete estadunidense. Mas, novamente, existem inúmeras variações e combinações que podem gerar posições “extra-oficiais”, como, por exemplo, o combo guard (junção de point guard e shooting guard, isto é, jogador que pode desempenhar ambas as funções) e o point forward (junção de point guard e small forward, ou seja, um ala que pode jogar de armador). Há ainda jogadores que transitam entre as posições, ou por ocupar uma zona liminar entre elas, ou porque conseguem alternar entre duas delas ou mais. E essas trocas de posições e funções podem ser feitas de acordo com as circunstâncias da cada partida. Portanto, ainda que mais específica quanto às funções referentes a cada posição em quadra, esta ainda é uma representação limitada, que não necessariamente reflete ou acompanha as ocorrências de jogo e suas transformações no tempo.

Mas a estatística e as ciências de dados, voltadas ao tratamento cada vez mais sofisticado da informação, quando aplicadas aos esportes, podem ajudar nessa tarefa. Numa conferência sobre esportes no MIT (Massachussets Institute of Technology), um estudante chamado Muthu Alagappan apresentou uma proposta de redefinição das posições do basquete a partir de dados coletados na temporada 2010-11 da NBA. Em vez das cinco posições tradicionais, sua pesquisa matemática apontou para a existência de, ao menos, 13 posições. A técnica utilizada foi a da Topologia Algébrica Computacional, que desenha padrões mediante representação espacial dos dados, gerando um mapa de semelhança.

Bola Presa
Fonte: Reprodução Bola Presa

Note-se que os nomes das posições fazem referência mais às funções e características de jogadores que ao lugar ocupado na quadra propriamente. Por exemplo, há cinco categorias para o ball-handler (controlador de bola): ofensivo, defensivo, combinado, shooter (arremessador) e role-player (jogador de suporte, que pode desempenhar vários papéis no time, porém mediano). Observa-se também que há duas categorias para os “protetores de garrafão”: uma para aqueles que são melhores em rebotes e tocos (paint protector) e outra para aqueles que são melhores em rebotes e pontos (scoring paint protector). Além disso, jogadores com características únicas, que desempenham papéis muito específicos ou que possuem estatísticas bem acima da média, são enquadrados em posições únicas nesse modelo (para a lista completa, com detalhes e exemplos, ver abaixo matéria intitulada “As 13 posições do basquete”, Bola Presa).

O problema do referente, porém, persiste. A princípio, não seria nada fácil assimilar no vocabulário esportivo designações tão longas e complexas tais como role-playing ball handler (o que, numa tradução livre, seria o “jogador de suporte controlador de bola”), ou aquelas que, no fim das contas, não dizem muita coisa, como a one-of-a-kind (categoria que abarca jogadores com características únicas e destoantes, que por diferentes motivos apareceram de forma isolada na representação gráfico-matemática). Além do mais, continua-se a recair no problema do descompasso entre signos e o “mundo”, afora relativismos e equivocações. Persistem, ainda, o problema da nominação, as questões semânticas e os debates quanto ao uso de determinadas categorias para designar posições no meio esportivo.

Fica a questão: como acompanhar as mudanças? Não há fórmula ou resposta pronta, mas é possível seguir o curso de algumas transformações ao longo do tempo e verificar suas (in)adequações. Sobre isso, e para voltar ao futebol, segue pertinente citação, que pode servir como indício de nosso descompasso:

“Isso me lembra um pouco o nosso futebol. Aos poucos isso está mudando, mas especialmente da metade dos anos 90 até metade dos anos 2000, o brasileiro tinha aversão a volantes, os jogadores de meio-campo com características defensivas. Era um absurdo um técnico jogar com 2 volantes, depois virou um absurdo jogar com 3 volantes e não demorou muito para que muitos times por aí jogassem algumas partidas com 4 volantes, para desespero de torcida e comentaristas! Era a morte do futebol, a vitória dos brucutus. Mas não, na verdade era uma derrota da língua”. (Bola Presa, citado)

Evidente que o autor quis dizer, com “derrota da língua”, que a reificamos, que a deixamos cair na obsolescência. A língua é viva e agentiva e perpassa continuamente esferas sociopsíquicas e, por isso, os esforços de ressignificação dos termos são sempre muito bem-vindos.

Nesse sentido, a matemática, a estatística, a computação, que servem a muitos propósitos no esporte contemporâneo, realmente oferecem dados bastante tangíveis e que ajudam no esforço linguístico de definição nominal. Em meio ao turbilhão de informações que são geradas a cada momento no mundo atual, resta a constante e infindável tarefa de (re)ordená-las e (re)interpretá-las, mediante novos fatos e acontecimentos. As possibilidades, novamente, tendem ao infinito.

A conclusão de Alagappan, o estudante do MIT, fruto da análise dos resultados daquela temporada 2010-11 da NBA, foi que elencos variados (isto é, que abrangem um maior número de posições, funções e características) levam ampla vantagem sobre elencos “redundantes”. O que não significa, necessariamente, que o elenco mais variado da liga será o campeão, ou que o mais redundante será o último colocado. Enfim, algumas coisas são transitórias, outras tendem a durar, mas o esporte, este sempre será imponderável.

Referências consultadas

Posições do futebol: as funções de cada jogador em campo

Posições de basquete: quais são e as funções dos jogadores

Entenda os termos do basquete da NBA

As 13 posições do basquete


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Diego Wander Thomaz

Mestre em Antropologia Social pela UFSCar e membro do LELuS.

Como citar

THOMAZ, Diego Wander. Sobre o descompasso entre nomes e posições no esporte. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 38, 2021.
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