92.1

Sobre o Sporting, a CBF e o respeito à História

Marcos Teixeira 1 de fevereiro de 2017

22 ou 18? Esta é a pergunta que a crônica portuguesa fez nos últimos dias sobre o número de títulos nacionais do Sporting. Isso acontece porque o presidente leonino, Bruno de Carvalho, uma espécie de Eurico Miranda de bigodes sem grife — e sem bigode também –, resolveu dar um chapéu na história do futebol de Portugal e aumentar o palmarés sportinguista na base da “auto-canetada”.

Explico:

O futebol português era dividido em torneios distritais. A partir de 1922, passou a existir o Campeonato de Portugal, que era disputado entre os melhores dos distritais do Porto e de Lisboa, em formato eliminatório, e foi abrangendo equipes de outras regiões com o passar dos anos (como aconteceu no Brasil com o Torneio-Rio S. Paulo). Foi disputado 17 vezes, entre 1922 e 1938.

Vamos ao contexto histórico e o que forçou a criação, na época, de um campeonato maior.

Nas eliminatórias para a Copa de 1934, Portugal levou uma sapecada da Espanha. Não foi uma derrota qualquer: foi um sonoro 9 a 0 para os vizinhos de Península Ibéria, num momento em que havia o plano governamental de fazer do futebol o esporte nacional e o regime de António Oliveira Salazar queria ganhar politicamente com isso, como a Itália de Mussolini já fazia, ainda mais depois do excelente papel na primeira competição internacional em que participou, os Jogos olímpicos de Amsterdã, em 1928. Na ocasião, ficou nas quartas-de-final, e viu duas seleções que enfrentou na preparação conquistarem medalhas: Argentina (empate) e Itália (vitória portuguesa por 4 a 0), ouro e bronze, respectivamente. [NE: Estado Novo e Esporte é um livro, do historiador Mauricio Drumond, que explica muito bem como o Estado Novo em Portugal e no Brasil usou o esporte como promoção política, entre 1930 e 1945, durante os governos de António Oliveira Salazar e Getúlio Vargas].

Leia também:
Pai, quanto é quatro mais um?

Então, entre as temporadas 34/35 e 37/38, foram disputados quatro campeonatos de caráter experimental, pois havia a necessidade de saber se seria economicamente viável organizar um campeonato que durasse o ano todo e contemplasse equipes do país inteiro. Nesse ínterim, o Benfica venceu três vezes e o Porto foi campeão em uma ocasião. Nascia, a partir de 1938/39, o Campeonato Português.

Também a partir de 1939, começou a ser disputada a Taça de Portugal, torneio que substituiria, nos mesmos moldes, o Campeonato de Portugal e que existe até os dias de hoje. Vale aqui destacar que o Sporting pleiteava que os quatro troféus que queria porque queria incluir na sua já boa lista de títulos foram conquistados nesta época, desconsiderando então os quatro torneios feitos como laboratório até a implementação definitiva do campeonato nacional com todos os times disputando partidas entre si, como acontece hoje.

Nas 17 edições em que foi disputado o Campeonato de Portugal (precursor da Taça de Portugal, não do Campeonato Português), o Sporting e o Porto venceram quatro, Belenenses e Benfica, três, e Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, um cada, o que alteraria a galeria de campeões nacionais, com o Benfica mantendo suas 35 conquistas (perde os três ganhos entre 34/35 e 37/38, mas compensa com os três campeonatos), o Porto saltando de 27 para 30, o Sporting passando a ter os tais 22 e, de tabela, Os Belenenses subiriam de um para quatro e, ao lado do Boavista, campeão em 2000, surgiriam Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, com um título cada.

Fica difícil encontrar um motivo que seja para justificar a desarrazoada tentativa do presidente Bruno de Carvalho de fazer saltar o número de glórias de seu clube. Historicamente, seria uma farsa não só considerar o Campeonato de Portugal como antecessor do modelo atual, como fazer sumir os quatro anos que serviram para pavimentar o que hoje é a Primeira Liga. Forma e conceito impedem que isso seja levado adiante, uma vez que a Taça de Portugal, esta sim a sucessora natural e legítima do primeiro torneio de dimensões nacionais da nossa Pátria-mãe, passou a ser disputada quando o Campeonato deixou de existir.

A prova inequívoca de que a tentativa nada mais é que um delírio isolado do presidente Carvalho é que, em 2015, o próprio Sporting Club de Portugal licenciou o seu Almanaque do Leão, escrito pelo jornalista Rui Miguel Tovar, e nele constam 18 títulos nacionais, não os tais 22. O próprio Tovar se recusou a revisar o número para cima e o Sporting, ao “corrigir” o Almanaque, não contou com a assinatura do jornalista.

Onde eu quero chegar com isso?

Ora, quero fazer o caminho que Cabral fez, mas aportar diretamente no Rio de Janeiro, mais precisamente em 2010, que é quando a CBF jogou Taça Brasil, Robertão e Brasileirão num saco só e saiu distribuindo troféus e estrelas como se não houvesse uma história a ser respeitada (vide infográfico abaixo).

infográfico_3marcadagua

De acordo com a decisão da CBF, que foi baseada no trabalho do historiadores Odir Cunha (este ligado ao Santos Futebol Clube) e José Carlos Peres, Taça Brasil, Roberto Gomes Pedrosa e Campeonato Brasileiro são uma coisa só.

Não são.

O embrião do Brasileirão foi o Torneio Rio-S. Paulo, que, como o próprio nome sugere, era disputado por equipes destes dois estados. A primeira edição aconteceu em 1933, mas não houve regularidade graças à transição para o futebol profissional (na mesma época, para se ter uma ideia, registros apontam dois campeões paulistas em alguns anos por haver dois campeonatos, o da Associação Paulista de Esporte Atléticos (APEA), onde jogavam as equipes ainda amadoras, e a Liga Paulista de Futebol (LPF), esta com os times que aderiram ao profissionalismo).

Voltando ao tema.

É só na década de 1950 que o Rio-S. Paulo é disputado com regularidade, apenas com equipes dos dois estados até 1966. De 1967 a 1970, é chamado definitivamente de Torneio Roberto Gomes Pedrosa (nome oficial do certame a partir de 1954) e admite a entrada gradativa de times de outros estados: primeiro Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, depois Bahia e Pernambuco. A partir de 1971, passa a ser o Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje.

Em 1959, em sistema eliminatório e disputada pelos campeões estaduais, surgiu a Taça Brasil. Ela foi criada pelo nada saudoso João Havelange para substituir o Campeonato Brasileiro de Seleções e para indicar o representante nacional na Taça Libertadores da América, criada um ano antes.

A única diferença entre o que aconteceu em Portugal e no Brasil é o sentido de onde saiu o pedido. Lá, foi fruto do desvario do presidente de um clube que não ganha nada de relevante há quase 20 anos, ao passo que aqui, embora tenha surgido a partir do levantamento de um par de historiadores, a medida é de cima para baixo. Ora, se a CBF resolve, do nada, distribuir dez títulos nacionais entre Santos (5), Palmeiras (2), Bahia, Botafogo e Cruzeiro (1), os clubes vão recusar?

É evidente que não.

Caso quisesse fazer justiça e respeitar seu próprio passado, a entidade deveria reconhecer apenas os campeonatos disputados entre 1967 e 1970, quando Palmeiras (2), Santos e o Tricolor do Rio venceram, em vez de tomar como verdade inconteste os apontamentos de Cunha e Peres.

São rotos e não se sustentariam caso o futebol brasileiro fosse sério.

Durante uma entrevista dada à equipe esportiva da Rádio Trianon, da qual faço parte, na tarde de 18 de dezembro do ano passado, o jornalista palmeirense (ou, como ele mesmo diz, palmeirense jornalista) Mauro Beting deixou claro que, por justiça e respeito à História, a Taça Brasil tem mais relação com a Copa do Brasil, não com o Campeonato Brasileiro. No entanto, ainda segundo ele, como a CBF, que ele comparou a um cartório, determinou, apenas cumpra-se. Friamente falando, é isso mesmo.

No fim das contas, a tal unificação serviu para que o Clube dos 13 fosse dinamitado no momento em que os clubes buscavam criar uma liga independente e era preciso, para o alto comando cebeefeano, rachar o núcleo da sua organização mais forte e sedimentada. Quando não pode fazê-lo com títulos para ganhar o apoio que precisava, tirou da cartola um estádio e desenterrou uma pendenga histórica, contrariando uma decisão já morta, enterrada e julgada pelo pleno do STF: a Copa União. Assim, puxou para debaixo de sua asa o Corinthians e o Flamengo, apenas os dois clubes mais populares do Brasil. De quebra, por causa do diabo de um troféu feio que dói, mas que representava a honraria fajuta de ser o “primeiro pentacampeão nacional”, disputada a socos, pontapés e liminares entre São Paulo e Flamengo, implodiu de vez o já citado Clube dos 13, nascido a partir da incompetência da própria CBF em organizar um campeonato, justamente o de 1987. Ironicamente, com a unificação, o primeiro pentacampeão brasileiro é o Santos, que venceu a Taça Brasil ininterruptamente entre 1961 e 1965. Ao menos por enquanto.

No país do cinco que virou nove, do dois que hoje é oito e do seis que é seis mesmo, mas que tem gente que enxerga sete porque o departamento comercial da emissora assim exige, os clubes não têm culpa (exceto no último caso). Em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol deixou claro que o Campeonato de Portugal é o pai da Taça de Portugal, não do Campeonato Português. Aqui, a CBF é pai, mãe e tutora da bagunça que, por interesse, ela mesma geriu, pariu e alimentou. Um monstrengo que mostra que, no Brasil, como dizia o saudoso Joelmir Beting, até o passado é imprevisível.

Seja um dos 10 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Marcos Teixeira

Jornalista, violeiro, truqueiro e craque de futebol de botão. Fã de Gascoine, Gattuso, Cantona e Rui Costa, acha que a cancha não é lugar de quem quer ver jogo sentado.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. Sobre o Sporting, a CBF e o respeito à História. Ludopédio, São Paulo, v. 92, n. 1, 2017.
Leia também:
  • 92.25

    Faça as contas, sou de humanas

    Leandro Marçal
  • 92.24

    Jesus, o do Jardim Peri e o da Vila do Calvário

    Luis Eduardo Veloso Garcia
  • 92.23

    Uma inusitada visita ao torneio de futebol de botão

    Wagner Xavier de Camargo